70 anos da travessia de Jacaré: o que mudou?

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Segundo a Federação, cerca de 80% dos 80 mil pescadores do Ceará vivem com menos de um salário mínimo por mês

Além dos variados itens de pesca e proteção, o pescador Ozete Ribeiro, 40, teve uma nova companhia na sua jangada ontem. Antes de entrar no mar, lembrou do falecido amigo Manuel Olímpio Meira, conhecido por Jacaré, liderança que há exatos 70 anos atravessou as agitadas ondas cearenses rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma carta com dezenas de reivindicações trabalhistas ao presidente Getúlio Vargas. A saga parece permanecer na memória da categoria que ainda hoje sofre, tentando juntar os frutos daquela proeza.

"Continuamos penando muito como nos anos de 1941. Mudou pouca coisa, quase nada. A diferença maior é que ninguém mais quer sair por aí lutando por melhorias", diz o pescador que tenta sobreviver do mar, apesar do dinheiro minguado, da escassez de peixes, agitação dos ventos, quentura do sol, das dores nas costas e do cansaço.

Se Ribeiro hoje só se afasta apenas uns 60 Km da orla no Mucuripe, o Jacaré e outros três jangadeiros, no dia 14 de setembro de 1941, foram bem mais longe e até correram perigos. Navegaram por 61 dias, percurso de 2.381 quilômetros, sem bússola e carta de navegação.

Realidade

Se a saga desses cearenses há 70 anos parece um filme, a dura realidade hoje é bem diferente de uma ficção, explica o tesoureiro da Federação Cearense de Pescadores, José Carlos dos Santos. "A vida está muito dura. Cerca de 80% dos mais de 80 mil pescadores do Ceará ainda vivem com menos de um salário mínimo por mês. Mas a situação poderia ser pior se não fossem esses heróis do passado", frisa.

Para Santos, o pior de tudo ainda são os atravessadores, a falta de apoio para melhoria das embarcações, as limitações na época do defeso e a força dos ventos que, nessa época do ano, tanto assustam e até matam.

O presidente da Colônia de Pesca Z-8, Possidônio Soares Filho, engrossa o coro das reclamações da categoria. "A maioria dos jangadeiros é muito pobre, ainda vive na miséria, em casas simples e com muitas doenças. Tem que haver mais políticas públicas", critica.

A pauta de reivindicações da categoria hoje é extensa tal qual a dos aventureiros de 1941, afirma Lindomar Lima, liderança comunitária da Prainha do Canto Verde, tradicional comunidade do Interior do Ceará que ainda tenta sobreviver da pesca artesanal. "Hoje se discute uma melhor gestão e se poder agregar mais valor às mercadorias, combater à prática predatória e cuidar do meio ambiente", diz.

Apesar da atual situação, a saga de Jacaré ficou na memória, afirma o cineasta Firmino Holanda, autor do livro "Orson Welles no Ceará", sobre a passagem do diretor para conhecer a tal travessia. "Hoje, cabe a nós exaltar o heroísmo daquele feito de 1941, mas sem ocultarmos a atual difícil condição dos trabalhadores do mar. Jacaré, Tatá, Jerônimo e Manuel Preto não podem ter navegado tantas milhas em vão", comenta.

A professora de História da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Berenice Abreu, pesquisadora sobre o assunto, comenta que a jangada de 1941 foi portadora de mensagem de cidadania, luta por direitos sociais. "Jacaré e seus companheiros, após essa descoberta do Brasil, disseram ao presidente Vargas, que não falavam mais em nome apenas dos pescadores do Ceará, mas sim de ´todo o Norte´. Acrescentou que urubus viviam melhor do que eles", lembra.

SAIBA MAIS

O mais trágico da vinda de Orson Welles ao Brasil para gravar sobre a travessia em 1941, foi a morte de

Jacaré. O diretor reproduzia cena de chegada ao Rio de Janeiro quando o pescador-líder caiu do barco

Mestre Eremilson, outro pescador cearense, também partiu nas mesmas águas de Jacaré trinta anos depois, em 1972. Ele foi recebido pelo presidente Médici e conquistou o direito à aposentadoria para os pescadores

Em 1993, pescadores da Prainha do Canto Verdes se inspiraram no feito de 1941. Saíram rumo ao Rio de Janeiro na expedição "SOS Sobrevivência" pelo fim da pesca predatória da lagosta

IVNA GIRÃO
REPÓRTER