Tontura, náusea e dor: Prefeitura de Maracanaú investiga intoxicação em moradores após odor

Autoridades locais investigam o que poderia ter causado o caso.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
11 de Junho de 2026 - 08:00
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Legenda: Pessoas com doença respiratória preexistente, como asma, enfisema ou fibrose pulmonar, são mais vulneráveis à exposição inalatória.
Foto: Tunatura/Shutterstock.

Moradores afirmam terem passado mal após inalarem um forte odor "químico" registrado por dias em alguns bairros de Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). A população detalha ter sentido dor de cabeça intensa, ardência no nariz, náusea e tontura após inalar o cheiro. As autoridades locais investigam o caso.

Segundo os relatos, o episódio foi registrado nas localidades de Acaracuzinho, de Santo Sátiro e de Novo Oriente, entre o fim de maio e o início de junho. Nesse período, o fedor, descrito como pungente e sufocante, teria variado de intensidade e causado episódios de desconforto, inclusive em animais, levando até algumas pessoas a deixarem a região temporariamente. 

Em nota ao Diário do Nordeste, a Prefeitura de Maracanaú, por meio da Secretaria do Meio Ambiente (Semam), disse acompanhar as denúncias relacionadas ao caso e detalha que uma equipe de fiscalização realizou diligências nas áreas apontadas, incluindo o Distrito Industrial e adjacências.

Porém, até a tarde desta quarta-feira (10), não foi identificada a origem do suposto odor nem constatada a presença de emissões que permitissem vincular o fato a algum empreendimento.

No comunicado, a Pasta ainda ressalta que não possui registro recente de casos semelhantes nos bairros mencionados e afirma que mantém equipes de fiscalização de plantão acompanhando a ocorrência. “Novas ações poderão ser realizadas conforme o recebimento de informações que auxiliem na identificação da possível fonte da ocorrência”, diz. 

Residentes relatam mal-estar após inalar odor ‘químico’

Uma das afetadas pelo episódio foi a universitária Aline Mendes, que reside no bairro Novo Oriente. Ela conta que foi surpreendida pelo forte odor na noite de 2 de junho. “Parecia um cheiro ácido, como se fosse amônia. A gente não conseguia identificar exatamente o que era”, descreve.

Devido à intensidade, inicialmente a estudante chegou a desconfiar que o cheiro poderia estar sendo causado por algum vazamento na residência, mas, após verificar, percebeu que a origem era externa. “Estava na rua inteira. Então, comecei a mandar mensagem para outras pessoas do bairro, que relataram que também estavam sentindo”, relembra.

Senti uma dor de cabeça muito forte, os olhos ardiam e uma sensação de enjoo.”
Aline Mendes
Universitária

Apesar dos sintomas, Aline preferiu não procurar ajuda médica. Além dela, uma moradora do bairro Acaracuzinho, que não quis se identificar, relata à reportagem que teve um quadro parecido ao inalar o odor, descrito como semelhante à queima de plástico. Ela também não buscou atendimento. 

"Não sei se por não ter me alimentado bem, mas passei mal mesmo, fiquei tonta, precisei ir ao banheiro, porque achei que ia desmaiar. Inclusive, para ver se melhorava, tentei respirar só pela boca, para ver se amenizava esse incômodo, porque o odor estava muito forte”, relembra. 

Segundo o relato das duas, a intensidade do fedor variava ao longo do dia, fazendo o mal-estar aumentar ou diminuir. “O cheiro vinha, passava ali algumas horas, depois piorava de novo, depois melhorava, e os moradores reclamando”, conta Aline. Ainda conforme as residentes, os sintomas cessaram quando o odor sumiu, em meados do fim da semana passada

Apesar de odores serem comuns em algumas regiões de Maracanaú, que abriga um dos polos industriais do Estado, a residente do Acaracuzinho afirma que, nos 25 anos que mora no local, nunca inalou algo parecido

“A gente mora numa região industrial, então sente cheiro de muita coisa. Até algo que não é um odor se torna um incômodo. Não sei direito de onde vem a origem desse cheiro, não posso dizer, mas, assim, esse cheiro em específico, é a primeira vez que senti”, conta. 

Sintomas podem indicar intoxicação, diz médico

Ao Diário do Nordeste, o pneumologista e coordenador da Unidade Respiratória do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), Ricardo Coelho Reis, afirma que os sinais descritos pelas moradoras podem apontar um quadro de intoxicação. “Embora não sejam exclusivos, são muito sugestivos”, frisa. 

Ao ser questionado quais agentes podem causar o quadro, o especialista lista que gases atribuídos à poluição ambiental e risco inalatório, como o monóxido de carbono (CO), os óxidos de nitrogênio (NOX), os derivados do ozônio (O3) e o dióxido de enxofre (SO2), podem causar desconfortos semelhantes.

No entanto, o pneumologista ressalta que não é possível apontar se algum desses teria motivado esse episódio. “Muitos outros compostos também [podem]. Não há um quadro clínico patognomônico”, destaca, citando o termo científico usado para descrever um sinal ou sintoma exclusivo e característico de uma única doença ou condição. 

Em casos de intoxicação, Ricardo explica que há alguns sintomas de alerta que indicam necessidade de avaliação médica. São eles: 

  • Dificuldade respiratória;
  • Opressão torácica;
  • Hipotensão arterial (pressão baixa);
  • Tonturas intensas;
  • Perda da consciência;
  • Convulsões, entre outros.

Segundo o pneumologista, existem grupos que são mais vulneráveis à exposição inalatória, principalmente pacientes com doença respiratória preexistente, como asma, enfisema ou fibrose pulmonar. “Além disso, outras pessoas com alguma fragilidade (doenças crônicas neurológicas, cardíacas, renais, hepáticas, imunossupressoras) e os extremos de idade (crianças pequenas e idosos) compõem os grupos de maior atenção”, acrescenta.

Uma moradora do bairro Santo Sátiro, que não quis se identificar, é um desses casos. Diagnosticada com asma, ela teve uma crise devido ao odor. “Fui ficando sem ar, aí tive que me isolar no meu quarto para poder melhorar, por causa do ar-condicionado. Mas foi bem, bem dificultoso.” 

Moradores se abrigaram em outros bairros

Devido à intensidade do cheiro, Aline e o marido deixaram a residência no bairro Novo Oriente, em 3 de junho, para se abrigar na casa da sogra da universitária, localizada no bairro Luzardo Viana.

Entretanto, o casal retornou ao próprio endereço no dia seguinte, preocupado com os animais de estimação, que também haviam demonstrado desconforto com o forte odor: “Como a gente tem gatos, ficou preocupado de deixar eles sozinhos. [...] Eles estavam bem estressados. Dava para ver que eles estavam com um incômodo olfativo.”

Outra pessoa que deixou a residência devido ao caso foi a moradora da localidade de Santo Sátiro. Devido à crise asmática, ela decidiu dormir na casa de um familiar, longe da região: “Fui para a minha mãe, que é em um bairro daqui [Maracanaú], e lá não tinha o mau cheiro. Para poder melhorar, porque, como tenho problema de asma muito forte, acabo tendo que tomar medicações.”

Como auxiliar a investigação

À reportagem, a Semam ressalta que a população pode contribuir com o trabalho investigativo das autoridades, enviando informações e denúncias à Pasta, pelo telefone (85) 3521-5143.

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