Terreno com 420 famílias é desocupado perto do Aeroporto de Fortaleza

Moradores devem ser realocados em conjunto habitacional.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br

Desde o último fim de semana, uma área pertencente à União nas proximidades do Aeroporto de Fortaleza vem sendo desocupada em ação conjunta entre Prefeitura, Governo do Estado e Governo Federal. Cerca de 420 famílias que viviam em barracos no local começaram a sair do terreno ainda em dezembro do ano passado, após passarem por um processo de cadastramento e encaminhamento social. 

Segundo a Prefeitura de Fortaleza, antes da intervenção, os moradores da comunidade Heisenberg viviam em condições de extrema precariedade, em habitações construídas com papelão e sem acesso a saneamento básico, o que tornava o ambiente insalubre, especialmente em períodos de chuva. 

Embora tentativas anteriores de desocupação não tenham tido êxito, a operação integrada permitiu a construção de um acordo para a saída organizada do grupo. As tratativas começaram em setembro de 2025, conforme o líder comunitário João Evangelista de Souza.

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O Diário do Nordeste foi ao local nessa quinta-feira (5) e conferiu de perto a demolição de dezenas de barracos por uma retroescavadeira. Havia montes de entulhos, tapumes, lonas, sanitários e madeirites das habitações já destruídas. 

Moradores que já deixaram a área, pertencente ao bairro Dias Macedo, retornaram ao local para acompanhar as mudanças e ajudar na busca por gatos, cachorros e outros animais de estimação que pudessem estar escondidos nos barracos desocupados, para evitar que fossem esmagados pelo maquinário.

A região fica próxima ao canteiro de obras do Ramal do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Castelão-Aeroporto, cuja ordem de serviço foi dada em julho de 2025. Quando concluído, estima o Governo do Estado, ele terá capacidade para transportar até 35 mil pessoas por dia. A previsão de conclusão é 2027.  

Mulher em primeiro plano, de costas, observando uma escavadeira operando na demolição de moradias improvisadas ao fundo em Fortaleza.
Legenda: Ocupação no bairro Dias Macedo chegou a receber 500 famílias e hoje está sendo removida.
Foto: Fabiane de Paula.

Ocupação começou há quase três anos

Segundo João Evangelista, os primeiros moradores chegaram ao terreno baldio em meados de junho de 2023, em um contexto de vulnerabilidade econômica agravado pela pandemia da Covid-19: não conseguiam mais pagar aluguel ou precisaram deixar imóveis “emprestados”. No pico da ocupação, o local chegou a abrigar mais de 500 famílias.

Mesmo sem água e energia elétrica regular, eles ergueram os barracos com materiais disponíveis e de fácil acesso em lixões. As moradias também foram numeradas e dispostas em vias internas, para facilitar a organização. Assim, surgiram ruas de nomes diversos, como Da Paz, São Pedro e Clarim.

O cotidiano era difícil. Como a área não é urbanizada, a água invadia e empoçava os barracos. No entanto, a rede de solidariedade era mais forte e os moradores se ajudavam. Resistiram até conseguirem interlocução com os órgãos públicos.

“Nós fizemos os acordos de tudo com o Governo, com a Prefeitura, para poder garantir a nossa permanência aqui, pra gente ter um respaldo legal. As famílias saíram todas de boa vontade”, garante João.

Interior de um abrigo destruído com um sofá preto coberto de telhas quebradas, folhas secas e lixo espalhado pelo chão.
Legenda: Moradores deixaram o local em dezembro e se espalharam por bairros de Fortaleza.
Foto: Fabiane de Paula.

No início de dezembro, houve a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre as partes, sob coordenação da Defensoria Pública do Ceará (DPCE), para a realocação dos moradores em um futuro conjunto habitacional com 750 unidades.

No dia 14 do mesmo mês, todas as famílias já haviam deixado a área. “A gente só não tinha deixado derrubar os barracos ainda porque não tinha a confirmação da aprovação do projeto”, lembra o líder. “Quando saiu, nós liberamos para poder tirar os entulhos”.

Para onde vão as famílias?

Cerca de 300 das famílias desocupadas foram incluídas no programa de Aluguel Social da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Habitacional (Habitafor), a pedido das lideranças, recebendo auxílio financeiro para moradia temporária. Outras 120 moraram no local, mas já não estavam presentes durante as negociações.

“Está todo mundo espalhado. Tem gente dentro da Fortaleza toda hoje porque não conseguiu alugar a casa somente dentro do Dias Macedo”, confirma João.

O planejamento dos órgãos públicos prevê que os moradores recebam unidades habitacionais definitivas. As novas moradias deverão ser construídas no próprio território, com o objetivo de garantir que a comunidade permaneça na mesma região onde estava estabelecida.

Homem e criança em uma bicicleta percorrem caminho de terra em ocupação precária, cercada por vegetação e barracos improvisados.
Legenda: Moradores retiraram pertences do local.
Foto: Fabiane de Paula.

A solução se tornou viável por meio do programa Minha Casa Minha Vida - Entidades, do Governo Federal. Essa modalidade permite que entidades sem fins lucrativos da sociedade civil organizem e executem os projetos habitacionais.

No caso da comunidade Heisenberg, a entidade responsável foi a Associação Comunitária em Busca dos Direitos e Crescimento Social dos Bairros e das Feiras Livres Fortaleza (Acedicsof), que funcionava dentro da ocupação, com suporte da ONG Cearah Periferia.

Das 500 famílias estimadas originalmente, ficou definido que 420 vão receber novos apartamentos, conforme o relatório final levantado pela DPCE. Segundo Jonas Dezidoro, titular da Habitafor, as demais não se enquadraram no perfil e em critérios do programa, como estar cadastrada no CADúnico. 

Para o gestor, a Heisenberg é um exemplo de que escuta e diálogo podem render bons resultados na política habitacional.

Com paciência e entendendo os diversos interesses, a gente consegue chegar num consenso. Ninguém vai estar ali se submetendo a estar num barraco, em situações extremamente precárias, se não é pela necessidade de ter a sua moradia. Acho que esse processo nos ensina a importância de ter essa capacidade, de construir, de achar saída.
Jonas Dezidoro
Titular da Habitafor

Visão através de uma janela quebrada mostrando um lote demarcado com LOTE 62 escrito em uma placa de madeira.
Legenda: Barracos foram identificados e dispostos em ruas improvisadas.
Foto: Fabiane de Paula.

‘Vai ficar saudade’

Apesar do cenário de extrema vulnerabilidade, com acúmulo de lixo, alagamentos em períodos chuvosos e proliferação de animais vetores de doenças, moradores ouvidos pela reportagem relataram que a saída do local já deixou saudade.

É assim para Aliciana Lima, 60. Enquanto vivia na ocupação, com barraco construído debaixo de um cajueiro, numa “rua” bem arborizada da ocupação, ela chegou a sofrer dois infartos. Viviam sob muita tensão e constante ameaça de remoção, o que pode ter colaborado para os quadros, acredita.

Mas “Deus me deu duas oportunidades” e retornou para a vizinhança. “Dá uma tristeza porque... era bom. Aqui é bom de se morar”, disse enquanto caminhava ao lado das casas vazias. “A gente já estava acostumado. Toda tarde a gente fazia uma garrafa de café, aí ficava uma mesa ali, fazia lanche. Quem chegasse…”, perde-se nas memórias.

Mulher de costas caminhando por um terreno arborizado repleto de destroços, paletes de madeira e estruturas de barracos desmontadas.
Legenda: Aliciana Lima viveu no local precário por quase três anos.
Foto: Fabiane de Paula.

A rede de solidariedade era forte: se faltasse algo na casa de um, outro cobria. A maioria dos ocupantes vivia de benefícios sociais e de doações de alimentos, como gordura e ossos, e tinha acesso a água e energia elétrica por “gatos”.

Roberto Gonzaga, 62, conta que até chorou no dia em que foi embora. Foram quase três anos dividindo o pequeno barraco com o neto, hoje com 18 anos, enfrentando do calor ao frio: teve dias em que ligava dois ventiladores para ter conforto, mas em outros a água das enchentes bateu no peito.

Mas nada desabona a moradia erguida com as próprias mãos. “Era o lugarzinho que tinha”, recorda ele, que sobrevive vendendo água no entorno e de um auxílio de R$ 300. “Morar é caro em casa alugada”.

Adriana Rodrigues tem uma história ainda mais ligada ao local: gestou e deu à luz a filha de seis meses enquanto viveu na ocupação. Mesmo com o barraco, tinha um endereço e conseguiu fazer todo o pré-natal na rede pública.

“Eu fiquei mais preocupada depois que ela nascesse, por causa da chuva, essas coisas. Só que, graças a Deus, ela nasceu na época em que a gente já tinha saído”, comemora.

Para o líder João Evangelista, a transição para o condomínio representa a promessa de estabilidade e dignidade para essas famílias. “A gente é um grupo unido”, resume.

Escavadeira amarela da marca Komatsu demolindo barracos de madeira e entulho em um terreno com vegetação ao fundo em Fortaleza.
Legenda: Operação de limpeza do terreno deve durar uma semana.
Foto: Fabiane de Paula.

Atuação em três esferas

A operação de desmobilização foi responsabilidade da Superintendência do Patrimônio da União (SPU), antes dona do terreno, com suporte operacional da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) no apoio à desocupação e fiscalização da área. 

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A Habitafor atuou no cadastramento social e nas negociações com os ocupantes, que vinham sendo realizadas desde o ano passado, enquanto a Assessoria Especial de Relações Comunitárias do Governo do Ceará realizou o acompanhamento social das famílias. 

Em paralelo, a Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf) ficou encarregada da retirada dos barracos, remoção de entulhos e limpeza completa do terreno, um trabalho com duração estimada de uma semana e investimento de R$ 900 mil. 

Para assegurar a legalidade de todos os procedimentos e o cumprimento dos acordos firmados, a Defensoria Pública e o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) também acompanharam a atuação dos órgãos.

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