Símbolo do Cariri e ameaçado de extinção, soldadinho-do-araripe ganha unidade de conservação federal
A nova área de proteção, distribuída entre os municípios de Crato, Barbalha e Missão Velha, é administrada pelo ICMBio.
A área destinada à preservação do ambiente onde vive o soldadinho-do-araripe — única ave exclusiva do Ceará — ganhou reforço com a criação de mais uma unidade de conservação no Cariri cearense. Com cerca de 5.540 hectares e distribuído entre os municípios de Crato, Barbalha e Missão Velha, o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) do Soldadinho-do-Araripe, criado pelo Governo Federal em junho de 2025, fortalece a gestão do território onde vive a ave, que está em perigo de extinção.
Famoso pela plumagem branca e pelo topete vermelho nos machos, o soldadinho-do-araripe habita as matas ciliares nas encostas da Chapada do Araripe, especificamente próximo a cursos d’água. A região onde ele pode ser encontrado é considerada “um oásis no meio da Caatinga”.
Porém, a expansão urbana e a sobre-exploração dos recursos hídricos — como o encanamento total da fonte, lavagem de roupa e desmatamento no local da fonte — vêm afetando a reprodução da espécie.
Além disso, a ocorrência de incêndios em seu habitat, a poluição, as mudanças climáticas e outras ameaças fazem o soldadinho-do-araripe figurar na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Para se ter ideia, os dados mais recentes apontam que existem apenas 436 dessa espécie adulta na natureza.
“O empobrecimento da floresta também é uma ameaça, seja pela proliferação de palmeiras oleíferas que promovem e se beneficiam do fogo — como o babaçu —, seja pela retirada seletiva de árvores, bem como intervenções que exijam supressão vegetal”, explica Weber Girão, Gerente de Projeto da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (ONG Aquasis).
Essa ave (o Soldadinho-do-araripe) é única em alguns aspectos: além dela, não existe outra ave vivente exclusiva do Ceará; sua origem como espécie é uma das mais recentes do mundo, com pouco mais de dez mil anos, o que teria ocorrido pela combinação de uma população pequena com a seletividade das fêmeas na escolha de parceiros; e sua força como símbolo é notável.
A espécie foi descoberta em 1998 e desde então já foi considerada “criticamente em perigo” de extinção — por ser sensível e dependente das condições particulares do ambiente — e logo tornou-se símbolo da biodiversidade na Chapada do Araripe.
“Isto contribuiu para que a espécie fosse utilizada para o desenvolvimento de políticas públicas de conservação na região, principalmente voltadas à conservação do seu habitat, o que também promoveu benefícios a diversas outras espécies, tais como um sapo e um caranguejo recém descobertos”, segundo o Plano de Ação Nacional (PAN) para Conservação do Soldadinho-do-araripe.
Unidades de conservação onde o soldadinho-do-araripe vive
O soldadinho-do-araripe habita uma área de cerca de 39,5 km² entre os municípios de Crato, Barbalha e Missão Velha. Esse território em que a ave pode ser encontrada é abrangido, atualmente, por 10 unidades de conservação, sendo três federais — entre elas o novo Revis —, uma estadual, duas municipais e quatro reservas particulares.
Unidades de Conservação Federais
- Floresta Nacional do Araripe-Apodi
- Área de proteção Ambiental da Chapada do Araripe
- Refúgio de Vida Silvestre (Revis) do Soldadinho-do-Araripe
Unidades de Conservação Estaduais
- Monumento Natural Sítio Riacho do Meio
Unidades de Conservação Municipais
- Parque Natural Municipal Luís Roberto Correia Sampaio, no Barbalha
- Refúgio de Vida Silvestre (Revis) Soldadinho-do-Araripe, no Crato
Reservas Particulares
- Reserva Particular do Patrimônio Natural Arajara Park
- Reserva Particular do Patrimônio Natural Araçá
- Reserva Particular do Patrimônio Natural Oásis Araripe
- Reserva Particular do Patrimônio Natural Oásis Araripe II
O que muda com a criação do Revis do Soldadinho-do-Araripe?
Antes da criação da nova unidade de conservação federal, já existia outra quase homônima, mas de gestão municipal e restrita ao território do Crato. Com a criação do Revis do Soldadinho-do-Araripe pelo Governo Federal, por meio do decreto nº 12.492, de 5 de junho de 2025, a zona voltada para a proteção de áreas estratégicas da Chapada do Araripe, garantia da preservação de espécies endêmicas da região e estímulo ao ecoturismo, entre outros objetivos, estendeu-se para Barbalha e Missão Velha.
Assinado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo ministro substituto do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, o decreto logo teve efeito na unidade de conservação municipal. Pouco depois, em agosto de 2025, a unidade de conservação municipal passou a contar com um gestor, sete anos após ter sido criada.
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“O fortalecimento da gestão da unidade de conservação municipal ocorreu em consonância e logo após a publicação do decreto de criação do Revis federal, evidenciando uma relação de estímulo mútuo, na qual o avanço de uma esfera administrativa impulsionou o fortalecimento da outra”, destacou Kelysson Amparado, gestor do Revis municipal, ao Diário do Nordeste.
De acordo com ele, a coexistência dos dois Refúgios de Vida Silvestre configura uma complementaridade de competências. Enquanto a entidade municipal atua na gestão territorial local, com educação ambiental, fiscalização e articulação comunitária, a unidade federal “agrega capacidade técnica, institucional e operacional ampliada”, explica.
Isso aumenta o acesso a recursos, programas estruturantes, pesquisas científicas e ações integradas de prevenção e combate a incêndios florestais.
A criação do Revis federal fortalece e potencializa a atuação do Revis municipal, promovendo uma gestão mais eficiente, integrada e resiliente, capaz de assegurar a conservação da biodiversidade, a manutenção dos serviços ecossistêmicos e a proteção dos valores ambientais da Chapada do Araripe em escala local e regional.
Kelysson Amparado aponta que, desde a criação da unidade de conservação municipal, têm sido desenvolvidas ações contínuas de educação ambiental e sensibilização da população local, com foco na prevenção de impactos ambientais, especialmente queimadas e incêndios florestais.
A chegada da gestão técnica, conforme o gestor, representa um avanço na condução das ações de planejamento, articulação institucional e fortalecimento da governança ambiental. Mas o gestor também aponta desafios para essa atuação.
Entre os principais desafios, Amparado destaca a mobilização junto ao Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) para atuação como Conselho Consultivo do Revis municipal e a condução do processo de elaboração do Plano de Manejo.
Quantidade de soldadinhos-do-araripe adultos na natureza, segundo dados mais recentes.
A elaboração do documento deverá ocorrer de forma conjunta e articulada com o Núcleo de Gestão Integrada (NGI) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), conforme previsto no Termo de Cooperação firmado entre o órgão federal e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudança do Clima do Crato.
“Tal instrumento estabelece diretrizes para a cooperação institucional, compartilhamento de informações, apoio técnico e harmonização das estratégias de gestão, estando previsto o início do processo de elaboração a partir do ano de 2026”, finaliza o gestor.
Objetivos do Refúgio de Vida Silvestre do Soldadinho-do-Araripe
- Conservar as escarpas da Chapada do Araripe e as florestas úmidas associadas às nascentes, às ressurgências e às levadas que ocorrem no semiárido nordestino;
- Preservar e recuperar o único habitat do Soldadinho-do-Araripe, ave classificada como “criticamente em perigo” de extinção, endêmica da caatinga e que ocorre somente nas encostas da Chapada do Araripe, no vale do Cariri;
- Permitir o manejo e a recuperação da vegetação nativa em áreas de ocorrência histórica do Soldadinho-do-Araripe, com vistas a viabilizar o incremento populacional da espécie;
- Garantir o uso sustentável dos recursos hídricos provenientes das nascentes, das ressurgências e das levadas que ocorrem nas encostas da Chapada do Araripe, de forma a conciliar o fornecimento de água às atividades humanas com a manutenção da vazão ecológica mínima, equivalente a 30% (trinta por cento) da vazão da nascente, necessária à preservação das funções ecológicas desses ecossistemas;
- Garantir a preservação de espécies endêmicas que ocorrem nas escarpas da Chapada do Araripe, dependentes dos recursos hídricos nela existentes, como o Sapo-de-chifre-do-Araripe (Procetophrys ararype), o Guaja-do-Araripe (Kingsleya attenboroughi), o Rato-da-árvore (Rhipidomys cariri), a Cobra-da-terra-dos-brejos (Atractus ronnie) e o Morcego-de-orelha-de-funil (Natalus macrourus);
- Estimular o ecoturismo, principalmente de base comunitária;
- Compatibilizar os usos das propriedades particulares com a conservação das nascentes, das levadas e dos fragmentos de floresta úmida nas escarpas da Chapada do Araripe, de forma a promover a conservação in situ do Soldadinho-do-Araripe e de seu habitat natural.
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O que é um Revis?
Os Refúgios de Vida Silvestre (Revis) são um tipo de unidade de conservação de proteção integral, em que só se admite o uso indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos em lei.
Nos Revis, o objetivo é proteger ambientes naturais para a existência e reprodução de espécies da flora e fauna local, incluindo as residentes e migratórias.
A visitação é permitida nesse tipo de unidade de conservação, mas está sujeita às condições do Plano de Manejo e às normas do órgão administrador.