Um mundo extraordinariamente trivial para as mães

Sem negar toda a exaustão de um mundo que exige que trabalhemos como se não fôssemos mães e que sejamos mães como se não trabalhássemos, que possamos comemorar as grandezas das pequenas coisas junto com nossos filhos.

Escrito por
Beatriz Jucá producaodiario@svm.com.br
Legenda: Ainda posso ser quem eu quiser, de jornalista trabalhadora a, quem sabe, integrante de uma família real que vence dinossauros e nada com as baleias.
Foto: Helena Lopes\Pexels

Quando meu filho nasceu, há três anos, eu não fazia ideia de quantas partes minhas precisariam morrer para que a maternidade coubesse em novas versões de mim. Sem romantizar a saudade das noites bem dormidas e da liberdade para fazer o que quisesse com as 24 horas do dia, vi um mundo incrivelmente ordinário e inédito se construir diante de mim, no dia a dia que pode até ser comum, mas jamais será banal. Outras mães hão de entender o que quero dizer.

Meu filho Bento me surpreende a todo momento com as mínimas coisas. Com ele, redescubro detalhes da vida e aprendo diariamente a valorizar as grandes pequenas conquistas. Na semana deste Dia das Mães, por exemplo, comemoramos como final de Copa do Mundo o fato de ele ter conseguido enfim dar os primeiros mergulhos na aula de natação, mesmo com a água lhe incomodando tanto os olhos. Foi uma luta até que ganhasse confiança suficiente para deixar seu rostinho redondo imergir na água repleta de cloro, com os olhos bem fechadinhos. “Eu sei nadar agora”, ele disse, sentindo-se vitorioso com seu grande feito.

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Passamos juntos por muitos momentos assim nos últimos três anos: os primeiros passos, a primeira banana que comeu na vida, o primeiro dia na escola, as primeiras apresentações musicais como estudante — responsabilidade que ele leva muito a sério, diga-se de passagem. Virão muitas outras, eu sei, e espero seguir vendo beleza em cada novo passo, dado por praticamente todo mundo, mas que são muito singulares e especiais quando envolvem nossos filhos.

Outro dia, Bento e eu conversávamos sobre pedir uma pizza. “Qual sabor você quer?”, perguntei. “Babuesa”. Não entendi. “Calabresa?”, arrisquei. “Não. Babuesa!”. Segui confusa. “Portuguesa?”. E ele respondeu, meio impaciente: “Não, mamãe. Babuesa! Repita comigo: babu-esa”. Foram dias até descobrir que a tal babuesa foi o sabor imaginário que ele criou para unir duas aleatoriedades que ele ama comer: carninha e chocolate.

Imaginação, aliás, é presença constante na vida de mães que, como eu, valorizam cada experiência ordinária dessas. Com Bento, tenho aprendido que nem tudo precisa fazer sentido o tempo todo. E que a real é que ainda posso ser quem eu quiser, de jornalista trabalhadora a, quem sabe, integrante de uma família real que vence dinossauros e nada com as baleias.

Ele está certo de que o museu em que trabalho é um castelo. Enquanto caminha pelas salas expositivas criando histórias sobre as obras que ele vê nas paredes, vai construindo seus mundos fantásticos e me incluindo neles de uma forma tão genuína quanto singela. Como não amar ser mãe desse jeito?

Numa noite qualquer em dia de semana, o surpreendi rezando baixinho no quarto. “Mamãe do céu, proteja minha mãe”, ele dizia, repetindo o que peço todos os dias em alto e  bom som para meu filho antes de dormir. Fico sempre muito impressionada como ele gosta de dizer que ama os pais e distribuir afeto com abraços e beijos. E como nos surpreende com seus aprendizados, explicando cuidadosamente que baleias não são orcas ou que o correto é que ele possa mesmo ficar mais tempo no parquinho da escola depois da aula. 

Neste Dia das Mães, que a trivialidade seja celebrada pelas mães ordinárias, imperfeitas e extraordinárias. Sem negar toda a exaustão de um mundo que exige que trabalhemos como se não fôssemos mães e que sejamos mães como se não trabalhássemos, que possamos comemorar as grandezas das pequenas coisas que sentimos a cada passo junto com os nossos pequenos.

*Esse texto reflete, exclusivamente, opinião da autora.