História do café: de revolucionário francês a padeiro espiritual

Uma das bebidas mais complexas da história provocou revoluções, tensionou religiões e ainda hoje estimula transformações.

Escrito por
P. A. Damasceno producaodiario@svm.com.br
Legenda: Café moldou hábitos, provocou revoluções, tensionou religiões e, apesar da aparente banalidade cotidiana, segue estimulando transformações.
Foto: jazz3311/Shutterstock.

O Dia Mundial do Café é celebrado em 14 de abril; o Dia Nacional, em 24 de maio. Entre essas datas, vale dedicar algumas linhas a uma das bebidas mais complexas da história

Humano, demasiado humano, o café moldou hábitos, provocou revoluções, tensionou religiões e, apesar da aparente banalidade cotidiana, segue estimulando transformações. 

Mais que um prazer matinal, o café é força histórica. Não por determinismo, mas por sua profunda inserção na vida social: atravessou desertos, portos e disputas teológicas até se tornar companheiro inseparável das manhãs brasileiras. 

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Da subversão à sacralidade 

Originário da Etiópia, o café se espalhou pelo mundo islâmico a partir do século XV, especialmente no Iêmen. Em cidades como Meca e Cairo, tornou-se parte da vida urbana, impulsionando espaços de sociabilidade, comércio e debate — o que incomodou autoridades. 

Em 1511, o governador de Meca, Khair Beg, tentou proibi-lo, temendo seu potencial de articulação social. A medida fracassou. O episódio ilustra algo recorrente: onde o café chega, ele agita

Quando o café chegou à Europa, no século XVII, trouxe consigo um rótulo incômodo: “bebida dos muçulmanos”. Em meio às tensões entre cristandade e Império Otomano, não faltaram vozes que o considerassem suspeito — ou mesmo “satânico”. É nesse contexto que emerge um episódio tão simbólico quanto saboroso: o chamado “batizado do café”. 

Segundo a tradição, o papa Clemente VIII teria sido instado a proibir a bebida. Ao prová-la, porém, teria declarado: “Esta bebida dos infiéis é tão deliciosa que seria um pecado deixá-la apenas para eles.” Então o café teria sido batizado segundo algumas narrativas populares. 

A anedota, registrada em compilações sobre a bebida, não aparece em documentos oficiais do pontificado, mas expressa bem o movimento de assimilação cultural: o café deixava de ser visto como ameaça para ser incorporado, com as bênçãos celestiais, ao cotidiano europeu. 

Café e revolução 

Com a expansão das coffeehouses em cidades como Londres, Paris e Viena, o café tornou-se combustível intelectual. Esses espaços — chamados de “universidades do povo” — reuniam pensadores como Voltaire – que dizem, tomava mais de 40 xícaras por dia — Diderot e Rousseau. 

Alguns historiadores associam a popularização do café à transformação dos hábitos intelectuais europeus: mais sóbrio que o álcool, ele favorecia a concentração e o debate.

Cafés como o Procope, em Paris, tornaram-se espaços de circulação de ideias que ajudariam a redefinir a vida política e cultural do Ocidente. 

Mais acessíveis que os salões aristocráticos, esses ambientes ampliaram o debate público. O café não fez revoluções sozinho, mas participou da mudança das formas de sociabilidade que as tornaram possíveis. 

Na Revolução Industrial, o café também embebeu tensões: estava tanto nas salas patronais quanto nas reuniões protossindicais. A pausa para o café nasceu desse embate: para o patrão, era combustível para a máquina humana; para o operário, um respiro em uma rotina bruta, em que qualquer parada era punida e combatida pelos ávidos senhores das máquinas. 

Café amargo: sabor modernidade 

No Brasil, a história do café merece um capítulo próprio. As mudas de café chegaram ao nosso país em um dos maiores casos de biopirataria da história — mas desenvolverei essa ideia em outra ocasião.  

O café foi o motor econômico do Império, sustentou elites e infraestrutura, ao custo do trabalho escravizado que marcou profundamente nossa história. 

Nesses descaminhos sociais e econômicos, o café foi fonte de dor e sofrimento, em seus oceanos cafezais. O café impulsionou ferrovias, conectou mercados e acelerou o Brasil rumo à modernidade em meio a essas desigualdades.  

Foi o lucro do ouro negro, plantado e colhido por mãos negras, que sustentou a Belle Époque de um Brasil que quis se embranquecer. Foram as negritudes, do café e da gente, que pagaram as contas de nossa modernização. 

O café trouxe o trem. Seus lucros e a necessidade de escoamento rápido impulsionaram as primeiras ferrovias — símbolos da modernidade — no Brasil de Mauá e no Ceará do Senador Pompeu. Afinal, como escreveu Manuel Bandeira, o trem de ferro, no Brasil, parece repetir, entre fomes e riquezas: 

Café com pão 
Café com pão 
Café com pão... 

Café com pão 

Esses versos remetem imediatamente à relação do café com o Ceará, onde ele também estruturou sociabilidades, basta lembrar dos quatro cafés históricos que funcionavam nos quiosques da Praça do Ferreira da Fortaleza Belle Époque: o Café Java, o Café Elegante, Café do Comércio e o Café Iracema. 

Foram nestes cafés que os padeiros espirituais molharam seu pão, “O Pão”, desafiando com humor e ironia os poderosos e os costumes de então. O café aguçou nossa intelectualidade e nossa molecagem. 

E agora café? Para onde? A geopolítica cafeeira do XXI  

Recentemente o café demonstrou mais uma vez sua presença na geopolítica dos alimentos. Em meio às disputas comerciais que estremeceram o mundo, o presidente dos EUA, Donald Trump, sobretaxou nosso café em 50%, a pressão interna por café pesou como em tantas vezes na história e o fez recuar. 

A volatilidade da economia global encareceu o café. Mesmo aqui o aumento dos preços gerou grande impacto político. Houve uma forte repercussão quando se noticiou que os mais pobres estavam consumindo apenas produtos SABOR CAFÉ e não café de verdade. 

Quer arriscar outra revolução, retire o café do povo. Até o pão pode faltar, mas não o café. Digo isto pois cresci ouvindo como meu saudoso pai José Airton se alimentou diversas vezes, com meus avós, tios e tias, de café com farinha, quando nem o pão fazia parte do alimento possível. 

O café pode novamente ditar rumos políticos do país. É preciso ter atenção. 

Por isso tudo, um brinde histórico ao café, aos braços cafeeiros que o produziram, à terra que o germinou e aos lares que se levantam aos seus aromas e sabores. Que um dia escravidão, devastação e exploração sejam palavras completamente banidas do campo e que os estímulos do café sejam sempre na direção da plena emancipação da humanidade. 

Bora tomar um cafezinho? 

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.