Corredora denuncia racismo durante treino na Beira-Mar de Fortaleza

Caso ocorreu na manhã de sexta-feira (11) e está sendo investigado pela Polícia Civil do Ceará.

Escrito por Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
11 de Julho de 2026 - 15:30
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Legenda: Débora registrou um boletim de ocorrência, mas também fez um depoimento público sobre o caso.
Foto: Reprodução/Redes sociais/@deborasandyla.

"Pessoas como você não deveriam estar correndo na Aldeota, deveriam estar correndo na Barra do Ceará". Foi o que a corredora e professora Débora Sandyla Araújo, de 32 anos, escutou durante um treino que realizava na Avenida Beira-Mar, no bairro Meireles, em Fortaleza, na manhã de sexta-feira (11).

Em relato nas redes sociais, Débora explicou que a situação começou após uma idosa, que estava pedalando na ciclofaixa, reclamar da circulação de corredores no local. Em seguida, a mulher teria feito o comentário racista direcionado a ela.

Apesar de ter considerado deixar o episódio passar, ela decidiu interromper a corrida e enfrentar a situação.

“Outras vezes na vida eu já  deixei passar, dessa vez, não. Não quero que isso fique impune, quero que as pessoas saibam o que aconteceu, e que pessoas racistas, pelo menos, pensem duas vezes antes de fazer o que fizeram comigo hoje”, afirmou.

Após o ocorrido, a atleta registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin), da Polícia Civil do Ceará (PCCE).

Em nota, a PCCE detalhou que a Decrin está responsável por investigar o caso e que já começou a apurar a denúncia de injúria racial

Ao Diário do Nordeste, Débora, que é remanescente do quilombo da Serra da Rajada, em Caucaia, fez questão de destacar que não tem qualquer problema com a Barra do Ceará. Sua indignação e dor surgiu pelo sentido atribuído à fala da mulher.

“Eu não tenho nada contra a Barra do Ceará. Mas eu moro na Praia de Iracema, a poucos metros da orla. Mas, porque eu sou negra, vou ter que sair daqui para correr na Barra do Ceará, porque lá seria o bairro destinado para mim? Porque é a periferia onde eu devo correr, por ser uma pessoa negra?”.

A corredora contou que escolhe treinar na Beira-Mar por viver próximo à orla e por se sentir confortável no local. Para ela, a associação entre sua cor e o bairro reforça uma lógica discriminatória de que pessoas negras não podem pertencer a determinados espaços da cidade.

Qual é a punição para racismo?

No Brasil, o racismo é crime inafiançável e imprescritível, conforme a Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei de Crimes Raciais. Além disso, com a Lei nº 14.532/2023, a injúria racial passou a ser equiparada ao crime de racismo no Brasil.

A legislação prevê pena de dois a cinco anos de reclusão para ofensas motivadas por raça, cor, etnia ou procedência nacional. 

Entenda como ocorreu o caso

Em meio ao ciclo de uma maratona, Débora seguiu sua rotina de treinos, saindo de casa às 6h. Porém, aproximadamente às 6h50, foi abordada pela idosa enquanto corria na lateral da ciclofaixa. 

Ele chegou a ouvir a idosa reclamar que ela deveria correr "olhando para trás". Neste primeiro momento, seguiu com o treino. No entanto, essa mesma mulher disse que "pessoas como ela" não deveriam estar correndo na Aldeota, mas na Barra do Ceará.

Quando Débora pediu para a suspeita repetir o que tinha dito, a idosa logo negou a ofensa e passou a dizer que a corredora estaria tentando criar confusão e chamar atenção.

Na Beira-Mar, a corredora pediu ajuda, denunciou ter sido vítima de racismo, mas as testemunhas demoraram a se aproximar. E quando foram intervir no caso, depois de vários minutos, as pessoas buscaram "socorrer" a idosa, oferecendo água e abrigo para a mulher denunciada. 

"Me senti desamparada. Poucas pessoas quiseram ouvir minha versão. Quando ouviam, diziam que era besteira e que eu deveria continuar o treino".
Débora Sandyla Araújo
Corredora vítima de racismo

Polícia foi acionada para atender a ocorrência

Ainda na Beira-Mar, a Polícia Militar (PM) foi chamada para atender a ocorrência. Porém, segundo a corredora, o primeiro agente que chegou ao local teria se dirigido a ela em tom agressivo. "Quando a polícia chegou, a polícia gritou comigo", disse.

Débora também relata que ouviu comentários que minimizaram sua denúncia. "Outro falou 'você nem é negra, é morena'", contou.

A corredora, que se identifica como uma mulher negra, afirma que esse comentário desconsidera as discussões sobre raça e racismo no Brasil. "Isso não tira esse lugar em que estou, que as pessoas me olham e me veem como um ser inferior. Eu estou muito indignada", declarou.

Após o atendimento inicial, as envolvidas foram encaminhadas à Decrin, onde o caso foi registrado. Somente na delegacia especializada em casos de racismo Débora se sentiu acolhida pela equipe da unidade. 

Conforme a corredora, a idosa suspeita negou as acusações durante os procedimentos na Delegacia. Como não houve testemunhas que confirmassem a fala atribuída à mulher, não foi possível realizar uma prisão em flagrante. 

Ainda assim, Débora afirma que pretende dar continuidade ao caso por meio dos procedimentos cabíveis. A Polícia Civil ainda deverá analisar as imagens da câmera de segurança no local. "Vou seguir com o processo até a última instância".

Dificuldades para denunciar racismo

Neste sábado (11), o sentimento preponderante para Débora é a sensação de mal estar. Após o episódio, a professora viu sua sensação de segurança ser diretamente afetada. 

"Estou me sentindo muito acuada, mas isso é uma pessoa que eu não sou. Eu não sou uma pessoa acuada. Eu sempre fui da luta, eu tenho formação, eu estudo, leio sobre isso, mas quando você está no papel de vítima, você fica acuada", afirmou.

Perceber todas as dificuldades enfrentadas no processo, desde a ausência de testemunhas dispostas a relatar o ocorrido até as críticas que tem recebido nas redes sociais por se posicionar, é "doloroso". 

"Quando as pessoas perguntam por que você não denuncia, é porque é muito difícil enfrentar isso", disse. Apesar das dificuldades, Débora afirma que seguirá acompanhando o caso, desejando que não fique sem responsabilização.

Como denunciar?

As denúncias de crimes de discriminação podem ser feitas presencialmente na Decrin ou por meio dos canais da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), como o Disque-Denúncia 181.

O serviço garante sigilo e anonimato aos denunciantes.

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