​Ceuta, a fronteira africana que ajudou a construir o Brasil

Os mesmos navegadores que aprenderam a cruzar o Estreito de Gibraltar utilizaram esse saber para atravessar o Atlântico.

Escrito por
P.A. Damasceno ceara@svm.com.br
Legenda: Histórico de Ceuta remonta ao início das grandes navegações.
Foto: Mario Sánchez Bueno/Wikimedia Commons.

Ceuta, cidade autônoma espanhola encravada no norte da África, foi palco de uma crise humanitária que chamou a atenção global. Em uma das fronteiras coloniais mais controversas do planeta, onde a Europa ainda ocupa o território africano, jovens desafiam a morte em busca de sonhos migratórios.  

Dezenas de milhares de pessoas tentam cruzar a fronteira a partir do Marrocos, provocando emergência social, mortes e uma nova escalada nas tensões diplomáticas entre Madri e Rabat. Mas a relação de Ceuta com movimentos humanos em massa não é uma novidade.

Mais uma vez, a cidade africana reafirma seu papel histórico como um território de passagem e disputa: no século XV, era a porta de entrada para a expansão atlântica portuguesa; no século XXI, tornou-se um dos principais símbolos das desigualdades globais, dos fluxos migratórios e das disputas geopolíticas entre Europa e África. 

Nos dois momentos, a cidade apontou caminhos e contradições de novas ordens mundiais que se projetavam para o futuro.

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Sonhos e migrações

Hoje sob soberania espanhola, Ceuta foi conquistada pelos portugueses em 1415. Para parte da historiografia, a conquista do território representa o marco inaugural da expansão ultramarina portuguesa e um dos momentos fundadores da expansão marítima europeia.

Ali, começou a consolidar-se um modelo de expansão baseado menos na ocupação de extensos territórios e mais no controle estratégico das rotas marítimas. Um novo modelo de hegemonia se desenhava: o oceano passava a ser compreendido como uma grande estrada, praias eram linhas fronteiriças a serem transpostas. 

A partir dali, os portugueses passaram a investir em cartografia, aperfeiçoamento naval, construção de portos, domínio dos ventos e correntes atlânticas. O objetivo deixou de ser apenas ocupar cidades para focar no controle da circulação de mercadorias.

Sem esse marco, é difícil afirmar se haveria a sequência de viagens pela costa africana, a chegada ao Golfo da Guiné, a rota para a Índia e, posteriormente, a ocupação do Brasil. Sob esse aspecto, Ceuta é o primeiro capítulo da história que nos formou.

Os mesmos navegadores que aprenderam a cruzar o Estreito de Gibraltar utilizaram esse saber para atravessar o Atlântico. As correntes marítimas, os ventos alísios e a chamada "volta do mar" transformaram o oceano em uma ponte entre a África e a América, conectando-se diretamente ao Nordeste brasileiro.

Não é coincidência que os primeiros grandes centros urbanos do Brasil — Salvador, Olinda e São Luís — tenham sido planejados como portos integrados a essa rede que teve em Ceuta seu primeiro entreposto ultramarino.

A conquista daquela praça-forte inaugurou um modelo baseado em fortificações costeiras e controle comercial de rotas marítimas. Ao chegarem aqui, os portugueses repetiram a lógica: muitas das primeiras cidades nordestinas nasceram ao redor de fortalezas voltadas para o mar, tratando o litoral como a verdadeira fronteira do império.

Muito antes de a migração se tornar um dos grandes debates da globalização, os caminhos traçados a partir de Ceuta estruturaram uma rede global — séculos antes de o termo existir. Não foi apenas o ponto de partida de uma expansão geográfica, mas também o berço de uma nova forma de pensar o mundo. 

O império português deixou de ser continental e passou a funcionar como uma rede de cidades portuárias espalhadas por três continentes. Nós, no Nordeste, éramos um nó dessa rede, conectados por navios, informações, pessoas, mercadorias e culturas.

Habitada desde a antiguidade, transformada pelos fenícios em entreposto comercial, disputada por romanos e árabes, tomada pelo império que uniria os mares e hoje reivindicada por Espanha e Marrocos, a cidade sintetiza a multiplicidade de caminhos que marca a experiência coletiva humana.

Nós em um nó

O Brasil não está distante de Ceuta. A cidade que sempre representou o desejo humano de navegar e conquistar ajudou a moldar os dolorosos, violentos e multiculturais caminhos que nos fundaram. Os eventos recentes são mais um capítulo de uma longa história de travessias cujos impactos globais só a história pode indicar.

Aquele litoral é um espaço de cruzamentos e cruzadas, onde decisões de Estado oscilam entre a troca e a disputa, a partilha e a guerra. Quando episódios de dor e desespero explodem nesses nós da rede globalizada, é preciso questionar quais escolhas coletivas estamos fazendo enquanto sociedade. As mortes no Mediterrâneo também nos dizem respeito.

Pensar na crise atual é pensar o Brasil. A migração é o grande tema do nosso tempo, assim como foi na Era das Navegações. Povos em movimento sempre foram fonte de tensões que expuseram o que temos de pior, mas foram também a força motriz que nos permitiu ser o que somos no que temos de melhor. 

Nossos litorais foram espaços de encontros, deslocamentos e reinvenções. Por aqui passaram povos indígenas de diferentes matrizes, navegadores europeus, africanos escravizados de inúmeras etnias forçados a migrar, cristãos-novos, soldados, degredados, holandeses, franceses e, mais tarde, migrantes de todas as partes do mundo e do próprio país.

Nossa identidade não nasceu da permanência, mas do movimento. Ceuta e o Brasil são, em essência, territórios erguidos por fluxos humanos, onde cada chegada deixou marcas na língua, na culinária, na fé, na música e na visão de mundo. É essa capacidade de acolher, misturar e reinventar que nos define. 

Nossa história justifica o impacto e a dor que as imagens das redes sociais nos causam. Sofremos ao ver o desespero de quem se lança ao mar porque herdamos, de quem veio e de quem acolheu, a sabedoria ancestral de que o sal, o sonho e o sangue se misturam nas águas que desenham o mundo.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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