Mais calor e inundações? Emissões de gases do efeito estufa por desmatamento no CE aumentam 172%

Poluição está ligada à conversão de áreas naturais para uso agropecuário e a terras sem vegetação.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Uma rua urbana completamente alagada durante uma forte chuva, com água cobrindo toda a via; uma pessoa caminha ao centro segurando um guarda-chuva, há lixo espalhado nas laterais, prédios residenciais dos dois lados e um veículo com faróis acesos ao fundo sob céu cinzento.
Legenda: Relatório mostra que o incremento desses gases na atmosfera contribui pode levar à maior frequência, intensidade e duração de eventos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, inundações e ciclones tropicais
Foto: Fabiane de Paula

As emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) – que intensificam o aquecimento global ao reterem calor na atmosfera – saltaram 24% entre 2018 e 2023, exigindo medidas de mitigação a curto, médio e longo prazo. Nesse intervalo, o setor de Agropecuária e Uso da Terra tornou-se a maior fonte de poluição climática do Ceará

Os dados são do novo Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Ceará, lançado na quarta-feira (11) pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), em evento na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).

Conforme o relatório, o incremento desses gases  na atmosfera contribui para o desequilíbrio energético do sistema climático e leva à maior frequência, intensidade e duração de eventos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, inundações e ciclones tropicais.

Em 2023, as emissões líquidas de GEE atingiram 34,96 MtCO2e no Ceará, contra 28,1 MtCO2e em 2018. A sigla MtCO2e refere-se a “Milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente”, unidade de medida utilizada para quantificar grandes volumes de GEE.

O principal motor desse aumento, aponta o estudo, foi a conversão de áreas naturais em solos produtivos. O desmatamento para expansão agropecuária e áreas sem vegetação fez as emissões crescerem 172%, de 4,79 MtCO2e para 13,03 MtCO2e.

O Ceará também registrou uma redução drástica de formações florestais savânicas, típicas do bioma Caatinga, para dar lugar a atividades agropecuárias. Em 2023, mesmo que a cobertura florestal ainda fosse majoritária (67,8%), a agropecuária já ocupava 29% do território estadual.

Dentro das áreas destinadas ao uso produtivo, as pastagens abrangem 64% de todo o solo utilizado pela agropecuária no Estado, seguidas por áreas de agricultura (13,58%) e mosaicos de usos (22,3%). 

A expansão dos pastos reflete o peso da pecuária bovina, cujas emissões por fermentação entérica (digestão do gado, que produz gás metano) e manejo de dejetos cresceram 16% na série histórica. Em 2023, bois e vacas foram os maiores contribuintes da área de rebanhos, liberando 5,66 MtCO2e na atmosfera (em 2018, foram 4,8 MtCO2e).

A partir dos dados, o relatório ressalta a urgência de políticas para conter o desmatamento ilegal e incentivar a recuperação de áreas degradadas. A transição para práticas de baixo carbono é essencial para que o Estado cumpra metas climáticas internacionais e ajude a deter o aquecimento global.

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Esforço conjunto e metas claras

Para a secretária do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará, Vilma Freire, os dados apresentados revelam um cenário que exige atenção imediata e esforço coletivo. 

Classificando os resultados como “números que ainda assustam”, a gestora enfatizou que a reversão da tendência não é uma responsabilidade exclusiva do poder público, mas de toda a sociedade civil e do setor produtivo. 

“Não depende de uma decisão de Governo. Precisa da ação de cada setor, precisa da ação de cada um de nós”, declarou a secretária, destacando que o inventário é apenas o passo inicial de um processo técnico contínuo.

Rodrigo Perpétuo, secretário-executivo do Iclei América do Sul, entidade que ajudou a elaborar o estudo, reforça que o inventário é o pilar para o que define como “conformidade climática”, ou seja, a resposta do Ceará às diretrizes do Acordo de Paris – tratado internacional assinado em 2015 com o objetivo de limitar o aquecimento global a menos de 2ºC.

Cena rural com dezenas de bovinos de pelagem clara em campo aberto, desfrutando da vegetação, no interior do Ceará.
Legenda: Estudo aponta que a maior emissão de gases está ligada tanto à redução de florestas quanto à expansão da pecuária, principalmente a bovina.
Foto: Honório Barbosa.

Perpétuo detalha que o diagnóstico deve evoluir para um plano de ação climática que inclua metas específicas, com orçamentos designados e responsabilidades bem definidas. 

Porém, para que o Ceará cumpra sua parte no compromisso brasileiro de neutralidade até 2050, as emissões atuais precisam ser drasticamente cortadas em cerca de uma década. 

“As emissões que estão aqui inventariadas devem ser reduzidas em cerca de 60% até o ano de 2035. Não é tarefa fácil, não é tarefa de uma gestão”, alertou o especialista.

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Preservação da caatinga

Rodrigo Perpétuo destaca ainda que a Caatinga, que abrange quase 90% do território cearense, é capaz de reter 30% mais carbono do que a Mata Atlântica, sendo essencial para o processo de descarbonização. Ele adverte que a pecuária extensiva tem “roubado” áreas vitais do bioma, mas sua recuperação pode mudar o perfil ambiental da região. 

“A Caatinga bem protegida pode ajudar a transformar o Ceará em uma área que vai sequestrar mais carbono do que emitir”, projeta.

Isso acontece porque, na prática, as plantas do bioma absorvem e utilizam o gás carbônico no processo de fotossíntese, retendo os produtos em suas folhas, tronco, raízes e no solo.

Para enfrentar o preconceito de que a Caatinga é apenas um ambiente seco e descartável, o secretário executivo defende o fortalecimento da educação ambiental e climática nas escolas. 

Ele propõe envolver jovens e comunidades em projetos de regeneração e na criação de corredores ecológicos. “Precisamos trazer as crianças e jovens para essa agenda”, afirma, reforçando que a proteção do bioma exige conscientização social e política.

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