Para celebrar os 300 anos de uma Fortaleza fascinante
Minha Fortaleza, que olho frequentemente como se fosse a primeira vez, tem cheiro de sal e gosto de frutos do mar. Nos seus 300 anos, um convite para celebrar a cidade e sua gente, seu sotaque, seus costumes.
Há anos, olho para Fortaleza como se fosse a primeira vez. Cheguei para morar na capital aos 10 anos, fazendo o fluxo de tantas gerações que deixaram o sol azul do interior em busca de estudos e oportunidades na capital.
Depois perdi as contas de quantas vezes fui embora para o interior, para São Paulo e para a Espanha. Sempre voltei para esta cidade que, cotidianamente, me faz olhá-la como se fosse a primeira vez. E que chega agora aos 300 anos contraditória e fascinante.
Veja também
Fortaleza é a cidade do banho de mar, do encontro inesperado com tartarugas e golfinhos em pleno Náutico, de nadadas extraordinárias rumo aos mistérios do Mara Hope, o navio encalhado que aos poucos se esfacela na Praia de Iracema.
É terra de nativos nascidos nas saudosas dunas e riachos do Mucuripe, mas também de gerações e gerações de sertanejos que deixaram o interior para fazer morada na zona oeste da cidade, da Barra do Ceará ao Pirambu.
Fortaleza é terra de dona Lúcia, que cuida das plantas e da imagem do Moura Brasil. De Débora Soares e Ismael Gutemberg, que mantêm um núcleo de patrimônio capaz de contar a história do bairro por meio de gente e de arte, afastando o território da narrativa única e injusta das páginas policiais.
Fortaleza é terra do Fera e da escola de surfistas do Titanzinho que forma atletas. E também de Kátia Cilene, a salva vidas que criou raízes no farol do Mucuripe e virou guardiã.
Como celebrar os 300 anos de Fortaleza, sem lembrar de seu Antônio Banqueiro, pescador do Mucuripe que constrói jangada, pega peixe e luta pela categoria sob inspiração dos bravos jangadeiros que atravessaram o mar de jangada para cobrar direitos trabalhistas do presidente Vargas no Rio de Janeiro? Ou da força feminina de Neide Silva, mãe de filhos e netos que construiu a vida com garra no Bom Jardim?
Para abraçar Fortaleza, sugiro comer o abacaxi mais gelado da cidade no Parque do Cocó, depois de uma trilha ou volta de bicicleta. Quem sabe almoçar na Nana, depois de um passeio pelos artesanatos incríveis vendidos na Emcetur.
Sentir o vento esticar o rosto na Ponte dos Ingleses ou na Praia do Futuro. Escolher o lugar cativo para comer caranguejo cada quinta-feira. Já experimentou a tradicional moqueca de arraia em cima do morro do Mucuripe? Vale ir lá visitar.
Minha Fortaleza, que olho frequentemente como se fosse a primeira vez, tem cheiro de sal e gosto de frutos do mar. Celebro a cidade a cada ostra encomendada à Rannah no Mercado dos Peixes, no camarão frito de seu Francisco, no pratinho da Cidade 2000 ou nas dezenas de sabores de sorvete disponíveis no Juarez ou na 50 sabores.
Fortaleza é cidade para ser celebrada todo dia. Nos dias intensos, vale demorar a vista em qualquer um dos seus espigões. Olhar para o mar de águas verdes que banha a orla, tão tomada pela especulação imobiliária e prédios altos.
Olhar pro mar é resistir, insistir em defender a Fortaleza da memória e da preservação. É enriquecedor o exercício de olhar pro centro, para a força da Praça do Ferreira, do passeio público e da gente trabalhadora que constrói essa cidade todos os dias.
Nos 300 anos de Fortaleza, um convite para celebrar a cidade e sua gente, seu sotaque, seus costumes. Bora lá comer uma panelada no mercado São Sebastião?
Neste dia, minha sugestão é olhar nos olhos de Fortaleza e curtir a intensidade da cidade. Dar espaço para a sensação de pertencimento. A verdade é que, neste movimento, a gente sempre vai, como se fosse pela primeira vez, ao lugar de onde viemos. E é aí que, no tecido urbano, nos reencontramos.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.