Ceará

Da colonização ao Pecém Verde: portos ajudam a desenvolver o Ceará há mais de 400 anos

Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
08/10/2024 - 14:00

Mais um navio some no horizonte após zarpar do Ceará, carregado de frutas e legumes a aço e combustíveis rumo a destinos nacionais e internacionais. Tem sido assim há mais de 400 anos: os portos são um dos principais motores da economia do Estado e permitiram, através da importação e exportação, o desenvolvimento de boa parte do território cearense. 

Antes da tardia colonização portuguesa – a primeira tentativa do explorador Pero Coelho de Sousa data de 1603 –, o litoral do Ceará foi útil a navegantes franceses e neerlandeses (termo atualizado de “holandeses”), que pretendiam explorar minérios e matérias-primas. Nas tentativas, eles precisaram buscar áreas seguras para guardar os navios e encontraram bons portos naturais.

Pesquisador do Siará neerlandês, J. Terto de Amorim considera complexa a missão de definir a origem da ocupação portuária. Com base em análises cartográficas, segundo ele, franceses e neerlandeses preferiram a foz do rio Camocim, na região norte, e a praia do Mucuripe, em Fortaleza; já os portugueses, a Barra do Ceará.

As chegadas e saídas de embarcações desses locais eram quase diárias. O Mucuripe – conhecido pelos navegantes como um cabo de águas calmas – sediou muitos carregamentos e descarregamentos, além de servir de ponto de ancoração para reparos.

Prospecto da Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, datado do início dos anos 1800, mostra um pequeno píer (à direita) para uso dos navios
Legenda: Prospecto da Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, datado do início dos anos 1800, mostra um pequeno píer (à direita) para uso dos navios
Foto: Arquivo Histórico do Exército Brasileiro

Os franceses teriam desembarcado primeiro, por volta de 1587, e usado os portos naturais para levar principalmente madeira de boa qualidade, como o pau violeta, para a fabricação de móveis. 

Quando a maré estava alta ou baixa, o arrecife segurava a correnteza e facilitava a atracagem dos navios ou dos barcos de pequeno e médio porte. O primeiro porto de Fortaleza que se tem registrado vai ser na Prainha.
J. Terto de Amorim
Pesquisador

Outro mapa estudado por Amorim mostra uma estrada aberta por neerlandeses e indígenas da praia até a serra de Maranguape, entre 1649 e 1650. Ela ligava o famoso Forte Schoonenborch às minas de prata (embora de má qualidade) e facilitava o transporte das cargas por carroças. Eles teriam, ainda, montado uma base de apoio no litoral. 

Porém, não haveria estrutura portuária até meados de 1799: a Prainha, área hoje entre o Centro e a Praia de Iracema, foi considerada estratégica porque tinha um grande arrecife. Além do píer para cargas e descargas, foi construído no local um pequeno forte para defesa militar e uma casinha que funcionava como prensa de algodão.

O Grande Mucuripe

No entanto, Fortaleza se desenvolveu rapidamente no século seguinte, com a pecuária e a cultura do algodão, e demandou a construção de um porto maior e mais seguro. Diversos projetos foram sugeridos, mas várias décadas se passaram até que o porto de Fortaleza saísse do papel. Acompanhe o processo de implantação no infográfico:

Com essas evoluções, o Porto do Mucuripe passou a atender às regiões Nordeste, Norte, Centro-Oeste e Vale do São Francisco. Entre os principais produtos movimentados por ele, atualmente, estão cimento, arroz, farinha de trigo, sal, frutas, gasolina e óleo diesel.

Para Eider de Olivindo Cavalcante, doutor em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e autor do livro “Expansão urbana e controle territorial - o Mucuripe e a produção do litoral de Fortaleza”, o porto traz “imponência” à paisagem da cidade e fica numa “localização privilegiada”, próxima da Europa e da América do Norte.

Apesar disso, ele aponta que o equipamento foi “estrangulado” pela urbanização, enfrentando limitações de expansão pelo adensamento do entorno. Por isso, na década de 1990, o Governo do Estado decidiu investir em outras políticas estruturantes para dar maior vazão às novas demandas da economia que se modernizava. Assim, surgiu a ideia do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp).

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Legenda: Inauguração do Porto do Pecém em 2002 reuniu empresários e autoridades
Foto: José Leomar/Arquivo DN

Pecém: plano de crescimento

O local escolhido foi o acidente geográfico chamado de Ponta do Pecém, a 60 km da capital, na “esquina do Oceano Atlântico”: de lá, em 9 dias, as embarcações chegam aos Estados Unidos e, em 12 dias, à Europa. As obras duraram de 1996 a março de 2002, quando o novo porto foi inaugurado

O Porto vem batendo as próprias marcas: as 12,2 milhões de toneladas transportadas nos primeiros 8 meses de 2024 representam crescimento de 12% em comparação com o mesmo período de 2023.

Mesmo tão jovem, o equipamento conseguiu atrair negócios e se impor como um dos principais portos do Nordeste. De janeiro a julho deste ano, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), ele foi o 5º – e 3º multicargas – que mais movimentou na região, apresentando crescimento acima da média dos demais (12,4% contra 2% a 6%).

Para Eduardo Amaral, presidente da Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Aecipp), o sucesso do terminal está relacionado a um modelo de negócios que une logística eficiente, atração de grandes empresas, política de incentivos e parceria com portos internacionais (ele é ligado ao Porto de Roterdã desde 2018). Tudo isso fortalece a competitividade global. 

Segundo a Associação, o Complexo ajuda a alavancar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de São Gonçalo do Amarante. Em 2002, a cidade estava na 66ª posição do Ceará, com média de R$2 mil; mas, desde 2017, ocupa o 1ª lugar, com mais de R$175 mil, segundo monitoramento do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).

102,5 mil
empregos diretos e indiretos são gerados pela movimentação do Porto, conforme a Aecipp.

“Desde sua implantação, o Porto do Pecém tem sido um vetor de crescimento para o Ceará. As empresas associadas à Aecipp respondem por mais de 92% do PIB da região. Além de empregos, o Porto impulsionou a modernização da infraestrutura e atraiu investimentos que impactam diretamente a qualidade de vida da população”, ressalta Amaral. 

Para qualificar o entorno, a entidade ainda promove programas de capacitação profissional, fomenta parcerias educacionais e incentiva projetos de responsabilidade social para melhorar as condições de vida dos habitantes da área.

Legenda: Porto do Pecém é um dos principais polos da cadeia logística do Ceará
Foto: Fabiane de Paula

Potência para o futuro 

O equipamento ainda desponta como um dos principais candidatos à indústria de Hidrogênio Verde (H2V), considerado o “combustível do futuro” para substituir o petróleo e o gás natural. Ele é produzido a partir de energias renováveis, como solar e eólica, das quais o Ceará é abundante.

O Pecém pretende formar a rota de H2V mais curta entre a América do Sul e a Europa. A produção no Complexo pode chegar a 1 milhão de toneladas/ano em 2030, tendo potencial para atender a 25% da demanda de importação de Roterdã.  

O termômetro hoje é bastante positivo, com grandes empresas internacionais já mostrando interesse em estabelecer operações no Pecém. As perspectivas de crescimento são amplas, tanto para o setor energético quanto para o fortalecimento da economia cearense, consolidando o Porto do Pecém como um líder global na produção de hidrogênio verde.
Eduardo Amaral
Presidente da Aecipp

O panorama futuro inclui ainda a construção do berço 5 (espaço para atracação de navios), que será destinado prioritariamente às cargas que chegarão ao Pecém por meio da Ferrovia Transnordestina. A conclusão da linha, ainda em construção no Centro-Sul do Ceará, está prevista para 2027 e pode dobrar a movimentação de cargas.

Segundo Eduardo Amaral, as empresas do Complexo estão “muito otimistas” com esse potencial. O volume de investimentos projetado é de US$ 30 bilhões até 2031, que devem gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contribuindo ainda mais para a qualificação da mão de obra local e o desenvolvimento tecnológico do Estado. 

Construção de novo berço e expectativa de instalação de novas indústrias anima o setor portuário cearense
Legenda: Construção de novo berço e expectativa de instalação de novas indústrias anima o setor portuário cearense
Foto: Carlos Marlon

Partindo desse exemplo, o diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), Jesualdo Silva, comemora o crescimento da movimentação dos portos no cenário nacional tanto pelo aumento da demanda como pela desburocratização de processos, o que favorece a continuidade e até a ampliação dos investimentos no setor.

“Mais de 95% do nosso comércio exterior é feito através do setor portuário. É um setor crítico ao Brasil que impacta diretamente no nosso desempenho. Uma ‘saúde’ adequada dos portos significa maior PIB, maior riqueza, mais emprego e consequentemente, um impacto social elevadíssimo”, garante o gestor.

Créditos

Nícolas Paulino, Repórter | Fabiane de Paula/Carlos Marlon/José Leomar, Fotógrafos | Dahiana Araújo , Editora de Cotidiano | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Ívila Bessa , Gerente de Jornalismo | G.André Melo , Gerente Audiovisual | Gustavo Bortoli , Diretor de Jornalismo

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