Atleta cearense relata rotina em Israel em meio a conflitos com Irã: 'Assustada'
Elaine Gomes diz ter medo de sair de casa e precisa ficar em um abrigo.
"Aflita e ansiosa". É como a jogadora de handebol cearense Elaine Gomes, 33, descreve o que vem sentindo desde o último sábado (28), quando o país em que reside atualmente, Israel, se aliou aos Estados Unidos para coordenar ataques ao Irã.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, a atleta compartilhou detalhes da rotina dela desde o início do confronto e a vontade de rever a família. "É muito assustador para mim porque nunca vivi isso antes", descreve.
Tudo começou para ela no início da manhã de sábado, dia em que um alerta ecoou por toda a cidade de Ashdod, no sul de Israel, onde ela vive desde agosto do ano passado, quando assinou com o Handball Club Hapoel Ashdod.
Neste dia, ela não saiu do apartamento onde vive e compartilhou um vídeo nas redes sociais tranquilizando os seguidores.
"Dois dias atrás, eu estava falando como a cidade aqui era linda, mas hoje eu acordei às 8h30 da manhã com um aviso de ataque. E, desde então, os alertas só aumentaram", relatou. "Mas eu estou bem, em segurança. É só essa apreensão".
Elaine explicou que tem em casa um quarto construído para ser um bunker. Essa estrutura, feita geralmente de aço pesado, foi pensada para proteger os moradores de ataques aéreos e bombardeios.
"É um quarto extremamente seguro, com cama, guarda-roupa, ar-condicionado, janela. Mas é todo protegido por fora", afirmou a cearense à reportagem.
Embora tenha um espaço de segurança pronto para qualquer emergência, Elaine destaca que essa não é a realidade de muitos israelenses.
"Quando os alertas começam a soar, as pessoas precisam descer as escadas dos apartamentos e ir para os bunkers subterrâneos, também de ferro, mas só com umas cadeirinhas para todo mundo", diz.
A cearense também se impressionou com o comportamento aparentemente tranquilo da população local diante dos últimos acontecimentos. "No domingo, resolvi sair para correr ao redor do meu prédio e vi que eles [os israelenses] estão tendo vida normal, como se nada estivesse acontecendo".
"Ontem eu fui a um parque e tinha tipo umas 50 crianças fantasiadas de homem-aranha, de desenhos animados. Tinha gente fazendo churrasco. Então assim, é chocante, eu fico passada como eles conseguem agir nessa naturalidade toda", confessa.
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Quando as sirenes soaram e os primeiros ataques apareceram nos noticiários, o pensamento de Elaine Gomes foi um só: sair de Israel. Há quatro dias, a cearense tenta contato com a embaixada brasileira no país para saber como proceder. Porém, ainda não teve sucesso.
Eu estou tentando ir embora e a embaixada não me responde. Isso é o que é mais louco, porque hoje eu estou no quarto dia e eu não tenho o contato de ninguém na embaixada. Já mandei e-mail, tentei ligar do número aqui de Israel e nada
A família e os amigos já estão cientes do desejo de Elaina em regressar e estão fazendo o possível para auxiliá-la de longe. Ao mesmo tempo, ela espera que seu relato possa chegar às pessoas com capacidade para trazê-la de volta.
Por enquanto, a direção do Handball Club Hapoel Ashdod não sabe das intenções dela de ir embora, e por isso a aconselham a ficar por mais uma semana.
"Além de mim, o time tem mais duas jogadoras estrangeiras, da Sérvia. Diferente da nossa embaixada, a delas já fez contato desde o primeiro dia e até tinham agendado uma viagem de volta. Mas a direção conseguiu convencê-las a ficar, assim como estão tentando fazer comigo", expõe.
Mesmo com toda a segurança oferecida no estrangeiro, o coração da esportista está na esperança do retorno. "Não estou bem. Nesse momento, estou muito assustada porque muitas coisas podem acontecer. Só quero ir embora", afirma.
Conheça Elaine Gomes
Natural de Foraleza, Elaine Gomes Barbosa começou no handebol muito cedo, aos 13 anos, quando assinou seu primeiro contrato profissional em Santa Catarina. Em 2013, conquistou o título mundial da modalidade pela seleção brasileira feminina.
Ela tentaria novamente o título no Mundial do Japão, em 2019, porém ficou de fora devido a um escândalo de doping que a afastou da seleção por um ano e meio.
A cearense eventualmente retornaria à agremiação em 2021, após o término do período de suspensão. Na época, ela comentou ao GloboEsporte.com como foi receber a notícia de que voltaria à seleção.
"Fui convocada de última hora. Quando recebi a ligação do meu supervisor, fiquei triste pela minha companheira de Seleção, mas, ao mesmo tempo, com muita gratidão e muito feliz por poder encontrar a seleção depois de tanto tempo. Meu coração parou", explicou.
*Estagiário sob supervisão do jornalista Felipe Mesquita.