Fortaleza tem 110 ninhos de tartarugas monitorados em temporada de nascimentos
Animais retornam ao local onde nasceram para desova.
Historicamente, a temporada de nascimentos de tartarugas marinhas em Fortaleza se estende de fevereiro até meados de julho. Atualmente, na orla da Capital, cerca de 110 ninhos são monitorados pelos voluntários do Projeto Tartarugas do Futuro, um volume superior à média habitual.
Criada em 2025, a organização autônoma monitora a reprodução de tartarugas marinhas na Capital e trabalha com educação ambiental e produção científica. O projeto é um desdobramento do Grupo de Estudos e Articulações sobre Tartarugas Marinhas (Gtar), do Instituto Verdeluz.
Desde 2013, mais de 20 mil filhotes oriundos das praias fortalezenses foram soltos para o mar.
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Para os voluntários, as eclosões são momentos em que se pode ajudar as tartarugas de um ninho a alcançar o seu destino com mais chance de sobrevivência, mas também conscientizar a população que visita as praias de Fortaleza.
Segundo a bióloga Alice Frota, mestre em Ciências Marinhas Tropicais e coordenadora do projeto, as tartarugas marinhas concentram as desovas principalmente nas praias do Futuro, Sabiaguaba e Barra do Ceará. Em média, são contabilizados 100 ninhos nesses locais, todos os anos.
A preferência dos animais por essas praias se deve à existência de largas faixas de areia e sistemas ambientais menos alterados pela urbanização, já que praias como Iracema, Mucuripe e Beira-Mar tiveram o funcionamento modificado por aterros e espigões.
Além disso, a escolha segue a memória biológica das tartarugas: elas retornam exatamente ao local onde nasceram para depositar os ovos.
Trabalho em rede
No cotidiano, o trabalho de mapeamento dos ninhos é feito pelos 39 voluntários do projeto com o apoio de moradores e pescadores. Eles atuam para identificar e sinalizar os locais de postura dos animais. São feitas buscas ativas e identificados os pontos pela presença de rastro de nadadeiras na areia.
O monitoramento registra uma média de 100 a 110 ninhos por ano na capital cearense – 50 na Praia do Futuro, 50 na Sabiaguaba e alguns na Barra do Ceará. A grande maioria pertence à espécie tartaruga-de-pente, hoje criticamente ameaçada de extinção.
Na Sabiaguaba, a praia “mais intocada” de Fortaleza, segundo a especialista, as tartarugas chegam a subir as dunas para desovar em áreas de vegetação rasteira. Já na Praia do Futuro, buscam áreas distantes da maré forte.
Períodos de desova e nascimento de tartarugas
Os frequentadores das praias devem ficar atentos ao calendário reprodutivo e de comportamento das tartarugas marinhas. O ciclo anual é dividido em três períodos que demandam atenção da população e das autoridades ambientais:
- Temporada de encalhe (agosto a dezembro): período com maior incidência de tartarugas adultas que chegam à costa. É comum encontrar espécimes tanto vivos quanto mortos na faixa de areia;
- Temporada de desova (dezembro a maio): fase em que os ninhos começam a surgir. Eles são protegidos por lei, e qualquer intervenção humana não autorizada é considerada crime ambiental;
- Temporada de nascimentos (fevereiro a julho): período em que os filhotes deixam os ninhos em direção ao mar, frequentemente sob o monitoramento de projetos de conservação para garantir que os animais cheguem à água em segurança.
Conforme Alice Frota, uma tartaruga adulta pode realizar de três a cinco desovas por temporada; mas o processo é demorado, já que elas atingem a maturidade sexual apenas entre os 30 e 35 anos. Esses animais podem viver mais de 100 anos.
é a média de maturação dos ovos em Fortaleza.
Quais tartarugas vêm para o Ceará?
As tartarugas marinhas são animais migratórios que percorrem grandes distâncias durante sua longa vida. Cinco das sete espécies existentes ocorrem em águas que banham a costa brasileira. Dessas, quatro espécies podem fazer paradas no litoral do Ceará:
- Tartaruga-de-pente, mais frequente e “criticamente ameaçada de extinção”;
- Tartaruga-verde, que saiu da lista de ameaçadas de extinção em 2025;
- Tartaruga-oliva e tartaruga-cabeçuda, ambas ameaçadas de extinção.
“A tartaruga-de-couro não desova nem aparece aqui em Fortaleza, mas recentemente tivemos uma notícia de encalhe de uma juvenil em Aquiraz”, conta Alice Frota.
Como identificar um ninho de tartaruga?
Para ajudar na preservação dos ninhos, é importante identificar alguns sinais. O principal é a própria presença da tartaruga. Elas preferem sair durante a noite ou pela manhã, quando a praia é mais fresca e menos movimentada.
Se a mãe for avistada, é importante não se aproximar do animal, evitar apontar luz em direção a ele e não fazer barulhos. Caso não seja vista, também é possível visualizar rastros das nadadeiras deixados na areia.
O terceiro ponto é a “cama”, local que a tartaruga cavou para colocar os ovos. É uma área circular, que depois de coberta pode ser difícil de diferenciar, onde deve ocorrer o isolamento.
Se um ninho eclode em praias movimentadas, os filhotes podem ficar atordoados e acabam indo para locais indevidos.
Caso encontre as tartaruguinhas perdidas:
- só manuseie o filhote se for extremamente necessário, se possível, com luvas;
- não devolva as tartarugas diretamente para a água;
- coloque-as na areia e deixe-as andarem o restante do caminho;
- garanta que o caminho esteja livre.
“Se for à noite e as tartarugas estiverem indo para uma área iluminada, como a pista de carros, você vai juntar todas elas num recipiente e tentar colocá-las próximo à linha d'água. Se elas continuam voltando pra luz, você vai ter que esperar até de manhãzinha cedo para liberar elas na primeira luzinha da manhã”, orienta a bióloga Alice Frota.
Conforme a especialista, a tartaruga precisa fazer a caminhada tanto para ativar a musculatura quanto para aprender o caminho do local onde nasceu. Esse comportamento garante que, no futuro, a desova ocorra em um local que ela considera seguro.
O que fazer se avistar uma tartaruga?
O Projeto Tartarugas do Futuro ressalta que é crime matar, perseguir, coletar ovos e capturar tartarugas marinhas, de acordo com a Lei de Crimes Ambientais (lei n° 9.605/98). A conduta ideal segue um passo a passo:
- Ligue ou mande mensagem para o Tartarugas do Futuro (85 99690-1269) e siga as orientações da equipe de resgate;
- Fotografe o animal de uma distância segura e mostre as condições que ele se encontra;
- Localize a ocorrência por meio do GPS ou ponto de referência (ex: nome da barraca de praia);
- Se forem vistos ninhos ou eclosões, isolar o local e permitir a caminhada dos filhotes.
No caso de encalhe, a tartaruga viva deverá ser mantida na areia, com a barriga virada para baixo, na sombra, e o casco (carapaça) coberto com panos úmidos para evitar desidratação. Não devolva o animal debilitado ao mar e chame o resgate.
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Qual a diferença entre tartaruga, jabuti e cágado?
Todo réptil com uma carapaça nas costas é classificado como quelônio, dentre os quais estão jabutis, cágados e tartarugas. Eles podem até ser parecidos, mas cada espécie possui características próprias:
- Jabutis: são 100% terrestres, vivem em áreas verdes, têm casco alto e patas com escamas grossas e curvadas;
- Cágados: semi-aquáticos, vivem em ambientes próximos da água, têm casco achatado e ovalado e dedos com membranas;
- Tartarugas marinhas: animais aquáticos que só saem da água para a desova, têm casco arredondado e alto e patas parecidas com barbatanas.