Educação de Caucaia é rebaixada em avaliação do MEC; famílias denunciam falta de professores

Rede municipal perdeu, em 2025, o perfil Ouro do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização e foi rebaixada para a categoria Prata.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Uma sala de aula vazia com carteiras e cadeiras vermelhas, lousa branca e um alfabeto colorido decorando a parede.
Legenda: Falta de profissionais compromete andamento da aprendizagem e a rotina das famílias.
Foto: Natinho Rodrigues.

A rede municipal de educação de Caucaia perdeu, em 2025, o perfil Ouro do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização e foi rebaixada para a categoria Prata. O desvio, divulgado no início deste ano, coincide com uma série de reclamações de pais e responsáveis sobre faltas frequentes de professores nas escolas.

O selo é um reconhecimento simbólico concedido pelo Ministério da Educação (MEC) às gestões que demonstram o compromisso com a garantia do direito à alfabetização. Ele não tem natureza financeira, mas atesta o empenho e o foco nos resultados de aprendizagem.

Em 2024, primeiro ano da condecoração, Caucaia havia sido Ouro (pontuação entre 110 e 150 pontos). Já na edição 2025, estava na lista de cidades na categoria Prata (secretarias que obtiveram pontuação entre 90 e 109 pontos). Entre os critérios analisados, estão:

  • colaboração entre os entes federativos (estados, Distrito Federal e municípios);
  • implementação da política de alfabetização;
  • formação de docentes e gestores;
  • distribuição de materiais didáticos complementares de apoio;
  • resultados alcançados na alfabetização.

Veja também

Para o MEC, o selo valoriza o “compromisso político e institucional dos gestores com a alfabetização de todas as crianças, assegurando igualdade de acesso e oportunidades educacionais”.

Porém, na prática, diversas unidades de Caucaia vêm passando por problemas na grade docente. Ao Diário do Nordeste, pais denunciam a ausência frequente de professores e a falta de cuidadores para alunos atípicos, o que resulta em interrupções nas aulas e no envio antecipado dos estudantes para casa. 

Essa instabilidade compromete a organização familiar, dificultando que os responsáveis mantenham rotinas de trabalho e o planejamento doméstico. A situação também tem gerado indignação porque pode comprometer o aprendizado das crianças.

147
escolas municipais (92 urbanas e 55 rurais) faziam parte da rede de Caucaia em 2025, segundo o Censo Escolar. Elas atendiam quase 51 mil estudantes matriculados (41,4 mil na zona urbana e 9,4 mil na zona rural).

Alunos sem aulas

No bairro Icaraí, Ana (nome fictício) diz enfrentar uma batalha semanal na Escola Celina Sá Morais. Mãe de um menino com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela afirma que a falta de profissionais ocorre rotineiramente. 

“Toda semana tem algum motivo pra mandar os alunos mais cedo pra casa, porque algum professor colocou atestado ou por carência”, conta ela, ressaltando que o filho também está sem o cuidador necessário para acompanhamento.

Ana afirma que o núcleo gestor costuma avisar sobre a suspensão das aulas em grupos de mensagens, prometendo atividades domiciliares via WhatsApp.

“Como os pais vão trabalhar tranquilamente? Se de uma hora pra outra não tem aula, professor falta, bebedouro quebra... tudo é desculpa!”, desabafa, mencionando que já chegou a procurar a Secretaria Municipal de Educação (SME) para reclamar, mas a situação persiste desde o ano passado

Ela ainda acrescenta que a estrutura física da escola é precária, com salas “quentes e minúsculas” e carteiras tomadas pela ferrugem. Nessa semana, houve cancelamento de aulas por falta de abastecimento de água.

A realidade não é diferente no bairro Araturi, onde Vera (nome fictício) também é impactada pela interrupção das atividades escolares. O filho, que estuda no período da manhã no anexo da Escola Rita de Cássia Brasileiro Pontes, está totalmente sem aulas.

Ela explica que, desde o dia 2 de março, o horário de aulas já havia sido reduzido, mas agora a situação se agravou com a ausência de duas professoras. “Isso faz a nossa rotina mudar totalmente”, lamenta.

Além do transtorno imediato, ela demonstra preocupação com o desenvolvimento educacional do filho, pontuando que será difícil recuperar o tempo perdido porque este é o primeiro ano da criança na escola.

Auditório lotado com estudantes sentados em carteiras vermelhas, de costas para a câmera, assistindo a um palestrante no palco, com um projetor exibindo texto ao fundo.
Legenda: Aulão para estudantes da rede municipal de Caucaia.
Foto: Divulgação/SME.

Sindicato cobra reforço

O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Caucaia (Sindsep) afirma acompanhar a situação de perto. “A convocação de professores, inclusive, é uma das pautas da nossa campanha salarial deste ano”, afirma a presidenta da entidade, Maria Santos.

Segundo ela, de 2025 até o momento, já houve convocação de cerca de 500 professores, “o que demonstra que existe uma demanda real na rede municipal”. Ainda assim, chegam relatos de falta de professores em algumas unidades escolares. 

“Por isso, o sindicato segue cobrando da gestão municipal a continuidade das convocações, bem como a prorrogação do concurso público, para que todos os candidatos aprovados no cadastro de reserva possam ser chamados”, explica Maria.

O Sindsep também acompanha as seleções realizadas pela Prefeitura, sempre defendendo mais transparência e agilidade nos processos, “para que nenhuma turma fique sem professor e os estudantes não sejam prejudicados”.

Veja também

O que diz a Prefeitura de Caucaia?

A reportagem buscou a SME para pedir um posicionamento sobre os problemas. Sobre a carência de professores, a Pasta informou que realiza um monitoramento permanente da lotação por meio da Coordenadoria de Recursos Humanos.

A gestão relatou que situações pontuais de ausência podem ocorrer por licenças médicas, afastamentos previstos em lei ou participação em atividades de formação. Nesses casos, a Secretaria “adota as providências administrativas necessárias para minimizar impactos e garantir a continuidade do processo de ensino e aprendizagem”.

“Para suprir afastamentos temporários ou vacâncias, a Secretaria conta com banco de profissionais oriundo do processo seletivo realizado em julho de 2025, o que possibilita a convocação de docentes conforme a demanda identificada pelas escolas”, declarou.

Quanto ao déficit de cuidadores para alunos atípicos, disse que conduz atualmente a análise dos dados referentes às matrículas de 2026, considerando os estudantes com laudo médico e as necessidades de acompanhamento individual.

Para esse suporte, neste ano, já houve a convocação de 184 aprovados em concurso público e cadastro de reserva para o cargo de Agente de Suporte em Educação – Cuidador. A distribuição dos profissionais ocorre conforme avaliação técnica das necessidades.

Vista aérea de um complexo escolar com telhados de telha colonial e grandes instalações de painéis solares fotovoltaicos, em um ambiente urbano de Caucaia.
Legenda: Prefeitura informou que está modernizando parque escolar da cidade.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Caucaia.

Sobre as condições das instalações físicas das escolas, informou que já vem atuando para promover reformas e melhorias. Atualmente, mais de 30 unidades escolares estão em fase final de requalificação, incluindo climatização e modernização dos espaços. Paralelamente, outras 25 estão em fase de licitação para início de obras.

Além disso, 13 quadras poliesportivas já foram reformadas, “ampliando as condições para a prática esportiva e atividades pedagógicas”, e mais 14 têm início de reforma previsto para o segundo semestre deste ano.

Já sobre o selo nacional, esclarece que “a classificação Prata divulgada em 2025 considera indicadores educacionais referentes ao ano de 2024, conforme metodologia adotada pelo Ministério da Educação (MEC) para avaliação das redes de ensino”.

Também ressalta que a certificação passou por atualização de critérios e incluiu o cumprimento da meta de alfabetização definida individualmente para cada município. “No caso de Caucaia, a meta estipulada para 2024 foi de 69,14% de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do Ensino Fundamental. O Município registrou 69,01%, o que influenciou a classificação final”, pontua.

Por fim, a SME disse que mantém o compromisso de fortalecer as políticas de alfabetização na rede municipal, destacando ações como avaliações diagnósticas contínuas, formação de professores, ampliação das práticas de leitura e escrita na educação infantil e o desenvolvimento de estratégias de recomposição da aprendizagem.

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados