De One Piece a colônia: histórias de pirataria no Ceará

Embora nem sempre seja possível identificar os capitães e tripulações que aqui desembarcaram, relatos inserem o Estado nas rotas da pirataria.

Escrito por
P.A. Damasceno producaodiario@svm.com.br
Legenda: Jolly Roger é o nome tradicionalmente dado às bandeiras piratas usadas nos séculos XVII e XVIII para intimidar tripulações. Bandeira tornou-se um símbolo de resistência em 2025.
Foto: Toto Santiko Budi/Shutterstock.

Na BR-116, na entrada de Fortaleza, às margens do rio Cocó, um grafite tem chamado minha atenção há algumas semanas. No muro, uma bandeira pirata aparece cercada por frases antissistema. A imagem mostra uma caveira com chapéu de palha sobre ossos cruzados em fundo preto.  

A imagem é uma Jolly Roger — nome tradicionalmente dado às bandeiras piratas usadas nos séculos XVII e XVIII para intimidar tripulações e indicar que aqueles navios não pertenciam a nenhuma nação. No caso do grafite, porém, a referência vem da cultura pop: o famoso mangá One Piece, o mais vendido da história e um dos mais longos já produzidos. 

Grafite em muro preto com o símbolo pirata de One Piece (caveira com chapéu de palha) e duas mensagens de protesto em português: O Estado, atira, o povo sangra e Chamar massacre de operação é covardia.
Legenda: Grafite na BR-116, em Fortaleza, chama a atenção de quem passa.
Foto: Arquivo pessoal.

Essa bandeira tornou-se um símbolo global de resistência em 2025. Jovens passaram a usá-la em protestos em países tão distintos quanto Indonésia, Peru, França, Filipinas, Quênia, Inglaterra e Alemanha, alegando que ela representa rebeldia contra o autoritarismo e a opressão. A imagem saiu dos quadrinhos japoneses, transformou-se em anime e faz sucesso há mais de 26 anos na televisão.  

One Piece ganhou uma adaptação para a Netflix com atores reais. A série estreou sua segunda temporada agora, 10 de março, está em primeiro lugar no Brasil e é a produção mais assistida da plataforma em mais de 66 países. O sucesso demonstra o alcance multicontinental e transmidiático que a pirataria atinge há séculos.  

Filmes, séries e livros reacendem, de tempos em tempos, o fascínio por estes navegadores. São narrativas que romantizam a vida libertária e anti-establishment dos flibusteiros — muitas vezes eufemizando a violência e a brutalidade que marcaram suas jornadas. 

Sempre que um sucesso desses eclode, me pergunto: por que se fala tão pouco das profundas ligações entre a pirataria atlântica, nosso passado, nossa história? Em seu auge, esses aventureiros do mar ajudaram a movimentar a economia e a cultura de um mundo que começava a se conectar de oceano a oceano. 

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Quando pensamos em piratas, é comum imaginar o Caribe: navios com bandeiras negras, baús de tesouro enterrados e personagens lendários. No entanto, a história marítima do Brasil — e particularmente do Nordeste — também foi atravessada por esses ladrões dos mares, fossem piratas ou corsários. 

Enquanto o pirata agia por conta própria, o corsário possuía autorização oficial de um governo para atacar embarcações inimigas. Na prática, porém, a linha que separava os dois era tão fluida quanto as correntes do Atlântico. 

Entre os séculos XVI e XVII, o litoral brasileiro tornou-se um espaço disputado pelas potências europeias. Portugal tentava consolidar sua colonização, mas França, Inglaterra e Holanda buscavam explorar as riquezas da nova terra. Piratas e corsários não eram aventureiros isolados, tornaram-se agentes informais de guerras oceânicas, integrantes de profundas redes, ilegais e lucrativas, de comércio.  

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O memorialista Carlos Studart Filho, em textos publicados pelo Instituto do Ceará, destaca como documentos coloniais indicam que, no “abandono em que jaziam os vastos costões do meio-norte”, um “infinito número de piratas de todas as nacionalidades vinha aqui refrescar-se, fazer aguada e livremente traficar com os nativos”, em um intenso comércio clandestino.  

Studart menciona corsários como João Baptista Syens, de Amsterdã, que teria fundeado no Mucuripe em 1600, além do traficante Hendryck Hendrycksen e do capitão Claes Adriaenssen Cluyt que também vinham barganhar água e mercadorias com povos indígenas da região de nossa mais famosa embocadura. Ele conta também que “mais de um contrabandista morreu nas mãos impiedosas de Martim Soares Moreno ao se ter deixado surpreender barganhando com os silvícolas do Ceará”.  

Documentos da administração colonial portuguesa registram navios armados sem bandeira avistados no Mucuripe, em Camucym e no Fortim nas proximidades do Jaguaribe. Corsários ligados à Inglaterra e à Holanda passaram a atacar rotas portuguesas que transportavam açúcar e outras riquezas coloniais. Essas aparições nem sempre resultavam em ataques, mas causavam preocupação entre autoridades portuguesas, que temiam tanto a pirataria quanto a instalação de colônias rivais. 

Relatos de viagem indicam que toda a faixa do litoral nordestino era conhecida como uma região estratégica para reabastecimento e observação das rotas marítimas. O Ceará, relegado por Portugal, e com uma posição geográfica privilegiada, situado próximo às rotas que ligavam o Caribe, a África e o norte do Brasil era muito atraente a quem cruzava o Atlântico. É altamente provável – pela análise de rotas descritas em diários e cartas de viagem – que nomes famosos da pirataria como Thomas Cavendish e René Duguay-Trouin — o célebre corsário francês que invadiu e saqueou o Rio de Janeiro em 1711, possam ter tomado conhecimento de nossas praias.  

Esses navegadores buscavam produtos valiosos como tabaco, óleos balsâmicos, especiarias indígenas, âmbar e aves exóticas, atacavam embarcações portuguesas e ajudavam a enfraquecer o já frágil controle luso. Nas guerras contra franceses e holandeses que disputavam o Nordeste com Portugal e na loucura mercantilista rumo ao lucro de especiarias e luxos exóticos, a pirataria era muitas vezes mais regra que exceção.  

As velas piratas do Mucuripe vão sair para pilhar

Embora nem sempre seja possível identificar os capitães e tripulações que aqui desembarcaram, os relatos inserem o Ceará nas rotas da pirataria atlântica. Entreposto e parte de um sistema marítimo global onde comércio, guerra e saque frequentemente se confundiam. 

Hoje, ao caminhar pelas praias do Nordeste, é difícil imaginar que essas águas já foram palco de perseguições navais, ataques repentinos e encontros improváveis entre criminosos navais europeus e povos indígenas. Ainda assim, os documentos coloniais revelam uma história marítima intensa e pouco conhecida do Ceará e do Brasil, com episódios dignos de romances de aventura. 

Nossa posição geográfica pode ter nos colocado em um ponto importante dessa cadeia marginal que movimentou riquezas, redes comerciais e conflitos ao longo do Atlântico. Para além do Caribe, as velas piratas também assombraram os verdes mares cearenses e deixaram rastros na formação das rotas, da economia e das narrativas que ajudaram a moldar a ocupação da região.

Do Mucuripe às Antilhas, piratas e corsários lembram que o Atlântico inteiro — de norte a sul — foi palco das disputas que ajudaram a criar o mundo moderno. Talvez por isso aquela bandeira pintada entre propagandas e anúncios nos muros da BR-116 continue chamando atenção. Das Jolly Rogers aos documentos esquecidos dos arquivos coloniais, a história parece sussurrar que há perspectivas marginais ainda esperando pra ser contadas — narrativas piratas que apenas trocam de velas. 

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.