Moradores temem rompimento de açude em Fortaleza, e autoridades avaliam risco na estrutura
Aterramento para construção de condomínio, no Jangurussu, pode ter influência no escoamento de água da chuva. Situação seria "perigosa".
Moradores do bairro Jangurussu, em Fortaleza, vivem sob o medo de um possível rompimento da parede do açude local. Alagamentos na área, que pioraram com as fortes chuvas, foram denunciados por moradores à Prefeitura. Nesta sexta-feira (13), equipes da gestão municipal e de órgãos ambientais fizeram uma vistoria técnica para avaliar os riscos estruturais na barragem.
A comunidade denuncia que a construção de um condomínio residencial no bairro está obstruindo o escoamento natural das águas, gerando pressão sobre a parede do reservatório. O aterramento do outro lado do açude está provocando um empoçamento que pode contribuir para a erosão da estrutura.
A comunidade solicitou uma visita da Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) ao local ainda no mês passado. Em nota enviada à reportagem, a Pasta confirmou que está elaborando um relatório e encaminhará as demandas identificadas às secretarias competentes “para adoção das providências necessárias”.
Veja também
Já o empreendimento, cuja obra é de responsabilidade da Caixa Econômica Federal e da construtora Tenda, dentro do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), afirmou que possui licenças e projetos devidamente aprovados pelos órgãos municipais, seguindo o que foi informado previamente às autoridades (veja resposta completa ao fim da reportagem).
Os órgãos públicos ainda farão análises técnicas para identificar o real problema da área. Contudo, um dos técnicos ouvidos pelo Diário do Nordeste, cuja identidade não será divulgada, classificou a situação como “perigosa”. Segundo ele, a parede do açude ainda sofre mais pressão porque vem sendo utilizada para a travessia de pessoas e motos.
O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), que construiu a barragem, deve ser acionado para contribuir com a discussão e buscar soluções. Nenhum representante do órgão acompanhou a visita.
Água invade residências
O pedagogo e educador social Edinaldo Felipe destaca que o problema se agravou com o início da quadra chuvosa de 2026, em fevereiro. “A gente notou esses alagamentos e recebeu relatos que a água estava passando a barreira do açude. Não era para alagar, era para escorrer”, explicou o morador à reportagem.
Segundo Edinaldo, as lagoas da região estão sendo “sufocadas” pelos aterramentos, que impedem o sangradouro do açude de funcionar corretamente. Ele alerta que a água, antes distribuída por canais naturais dos bairros vizinhos, agora fica represada, ameaçando invadir as casas da comunidade vizinha.
Residente na área há 30 anos, a diarista Ivonete Félix também relata que a estrutura da barragem apresenta sinais visíveis de desgaste. A reportagem notou áreas erodidas na parede da estrutura, com exposição de raízes de árvores e plantas. Elas costumam ajudar a fixar o solo e impedir que a terra deslize, mas já não surtem tanto efeito.
Ivonete afirma que o temor é recente e coincide com o avanço acelerado das obras do condomínio. “Durante 30 anos, a gente nunca teve essa preocupação. É o segundo ano que está dando esse aperreio para nós”, desabafa a moradora sobre a velocidade da construção.
A situação é ainda mais grave para Teresa Neuma, 57, que viu o curso da água ser desviado diretamente para sua propriedade. “A obra desviou o curso da água... Ela sai dentro do meu banheiro”, critica a moradora.
Teresa diz que a construtora elevou o nível do terreno com entulhos e cerâmicas, criando uma espécie de barreira artificial. “Eles passaram meses aterrando para fazer esse condomínio. Agora, a água não tem para onde ir e fica acumulada nos pés da gente”, relata.
Segundo os moradores, os transtornos são visíveis com casas alagadas, especialmente na Travessa Paraisópolis, árvores tombadas e pavimento danificado.
Fiscalização de órgãos públicos
O superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis no Ceará (Ibama-CE), Deodato Ramalho, acompanhou a vistoria dos agentes da Defesa Civil de Fortaleza (DCFor) e da Secretaria Executiva Regional (SER) 9 nesta manhã.
Para ele, a preocupação da comunidade é legítima. Segundo ele, o acúmulo de água entre a construção e a barragem é um fator de risco e pode contribuir para mais transtornos na área.
Essa água acumulada entre a parede do açude e o condomínio, se não tiver uma resolução, pode ir deteriorando essa parede e facilitar a possibilidade de arrombar mesmo o açude.
O gestor informou que o órgão ambiental pode investigar possíveis crimes ambientais ou desrespeito às regras de construção, especialmente caso seja identificada degradação hídrica ou intervenção inadequada em recursos necessários para a proteção da área. Porém, ressaltou que a fiscalização compete à Prefeitura de Fortaleza.
O engenheiro civil Matheus Maia, coordenador de Infraestrutura da SER 9, explicou, numa leitura inicial, que a obra do condomínio reduziu drasticamente a área de escoamento. Ao elevar o nível do terreno para proteger o empreendimento, a construtora acabou criando um gargalo que força a água a se acumular ao redor — afetando, assim, as casas vizinhas.
O representante reforçou a necessidade de entender qual foi o planejamento técnico autorizado para aquela intervenção específica no terreno. Apesar do cenário preocupante, a Regional aguarda um laudo detalhado da Defesa Civil para dar um parecer final.
“A gente está olhando isso para ontem. Precisamos sentar com a construtora e analisar os projetos tecnicamente antes de definir ações emergenciais”, afirmou o coordenador.
Em nota, a Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf) informou que o projeto de drenagem de águas pluviais do empreendimento foi aprovado pela Pasta. “As drenagens previstas no projeto aprovado estão situadas no interior do empreendimento, tendo um ramal de deságue existente na rua Recanto Verde”, complementa.
O que diz a construtora do condomínio?
Enquanto as autoridades elaboram os relatórios, os moradores permanecem em alerta máximo. Para eles, o açude que fazia parte apenas da paisagem hoje representa uma ameaça silenciosa para quem vive no entorno.
Teresa Neuma, por exemplo, já ouviu do neto criança: “Vó, se o açude arrombar, se for de noite, como é que nós vamos correr? Porque com a água não dá pra gente correr”.
A Construtora Tenda, responsável pelo residencial Messejana Parque da Lagoa I, informou, em nota, que “o empreendimento possui licenças e projetos devidamente aprovados pelos órgãos municipais competentes, inclusive com a previsão de medidas mitigatórias voltadas à minimização dos impactos de drenagem já existentes na região”.
Conforme as autorizações emitidas, está prevista a execução de obras de macrodrenagem, “incluindo o alargamento do canal existente, com o objetivo de contribuir para a melhoria do escoamento hídrico local”.
“A iniciativa reforça o compromisso da companhia com a implantação responsável do empreendimento e com a adoção de soluções urbanísticas e ambientais voltadas à mitigação dos impactos da região”, declarou a Tenda.
A empresa acrescentou que segue acompanhando as condições locais e permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos.
Obra é crime ambiental?
Há desconfiança dos moradores de que houve um crime ambiental por parte da construtora. A Seuma afirmou, em nota, que o empreendimento não é em uma área de proteção ambiental.
A Pasta detalha que somente uma parte do projeto, referente às obras de drenagem no entorno, está inserida na “Zona de Preservação Ambiental 1”, que indica “Faixa de Preservação Permanente dos Recursos Hídricos”.
“Esse projeto de execução foi aprovado pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam), órgão colegiado composto por entidades governamentais, universitárias e sociedade civil, que atua de modo consultivo e deliberativo em questões relativas à política ambiental da cidade. As licenças foram solicitadas em 2022. A obra possui alvará de construção válido”, detalhou, em comunicado.