Peixe-boi Tico deve voltar ao Ceará até julho após anos 'refugiado' na Venezuela
O animal nadou mais de 5 mil quilômetros da costa do Ceará até o Caribe e teve a "repatriação" interrompida por instabilidade política.
Conhecido como Tico, o peixe-boi encontrado na Praia das Agulhas, em Fortim, que foi parar na Venezuela pode estar prestes a retornar ao Ceará.
O animal que, em 2022, nadou 5 mil quilômetros teve, nos últimos três anos, o resgate interrompido por diversos conflitos políticos, mas deve voltar ao Brasil até junho. Tico hoje vive em um tanque de 80 centímetros de profundidade no Parque Zoológico y Botánico Bararida, na Venezuela.
Em fevereiro, a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) — que está à frente do resgate — recebeu uma sinalização positiva de que a Petrobras teria interesse em custear a operação de volta do animal ao Brasil. O peixe-boi com cerca de 2,90 metros e mais de 350 quilos deve ser transportado por uma empresa aérea americana contratada.
Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Petrobras afirmou que "apoiará a operação disponibilizando recursos humanos, materiais e logísticos", mas que "a responsabilidade pelo planejamento e estruturação das ações necessárias é do Governo Brasileiro, com intermédio do Ministério do Meio Ambiente, Ibama e do Ministério de Relações Exteriores".
O Ministério das Relações Exteriores também enviou nota afirmando que "a Embaixada do Brasil em Caracas tem realizado gestões junto às autoridades venezuelanas para a emissão da licença de exportação e dos certificados necessários à transferência do animal". (Leia as notas na íntegra abaixo)
Apesar de chamar de repatriação, a Aquasis explicou que o resgate tem sido tratado como uma importação animal. "O processo de entrada no País é bem burocrático. Apesar de a gente saber da origem dele, é como se a gente estivesse comprando um peixe-boi", explicou o veterinário e gerente do Programa de Mamíferos Marinhos da Aquasis, Vitor Luz.
A expectativa é de que Tico retorne ao Ceará entre a segunda quinzena de maio e a primeira quinzena de junho. "Estamos fazendo de tudo porque a gente só tem a licença válida de importação até julho, mas ainda estamos dependendo de uma articulação da diplomacia", pontua o veterinário.
Por que é importante que Tico volte ao Ceará?
Por mais que se questione o valor financeiro e a necessidade do resgate, Vitor afirma que o caso está de acordo com o licenciamento ambiental e que existem fatores de urgência que motivam o retorno do animal, que está em nível crítico de extinção.
O veterinário sugere, em tom divertido, que Tico seria um "refugiado político". Resgatado encalhado no litoral cearense logo após o nascimento, em 2014, e cuidado por anos pela Aquasis, quando foi devolvido ao mar, em 6 de julho de 2022, levou apenas 60 dias para nadar até águas internacionais. Chegou lá por um misto de condições marítimas, livre-arbítrio e traumas maternos.
Agora, há urgência para repatriação desse cearense. "A gente tem uma população criticamente ameaçada de extinção, com pouco mais de mil peixes-bois no Brasil. Então cada indivíduo que a gente consegue resgatar e ele repovoa, isso contribui para a conservação da espécie", cita Vitor Luz.
Além disso, estudos apontam que o peixe-boi brasileiro é uma espécie distinta das que habitam a região caribenha. "Essas duas espécies já não têm uma comunicação genética há mais de 600 mil anos. E essa reprodução não seria natural", explica.
Para que Tico cumpra seu papel na perpetuação da espécie ele precisaria ser reinserido no mar cearense. E, para isso, a Aquasis luta contra um relógio biológico. "O limite para [um peixe-boi] ser solto na natureza é até 12 anos, que é a idade que o Tico vai completar agora, em outubro de 2026", aponta o especialista.
A história de Tico
O deslocamento de Tico do Ceará até a Venezuela é o mais longo conhecido para a espécie. Em setembro de 2022, meses apoós a soltura, a equipe da Aquasis recebeu um sinal do GPS que tinha sido acoplado no animal apontando que ele estava no mar da Ilha de Tobago, no Caribe, a cerca de 4,2 mil quilômetros do Ceará.
A oceanógrafa Caroline Vieira explica que esse comportamento é especificamente incomum para um peixe-boi. "Essa espécie costeira precisa tomar água doce, precisa de águas calmas e relativamente rasas porque ele depende de vegetação costeira pra se alimentar", diz.
Desde a primeira vez que ele se distanciou da costa, Tico foi recapturado algumas vezes sem o rastreador, desidratado, desnutrido e até com um saco plástico no estômago.
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Segundo estudos da Aquasis, o mamífero teria sido "arrastado" pela Corrente Norte do Brasil (CNB), uma forte corrente marítima que atua no Norte e Nordeste do País e segue em direção ao Caribe. "O padrão de velocidade de deslocamento dele acompanhava exatamente o padrão da corrente", explica Vitor.
Apesar de ter sido "arrastado", o peixe-boi teve que nadar cerca de 40 quilômetros mar a dentro para chegar até uma área influenciada pela corrente. "Esse animal fica a uma profundidade de menos de 10 metros, preferencialmente. Então, o fato de ele ter ido para alto-mar demonstra que ele estava desorientado", relata o veterinário.
"Por mais que a gente tenha feito esse processo de cuidado, de alimentação, de adaptação, ele foi criado sob condições artificiais. Esse aprendizado do uso do ambiente quem ensina é a mãe. Como ele encalhou recém-nascido, ele foi privado disso", comenta.
Por que esse resgate é tão difícil?
Em 2022, o Brasil não tinha uma embaixada na Venezuela, o que impossibilitou a primeira tentativa de resgate de Tico. Até que, no ano seguinte, "a gente retomou esse contato, mas foi um processo lento para alguns órgãos entenderem que essa repatriação era importante", relembra Vitor Luz.
Dois anos depois, os profissionais da Aquasis foram até a Venezuela para conversar sobre detalhes da operação de transferência. Até que as portas se fecharam mais uma vez. "Teve a questão das eleições na Venezuela, que o Brasil não reconheceu a eleição do [Nicolas] Maduro. Então nossa articulação acabou se fragilizando", conta o veterinário.
"Em 2025, a gente estava avançando um pouco e aí veio a invasão dos Estados Unidos em Caracas, que mudou novamente o cenário político, e a Embaixada não achou que era um momento adequado para retomar esse tema"
Apesar do descaso político, os peixes-bois têm um papel ecológico de extrema importância, podendo impactar até na reprodução de recursos pesqueiros no Ceará. "O problema é que questões ambientais e animais nunca estão à frente, nunca são prioridade", define a oceanógrafa e engenheira de pesca, Caroline Vieira.
Nota da Petrobras:
A Petrobras apoiará a operação disponibilizando recursos humanos, materiais e logísticos, por meio de parceria com a instituição Aquasis, que ficará responsável pela execução técnica e operacional.
A responsabilidade pelo planejamento e estruturação das ações necessárias para retorno do animal é do Governo Brasileiro, com intermédio do Ministério do Meio Ambiente, IBAMA e do Ministério de Relações Exteriores.
Nota do Ministério das Relações Exteriores:
O Ministério das Relações Exteriores acompanha e presta apoio às iniciativas do governo brasileiro — conduzidas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), em parceria com a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) — para viabilizar o retorno ao território nacional do peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) conhecido como “Tico”.
O objetivo é transferir o animal da Venezuela para o território brasileiro, observando os protocolos sanitários e de segurança necessários, de modo a possibilitar sua reinserção na natureza.
Nesse contexto, a Embaixada do Brasil em Caracas tem realizado gestões junto às autoridades venezuelanas para a emissão da licença de exportação e dos certificados necessários à transferência do animal.
Além de representar o governo brasileiro em negociações internacionais sobre conservação e uso sustentável da biodiversidade, o Ministério das Relações Exteriores atua, por meio de sua rede de embaixadas e consulados, como facilitador de iniciativas de repatriação de fauna brasileira, em particular nos casos de espécies ameaçadas de extinção.
*Estagiária supervisionada pelas jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.