Jovem do Pirambu se forma na USP com projeto de revitalização e resgate histórico do bairro

Samuel Serejo quis ligar a cidade e o mar em um trabalho arquitetônico que ganhou reconhecimento na Universidade

Escrito por
Paulo Roberto Maciel* paulo.maciel@svm.com.br
(Atualizado às 10:25)
Grupo de pessoas segurando maquete e prêmio, celebrando o projeto de engenharia ou arquitetura, em ambiente interno
Legenda: O TCC foi aprovado no último dia 9 de dezembro com nota máxima.
Foto: Arquivo Pessoal

Considerado um dos bairros importantes para a história de Fortaleza, o Pirambu virou, recentemente, o tema do trabalho de conclusão de curso (TCC) de um jovem cearense no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP).

Com mais de 150 páginas, o projeto “Pirambu: Interface entre cidade e mar” repensa o bairro de maneira moderna e revitalizada, casando as diferentes características que tornam o local  um dos mais emblemáticos da Capital cearense em uma proposta arquitetônica voltada para a população e ao poder público.

Em conversa com o Diário do Nordeste, o autor da monografia, Samuel Serejo, 22, afirmou que pensa na sua produção como um resgate histórico do local em que passou grande parte da vida, e que ainda hoje é atravessado por desigualdades sociais e violências.

“A minha motivação nasceu quando eu percebi que, antes, eu levava 30 minutos - às vezes até mais que isso - para chegar à Beira-Mar ou outros pontos turísticos. Quando eu olhei para o território onde morava, vi que, em cinco minutos, estava com os pés na areia. Aqui tem muita cultura, história, mas também é um local frágil no quesito social. Então pensei: ‘por que não estudo isso?’”, relembra Samuel.

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Conheça a proposta de revitalização do Pirambu

O resultado foi um projeto de reparação histórica divido em dois volumes. No primeiro, o Pirambu é revisitado inteiramente, desde à sua formação até a configuração atual. Depois, o autor expõe as principais características do bairro, como a forte ligação entre a cidade e o mar.

Samuel cita que muito do material adquirido para a análise do Pirambu foi cedido pelo Centro Popular de Documentação do Grande Pirambu, por outras arquitetas e urbanistas, e em conversas realizadas com Fábio Lessa, diretor do Instituto Cai Cai Balão.

Baseado nessas leituras, o trabalho então guina para a apresentação de uma proposta de reparação urbana, que repensa a orla da praia com a construção de equipamentos culturais, pontos turísticos sofisticados e estruturas pensadas para a permanência da população e vegetação locais.

“Eu vi que tinha muitas questões ligadas à história da paisagem do Pirambu. Antigamente aqui tinham dunas, manguezais, tinha toda uma vegetação nativa que foi degradada pela urbanização”, explica.

Projeto de espaço de convivência ao ar livre no Pirambu, em Fortaleza, com áreas verdes, piscina, passeio pedonal e espaço de relaxamento, ideal para ambientes de lazer e integração social.
Legenda: O trabalho de Samuel visualiza a nova orla do Pirambu através das atividades náuticas no mar, seja ao pedalar pelos caminhos criados em homenagem aos ancestrais do bairro.
Foto: Arquivo pessoal

Samuel também observou problemas na mobilidade, como a falta de ciclovias e calçamento para pedestres, e na baixa capacitação dos trabalhadores residentes no bairro, que precisam realizar suas atividades longe de casa, enfraquecendo a ligação com o local de nascença. 

O que desenvolvi foi um processo de intervenção urbana. Eu mexi nas ruas, eu mexi na Avenida Leste Oeste para trazer mais verde, mais mobilidade ativa, trazer mais vida para essa comunidade, sempre levando até a orla, que é elemento principal. O que eu quis foi planejar algo para que a população local se identifique e não pense em ir embora
Samuel Serejo
Arquiteto e Urbanista

Um Pirambu pensado para os pescadores

Na segunda metade, a monografia é dedicada quase que exclusivamente aos pescadores - parte importante da construção social do Pirambu. Segundo a obra, esses profissionais precisam enfrentar cotidianamente a precariedade dos espaços destinados às atividades pesqueiras, mesmo em uma capital litorânea.

Em busca de uma solução, o autor propõe a criação de um espaço dedicado exclusivamente a este grupo, com apoio necessário para que a prática da pesca tradicional continue sendo integrada à comunidade.

No novo local pensado pelo arquiteto, os pescadores têm contato direto com os revendedores e turistas. Há locais de trabalho dedicado exclusivamente à venda de peixes, com capacidade para abrigar empreendedores de pequeno e médio porte.

A população pode passear livremente pelo edifício, pensado por Samuel como um ambiente de contemplação. Também foi sugerida a ideia de criar uma cozinha escola para proporcionar acesso a alimentos de qualidade, e também assegurar que eles sejam preparados da melhor maneira possível.

Para ilustrar todas essas ideias, Samuel tirou fotos, criou desenhos, mapas e anexou colagens que não só refletem identidade visual atrelada à cultura cearense, mas que também dão uma visão muito clara do Pirambu que ele quer ver daqui em diante.

“O meu projeto tem muito resgate histórico. Ele conversa muito com o passado e o presente. Eu entendo o que existia no passado para que hoje eu consiga resgatar e devolver esse conhecimento para a comunidade”, comenta Samuel.

Veja fotos do projeto arquitetônico

Projeto de eco-resort sustentável com ambientes verdes, passarelas de madeira, piscinas naturais e várias áreas de convivência ao ar livre, promovendo contato com a natureza e turismo ecológico.
Legenda: O projeto interage com o entorno, criando novas conexões com equipamentos existentes e reunindo elementos relacionados à pesca dispersos pela cidade.
Foto: Arquivo pessoal

Três áreas de lazer ao ar livre e interior com design moderno e sustentável, incluindo varanda com vista para a natureza, espaço de convivência e área com piscina, ideal para relaxamento e socialização.
Legenda: Mirante do Pirambu com acesso à população e aos vendedores de pescado
Foto: Arquivo pessoal

Mapa de planejamento urbano com áreas de proteção, navegação e desenvolvimento sustentável para a cidade. Inclui zonas de preservação, remodelação e topografia.
Legenda: Mapa do Pirambu com destaque para as principais mudanças propostas pelo trabalho de Samuel
Foto: Arquivo Pessoal

Imagem 3D de um mapa urbano do Pirambu, em Fortaleza, com destaque na zona costeira, incluindo pontos como centro de convenções, terminal intermodal, marinas, ponte e praça, mostrando uma vista detalhada da infraestrutura da cidade.
Legenda: Visão ampliada do Pirambu com as intervenções propostas por Samuel
Foto: Arquivo pessoal

Conquistas por meio da educação

A versão final do trabalho de Samuel foi pensada durante os últimos dois anos. Mas a bagagem necessária para que o recém-graduado construísse a pesquisa já estava com ele bem antes disso. Antes de ele conseguir, em 2021, a tão sonhada oportunidade de estudar em uma das universidades mais renomadas da América Latina, a mais de 2,8 mil quilômetros longe de casa.

“Me sinto muito feliz pelas oportunidades que consegui. Foi difícil ir para uma cidade tão grande, sozinho, aos 18 anos, longe de toda a minha família. Só eu sei o que enfrentei lá, mas de alguma forma eu consegui e hoje estou aqui”, recorda.

Na virada para o ensino médio, Samuel conseguiu uma bolsa de estudos que o permitiu deixar a escola pública para ingressar em uma unidade particular. Durante os três anos consecutivos, a ideia do que fazer após terminar o colégio nunca foi diferente: queria fazer arquitetura.

Porém, veio um empecilho. Em 2020, o mundo viu o vírus da Covid-19 se alastrar sem precedentes, o que forçou quase todos a ficar em casa. Para Samuel, isso significou finalizar o ensino médio à distância, realizar a prova do Enem só no outro ano e esperar pelo melhor.

Não demorou muito tempo para ele ter a confirmação que tanto esperava. Em 2021, estudaria na USP.

Jovem com camiseta branca e pinturas de protesto, ao lado de outro rapaz com máscara e vestindo camiseta preta, ambos simbolizando ativismo e movimento social.
Legenda: Quando chegou em São Paulo, Samuel sentiu medo. Mas encontrou conforto no apoio da família.
Foto: Arquivo pessoal

Após um ano de aulas online, com o relaxamento das medidas de prevenção à Covid, em 2022, chegou o momento de se mudar para São Paulo e terminar o restante da graduação.

Indo na contramão da maioria dos estudantes de fora, que optam pela capital para estudar, Samuel escolheu o campus São Carlos, importante cidade do polo regional paulista.

“Eu fui para lá por conselho de outras pessoas, porque lá o custo de vida é um pouco mais baixo. Mesmo assim, eu estava muito sem grana. Fui somente com a ajuda de outras pessoas. Minha família da comunidade, é de baixa renda, então, não tinha realmente condições de eu ficar na capital”, reflete Samuel.

Estar em uma cidade do interior paulista não impediu o jovem cearense de enfrentar dificuldades de adaptação. Primeiro, veio à experiência das repúblicas universitárias, que rapidamente se revelou uma má ideia pelo fato de que “a galera tinha um estilo de vida diferente”, segundo ele.

Depois, com muito esforço, Samuel se mudou para um kitnet pouco confortável, mas que o permitia residir sozinho. E assim ele atravessou os anos seguintes da graduação, sempre retornando à Fortaleza nas férias para ficar com a família e desfrutar do local em que cresceu. Foi nessas andanças que o lampejo para o TCC veio.

Eu sempre soube que queria fazer alguma coisa da minha terra, que me ligasse a ela. Queria retribuir todo o incentivo que minha família me deu, todo o carinho que minha mãe proporcionou para eu terminar meus estudos. Eu sabia que era essa a força que precisava ter para continuar no curso e continuar em São Paulo
Samuel Serejo
Arquiteto e Urbanista

Deu certo. O TCC foi feito, aprovado no último dia 9 de dezembro, e Samuel virou uma das primeiras pessoas da família dele a terminar uma graduação.

Pessoa assistindo a uma apresentação ou vídeo sobre naturezas variadas em uma sala de reuniões ou sala de aula, com tela grande e laptop.
Legenda: O TCC recebeu aprovação máxima, uma satisfação para o estudante e toda a família dele.
Foto: Arquivo pessoal

O sucesso foi tão grande que, em fevereiro, o cearense vai receber o prêmio de melhor trabalho de conclusão de curso de 2025 da USP. Sair da periferia para se formar no curso dos sonhos em outro estado é, para Samuel, um símbolo que a educação pública de qualidade existe e dá frutos, mesmo com percalços.

“Sempre acreditei que o estudo poderia mudar tipo vidas assim. Eu ter ido para lá deu muitas oportunidades para mim e para a minha família. Eu estou muito realizado”, comemora.

“Acho que o poder que os estudos, o esforço, o incentivo à permanência, e a universidade têm são fundamentais. Ter estado lá foi um privilégio, e por isso esse trabalho é muito importante para mim. Quero retribuir a minha comunidade, minhas raízes. É muito gratificante”, finaliza.

Saiba mais sobre a história do Pirambu

O que é conhecido hoje como Pirambu surgiu a partir do resultado de diversos fatores sociais e políticos. A formação de favelas na Capital cearense ocorreu a partir das migrações causadas pela seca, com multidões fugindo da miséria e da fome, principalmente em 1877, 1915 e 1932.

Em 1888, a planta da cidade já registrava casebres nas proximidades da orla marítima central, onde hoje fica o Arraial Moura Brasil. Nos anos 1940, os ricos se afastaram da área da Jacarecanga e do Centro, devido à poluição e “invasão” de seus territórios por operários das fábricas, e fixaram moradia na Praia de Iracema e no Meireles.

Já naquela época, a imagem do Pirambu foi atrelada a uma zona perigosa, de miséria, criminalidade e prostituição. Nas décadas seguintes, houve sucessivas tentativas de erradicar o Pirambu, até mesmo por influência das políticas de ordenamento promovidas pela Ditadura Militar. Porém, todas falharam, e assim o bairro segue firme até hoje.

Imagem de uma cabana simples na praia com duas pessoas próximas, uma pedalando uma bicicleta e uma prancha de surf ao lado sob céu azul, no Pirambu, em Fortaleza.
Legenda: A pescaria é uma das grandes atividades desenvolvidas nos arredores do Pirambu, evidenciando a forte ligação entre a população costeira e o mar.
Foto: Samuel Serejo/Arquivo pessoal.

*Estagiário sob supervisão da jornalista Karine Zaranza

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