Para celebrar os 300 anos de uma Fortaleza fascinante

Minha Fortaleza, que olho frequentemente como se fosse a primeira vez, tem cheiro de sal e gosto de frutos do mar. Nos seus 300 anos, um convite para celebrar a cidade e sua gente, seu sotaque, seus costumes.

Escrito por
Beatriz Jucá ceara@svm.com.br
(Atualizado às 13:21)
Legenda: Fortaleza também é terra de gerações e gerações de sertanejos que deixaram o interior para fazer morada na zona oeste da cidade, da Barra do Ceará ao Pirambu.
Foto: Ismael Soares

Há anos, olho para Fortaleza como se fosse a primeira vez. Cheguei para morar na capital aos 10 anos, fazendo o fluxo de tantas gerações que deixaram o sol azul do interior em busca de estudos e oportunidades na capital.

Depois perdi as contas de quantas vezes fui embora para o interior, para São Paulo e para a Espanha. Sempre voltei para esta cidade que, cotidianamente, me faz olhá-la como se fosse a primeira vez. E que chega agora aos 300 anos contraditória e fascinante.

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Fortaleza é a cidade do banho de mar, do encontro inesperado com tartarugas e golfinhos em pleno Náutico, de nadadas extraordinárias rumo aos mistérios do Mara Hope, o navio encalhado que aos poucos se esfacela na Praia de Iracema.

É terra de nativos nascidos nas saudosas dunas e riachos do Mucuripe, mas também de gerações e gerações de sertanejos que deixaram o interior para fazer morada na zona oeste da cidade, da Barra do Ceará ao Pirambu.

Legenda: Vista aérea da área oeste de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

Fortaleza é terra de dona Lúcia, que cuida das plantas e da imagem do Moura Brasil. De Débora Soares e Ismael Gutemberg, que mantêm um núcleo de patrimônio capaz de contar a história do bairro por meio de gente e de arte, afastando o território da narrativa única e injusta das páginas policiais.

Fortaleza é terra do Fera e da escola de surfistas do Titanzinho que forma atletas. E também de Kátia Cilene, a salva vidas que criou raízes no farol do Mucuripe e virou guardiã.

Capitã mora do Titanzinho, em Fortaleza
Legenda: Kátia Cilene mora no Titanzinho desde que nasceu, no dia 29 de fevereiro de 1976
Foto: Fernanda Siebra

Como celebrar os 300 anos de Fortaleza, sem lembrar de seu Antônio Banqueiro, pescador do Mucuripe que constrói jangada, pega peixe e luta pela categoria sob inspiração dos bravos jangadeiros que atravessaram o mar de jangada para cobrar direitos trabalhistas do presidente Vargas no Rio de Janeiro? Ou da força feminina de Neide Silva, mãe de filhos e netos que construiu a vida com garra no Bom Jardim?

Pescador faz jangadas à mão
Legenda: Aos nove anos de idade, Banqueiro já pedia para ser levado ao mar porque sonhava em ser o “pescador do futuro”
Foto: Fernanda Siebra/Acervo Pessoal

Para abraçar Fortaleza, sugiro comer o abacaxi mais gelado da cidade no Parque do Cocó, depois de uma trilha ou volta de bicicleta. Quem sabe almoçar na Nana, depois de um passeio pelos artesanatos incríveis vendidos na Emcetur.

Sentir o vento esticar o rosto na Ponte dos Ingleses ou na Praia do Futuro. Escolher o lugar cativo para comer caranguejo cada quinta-feira. Já experimentou a tradicional moqueca de arraia em cima do morro do Mucuripe? Vale ir lá visitar.

Legenda: Vista aérea da praia da Sabiaguaba
Foto: Ismael Soares

Minha Fortaleza, que olho frequentemente como se fosse a primeira vez, tem cheiro de sal e gosto de frutos do mar. Celebro a cidade a cada ostra encomendada à Rannah no Mercado dos Peixes, no camarão frito de seu Francisco, no pratinho da Cidade 2000 ou nas dezenas de sabores de sorvete disponíveis no Juarez ou na 50 sabores.

Yorrana posa em frente ao mar de Fortaleza
Legenda: Yorrana tem apenas 19 anos, mas organiza toda a cadeia do microempreendimento que colocou há poucos anos
Foto: Beatriz Jucá

Fortaleza é cidade para ser celebrada todo dia. Nos dias intensos, vale demorar a vista em qualquer um dos seus espigões. Olhar para o mar de águas verdes que banha a orla, tão tomada pela especulação imobiliária e prédios altos.

Olhar pro mar é resistir, insistir em defender a Fortaleza da memória e da preservação. É enriquecedor o exercício de olhar pro centro, para a força da Praça do Ferreira, do passeio público e da gente trabalhadora que constrói essa cidade todos os dias.

Legenda: Comunidade Serviluz/Titanzinho, no Cais do Porto, no Grande Mucuripe
Foto: Ismael Soares

Nos 300 anos de Fortaleza, um convite para celebrar a cidade e sua gente, seu sotaque, seus costumes. Bora lá comer uma panelada no mercado São Sebastião?

Neste dia, minha sugestão é olhar nos olhos de Fortaleza e curtir a intensidade da cidade. Dar espaço para a sensação de pertencimento. A verdade é que, neste movimento, a gente sempre vai, como se fosse pela primeira vez, ao lugar de onde viemos. E é aí que, no tecido urbano, nos reencontramos.

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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