Arquidiocese do CE abre Campanha da Fraternidade sobre moradia em meio a déficit de 211 mil habitações

Após 33 anos, tema retorna ao foco do movimento, que visa estimular poder público e sociedade civil a buscar soluções.

Imagem mostra Ocupação Terra Prometida, comunidade carente com casas improvisadas em Fortaleza, com foco em crianças brincando na rua e céu parcialmente nublado, representando dificuldades de moradia e condições precárias.
Legenda: Sem acesso a moradias dignas, parte da população cearense recorre a habitações precárias.
Foto: Fabiane de Paula.

Olhar para a moradia como condição essencial para a dignidade humana. Essa é a proposta da Campanha da Fraternidade 2026, lançada oficialmente pela Arquidiocese de Fortaleza na tarde deste quinta-feira (19), em coletiva de imprensa na sede da instituição. Nesta edição, o tema é “Fraternidade e Moradia” e, o lema, “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

Segundo o arcebispo metropolitano Dom Gregório Paixão, a Campanha quer refletir sobre a realidade de milhares de cearenses que ainda não têm acesso a uma casa adequada

É chegado o momento da gente dar um passo concreto. Precisamos ter essa consciência, precisamos lutar por esse povo que clama, porque, afinal de contas, a gente cada vez mais cria medo, nos distanciamos de uma realidade que nos impele a uma atitude concreta." 
Dom Gregório Paixão
Arcebispo metropolitano de Fortaleza

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Essa não é a primeira vez que a temática é enfoque. Em 1993, a campanha “Onde Moras?” também destacara o direito à habitação digna. Após 33 anos, o problema persiste e retorna ao debate da entidade. 

"Se a gente não tomar uma atitude, se não dermos o passo certo, nós permaneceremos discutindo esse assunto na próxima Campanha da Fraternidade. Portanto, nós não podemos esperar mais", destaca o religioso.

Diante da iniciativa, Dom Gregório detalha que a Arquidiocese está atuando para reforçar locais da entidade voltados para acolher pessoas em situação de rua e de vulnerabilidade.

"Todos nós, enquanto Igreja, estamos nos preparando para que não apenas este ano tenhamos essa consciência, mas também que a gente abra espaço para possibilidades", afirma. 

Imagem mostra o arcebispo metropolitano de Fortaleza, Dom Gregório Paixão, em evento e lançamento da Campanha da Fraternidade 2026.
Legenda: Religioso destaca que esse é o momento de tomar atitudes concretas para solucionar o problema.
Foto: Nícolas Paulino.

Ceará tem déficit de 211 mil habitações

Segundo dados da Fundação João Pinheiro (FJP), instituição de pesquisa e ensino voltada à produção de estatísticas e indicadores demográficos e sociais, o Ceará tinha um déficit habitacional de 211.473 unidades em 2023, último ano analisado pelo levantamento.

O número complexo engloba o número de moradias necessárias para a solução de necessidades básicas habitacionais em algumas situações:

  • precariedade das construções ou desgaste da estrutura física — 22.396;
  • necessidade de acesso à habitação por coabitação familiar não desejada — 45.938;
  • domicílios em áreas urbanas cujo valor do aluguel compromete o orçamento familiar — 143.139.

Na Região Metropolitana de Fortaleza, o déficit estimado foi de 103.946 domicílios — 3.070 por habitações precárias; 22.555 por coabitação indesejada e 78.322 por ônus dos rendimentos.

A Campanha é um movimento nacional promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde 1964. Segundo a entidade, a escolha do tema acolhe uma sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas e reforça o compromisso histórico da Igreja com a defesa dos direitos sociais e da justiça.

Porta de entrada para demais direitos

No contexto nacional, 6,2 milhões de famílias não têm moradia adequada e cerca de 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para a Campanha, a casa é a porta de entrada para os demais direitos. 

“Sem moradia, faltam segurança, saúde, educação e dignidade”, pondera a CNBB.

O entendimento é reforçado pela promotora de Justiça do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), Giovana de Melo Araújo: "Muitas vezes a pessoa que vive em situação de rua diz: 'como vou ter condições de ter um trabalho se a primeira pergunta que me chega é qual é o meu CEP?'. Como posso pensar em tratar uma pessoa que está doente se ela convive com a vulnerabilidade das ruas? Como um cidadão desse pode ter garantida a sua segurança alimentar?", argumenta.   

"Não ter casa faz com que a pessoa viva em eterno estado de vigilância, em eterna guerra pela sobrevivência. O abrigo serve para que você possa estar seguro, calmo e alimentado", completa a juíza federal Paula Emília Moura Aragão de Sousa Brasil, convidada para a abertura. 

A CNBB também reverbera colocações do papa Leão XIV na exortação apostólica Dilexi Te: "Quando a Igreja se curva até ao chão para cuidar dos pobres, assume a sua postura mais elevada".

Assim, a CF 2026 quer estimular o poder público e sociedade civil a buscarem soluções concretas para enfrentar o déficit habitacional e fortalecer políticas públicas de habitação, como explica a coordenadora da Equipe das Campanhas do Regional Nordeste 1 da entidade, a assistente social e socióloga Patrícia Amorim Teixeira.

O objetivo é que a sociedade e o poder público, sobretudo, consigam realmente efetivar as leis, porque a gente sabe que elas já existem. Existe o plano diretor, existe o estatuto da cidade, então para nós é extremamente necessário que essas leis saiam do papel e se efetivem na prática."
Patrícia Amorim Teixeira
Assistente social e socióloga

Coleta e solidariedade

Além da reflexão temática, a Campanha propõe o chamado “gesto concreto”: a Coleta Nacional da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, marcando a abertura da Semana Santa em 29 de março

Do valor arrecadado, 60% permanecem nas Arquidioceses, formando os Fundos Arquidiocesanos de Solidariedade, que incentivam projetos locais. Os demais 40% compõem o Fundo Nacional de Solidariedade, destinado a iniciativas sociais em todo o Brasil.

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