Periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra da Ibiapaba após mais de 100 anos
43 filhotes da espécie nasceram no Parque Nacional de Ubajara só em 2026 e número ainda pode aumentar.
Após mais de 100 anos desde o último registro histórico, a região da Serra da Ibiapaba, no Ceará, voltou a registrar nascimentos da espécie periquito-cara-suja, considerada uma das aves mais raras e ameaçadas no País.
Só em 2026, 43 filhotes nasceram no Parque Nacional de Ubajara (Parna Ubajara), que efetiva um projeto de reintrodução da espécie na região desde 2024.
Os novos registros, como resume o chefe da unidade de conservação federal Diego Rodrigues, são “um marco extremamente importante para a conservação da espécie, pois demonstram que os indivíduos reintroduzidos conseguiram completar o ciclo reprodutivo em vida livre dentro do Parque Nacional de Ubajara”.
O número de filhotes, inclusive, ainda pode aumentar segundo o especialista, já que o período reprodutivo da ave ainda não está encerrado. “Novas ocorrências ainda podem ser registradas à medida que o monitoramento dos ninhos continua sendo realizado pelas equipes técnicas”, afirma.
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Ações em prol da reintrodução do periquito-cara-suja no Parna Ubajara
Desde 2024, o Parque Nacional de Ubajara realiza o projeto de reintrodução do periquito-cara-suja na região, integrando as ações do Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Caatinga.
A iniciativa é desenvolvida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio do Parna Ubajara, o Centro Nacional de Conservação de Aves (Cemave) e a organização não governamental Aquasis.
“O projeto prevê a translocação, aclimatação e soltura monitorada de indivíduos provenientes da Serra de Baturité”, contextualiza Diego. A reintrodução contempla as seguintes fases:
- Translocação de indivíduos silvestres da Serra de Baturité para o Parque Nacional de Ubajara;
- Realização de exames sanitários e coleta de material genético das aves;
- Período de aclimatação em recinto especialmente construído dentro da unidade;
- Liberação gradual dos animais após a fase anterior em técnica conhecida como “soltura branda”, de adaptação progressiva ao ambiente natural;
- Monitoramento contínuo dos animais pós-soltura por observação direta, armadilhas fotográficas, acompanhamento de ninhos e avaliação do comportamento.
Ainda nas fases iniciais do monitoramento pós-soltura, aponta o chefe da unidade, começaram a surgir os primeiros resultados positivos do projeto. “Os indivíduos passaram a utilizar o ambiente de forma independente, ocupar áreas de vida e interagir com caixas-ninho instaladas pela equipe”, aponta Diego.
Para além das ações de manejo e monitoramento das aves, o projeto inclui, ainda, campanhas de educação ambiental feitas em comunidades locais, condutores, escolas e demais visitantes, para fortalecer o engajamento social em prol da conservação do animal.
Acompanhamento e monitoramento da espécie estão previstos
A completude do ciclo de vida do periquito-cara-suja na natureza dentro do Parque Nacional de Ubajara, destaca o chefe da unidade, demonstra que as aves conseguiram “se adaptar ao ambiente, formar casais, utilizar ninhos e gerar novos filhotes em vida livre — o que é considerado um dos principais indicadores de sucesso em projetos de reintrodução de fauna ameaçada”.
Diego ressalta, ainda, o papel do Parque Nacional de Ubajara “como área estratégica para conservação da biodiversidade e como refúgio climático para espécies ameaçadas, especialmente diante das mudanças climáticas”.
Após os resultados positivos históricos, o projeto seguirá com o acompanhamento contínuo da espécie, para assegurar a permanência do periquito-cara-suja na região.
“Os próximos passos incluem a continuidade do monitoramento populacional, acompanhamento genético e sanitário, proteção das áreas de reprodução, instalação e manejo de caixas-ninho, fortalecimento das ações de educação ambiental e ampliação das estratégias de conservação do habitat, buscando garantir que a população consiga crescer de forma sustentável ao longo dos próximos anos”
Ausência histórica na região vem desde pelo menos 1910
Como Diego explica, não há uma data exata que documente qual foi o último evento reprodutivo natural do periquito-cara-suja na Serra da Ibiapaba, mas sim registros históricos da ocorrência da espécie na região.
O primeiro deles data de 1889, feito pelo naturalista cearense Antônio Bezerra na região de Barrocão, que corresponde atualmente ao município de Tianguá. Já em 1910, a ornitóloga alemã Emilie Snethlage registrou dois espécimes em Ipu, o que confirmou cientificamente a ocorrência dessas aves no Planalto da Ibiapaba.
“Após esse período, a espécie desapareceu da região, provavelmente em decorrência da captura ilegal e da perda de habitat”, explica Diego. “Por isso, os registros atuais possuem enorme relevância histórica, representando o retorno da reprodução da espécie à região após mais de um século”, avança.
Estratégia regional de recuperação populacional do periquito-cara-suja
Ave exclusivamente nordestina, o periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus) já foi encontrado em vários estados da região. Atualmente, como informa Diego, a espécie tem a “principal população viável” na Serra de Baturité, no Ceará.
Nos últimos anos, segue o especialista, uma série de pesquisas e expedições de campo estão registrando novas ocorrências da ave em regiões serranas do Nordeste, incluindo nos municípios cearenses de Quixadá, Ibaretama, Canindé e Itajapé.
Antes da reintrodução ocorrida no Parque Nacional de Ubajara, a primeira operação do tipo se deu na Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra da Aratanha, em 2022. O resultado foi tão bem-sucedido que a estratégia foi ampliada.
“A partir dessa experiência, foram iniciadas novas ações de reintrodução no Parque Nacional de Ubajara e também na RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Serra das Almas, em Crateús, fortalecendo uma estratégia regional de recuperação populacional do periquito-cara-suja no Nordeste brasileiro”, explica Diego.
Tanto as iniciativas voltadas à espécie quanto demais projetos de conservação de outros animais ameaçados, são celebrados pelo gestor.
“Esses trabalhos vêm demonstrando que a combinação entre proteção do habitat, manejo técnico, pesquisa científica e engajamento social pode gerar resultados concretos na recuperação de espécies ameaçadas de extinção”, sustenta.