Fortaleza-mulher: 300 anos de uma cidade feminina

Fortaleza é palavra e identidade.

Escrito por
P. A. Damasceno ceara@svm.com.br
Legenda: Fortaleza celebra 300 anos neste abril de 2026
Foto: Fabiane de Paula
“Quantos aqui ouvem, os olhos eram de fé
Quantos elementos amam aquela mulher
Quantos homens eram inverno, outros, verão
Outonos caindo secos no solo da minha mão
Gemeram entre cabeças, a ponta do esporão
A folha do não-me-toque, o medo da solidão
Veneno meu companheiro, desata no cantador
E desemboca no primeiro açude do meu amor
É quando o tempo sacode a cabeleira, A trança toda vermelha”
 
Foi a voz da fortalezense Amelinha que fez Frevo Mulher, de Zé Ramalho, atravessar o país. Não é casual. Há algo na força dessa música que traduz Fortaleza — uma Cidade Mulher que, aos 300 anos desde sua elevação à vila, envelhece como suas mulheres: forte, sábia, contraditória, resistente e, sobretudo, em construção.
 
A Fortaleza é palavra e identidade feminina. É a “loura desposada do sol”, cantada em soneto por Paula Ney — é uma galega bronzeada, mas, não do sol turístico vendido em cartão-postal. É do sol que marca a pele de quem trabalha, de quem luta, de quem sustenta nossa potência em meio a mormaços e quenturas.
 
Celebrar Fortaleza não pode ser apenas repetir nomes oficiais e datas comemorativas. Isso é confortável — e incompleto. As festas de uma cidade construída por muitas mulheres que, em sua maioria, não estão nos livros, precisam lembrar. Afinal, esquecer não foi descuido, é escolha.
 
A ocultação das mulheres indígenas — Tremembés, Potiguares, Anacés, Cariris, entre tantas outras — sob a sombra de uma única e romantizada Iracema não é acaso: é construção. As mulheres originárias são mais reais, plurais e densas que a figura indianista.
 

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Estão menos na idealização literária e mais na continuidade de lideranças matrilineares, como as caciques Pequena e Juliana Alves Jenipapo. É nesse chão de resistência que se inscrevem — e não nas narrativas que suavizam a violência da colonização sobre seus corpos e territórios.
 
A imagem da Iracema-virgem se apequena diante da Iracema-Guardiã: Os lábios de mel nem aparecem ante a altivez, armada, símbolo de resistência que orla nossa praia mais famosa com suas mãos firmes segurando seus arcos de resistência enquanto parem diariamente seus ‘filhos da dor’.
 
E não há contradição em reconhecer que essa força também atravessa a própria sanha colonizadora. Quando Pero Coelho fracassa nas primeiras bandeiras que deveriam ocupar o Siará Grande, cresce a figura de Maria Tomásia Cardigo Coelho. Uma esposa que não fica em Portugal, que participa ativamente da ocupação.

Quando a seca, as flechas e a fome expulsam os ocupantes do forte de São Tiago é ela que, entre a morte do filho primogênito e fraquejadas do companheiro, lidera a retirada para salvar os quatro filhos restantes e os companheiros de jornada.
 
E quantos nomes foram apagados, substituídos, impostos às mulheres africanas trazidas em diáspora, separadas de povos, famílias e elos, que tiveram as marcas da economia escravocrata etiquetadas em suas almas e carnes. Quantas mãos negras colheram e teceram o algodão branco que fez de Fortaleza a potência econômica que marca a atualidade.
 
Dessas forças destaco Matilde, aquela que pariu um dragão, adorei ver nas paredes da cidade a frase “não existe chico sem Matilde”. O Dragão do mar, o Chico da Matilde, não dependeu só de sua mãe para se tornar lenda de luta, afinal, ele não puxou sozinho a greve que lutou contra o tráfico nas praias cearenses, teve mulheres como Tia Preta Simoa que usou sua popularidade, ligada às tradições afrodescendentes e à religiosidade, para mobilizar a Fortaleza contra o tráfico interprovincial. 
 
Aliás, na terra dos Abolicionistas, a abolição é palavra feminina. A Sociedade das Cearenses Libertadoras, entidade de elite, mas que lutou pelo fim da escravidão, reuniu 22 mulheres influentes na luta pela emancipação. A Sociedade não apenas discursava: libertava pessoas. Pressionava. Financiava. Enfrentava. Mobilizou o imperador em pessoa, a liderança de outra Maria Tomásia reuniu nomes como Emília de Freitas, Francisca Clotilde e outras intelectuais que negaram os papéis a elas impostos. 
 
Mulheres faziam política antes mesmo de terem direito ao voto. Isso não é detalhe — é estrutura.
 
E esse padrão de ruptura de padrões se manteve.
 
No século XX, mulheres sustentaram bairros, organizaram comunidades, ensinaram, criaram, resistiram. Sem monumentos. Sem reconhecimento proporcional. A cidade cresceu sobre esse silêncio. E quando este se rompe, ele incomoda.
 
Incomodou na eleição de Maria Luiza Fontenele quando, em 1985, ela irrompe a política pós-ditadura e autoritarismo e vira símbolo da redemocratização. 
 
A eleição de Maria Luiza Fontenele não foi apenas uma vitória eleitoral — foi uma ruptura simbólica. Uma mulher, de esquerda, no comando de uma capital ao fim da ditadura, era mais que política: era afronta. Anos depois, Luizianne Lins, a lôra, enfrentou lideranças masculinas da esquerda e da direita para lançar sua candidatura e sair de 3% das intenções de voto para o governo da Loura tricentenária. E, ainda assim, o estranhamento permanece.
 
O problema nunca foi capacidade. Foi espaço.
 
Vazios da biografia urbana dessa cidade-feminino que segue sendo produzida por ‘escritoras fantasmas’ nas universidades, nas periferias, no comércio, nos movimentos sociais. Talvez a melhor forma de homenagear essas mulheres seja justamente essa: Ler Fortaleza como um território de memória feminina, onde cada geração deixa sua marca — firme, persistente e, sobretudo, indispensável.
 
E por serem vidas indispensáveis não pode ficar mudo o fato de nossa cidade seguir sendo um território onde mulheres violentadas, silenciadas e, muitas vezes, mortas não são excepcionalidades. Celebrar sem denunciar é encenação.
Mas a Fortaleza-Mulher resiste — apesar de nós.
 
Recentemente a única mulher do Supremo Tribunal Federal, Ministra Carmem Lúcia, em visita à Fortaleza, expressou a dor e resistência feminina ante esses crimes. Em suas palavras: 
 
"Decidiram nos matar de várias formas. E nós decidimos viver de todas as formas, de qualquer forma. Eu não quero uma forma própria de viver. Eu não quero uma forma única de viver. Eu quero viver podendo escolher qualquer forma que seja coerente com aquilo que eu sou e que eu pretendo ser".
 
Essa não é apenas uma expressão. É um diagnóstico.
Pessoa de costas, com cabelo preso e usando óculos escuros, apoia-se em um parapeito branco e observa o mar. Ao fundo, há uma praia movimentada com guarda-sóis e uma linha de prédios altos ao longo da orla sob céu azul.
Legenda: Vazios da biografia urbana dessa cidade-feminino que segue sendo produzida por ‘escritoras fantasmas’ nas universidades, nas periferias, no comércio, nos movimentos sociais.
Foto: Fabiane de Paula
 
Fortaleza não precisa de homenagem. Nem de amor de efeméride. Afinal, que os tantos elementos que amam essa Mulher, não sejamos os “venenos companheiros” mas os jangadeiros que desembocam nos açudes de seu amor.
 
Quem ama não mata.
Quem ama não apaga.
Quem ama não silencia.
Talvez esteja aí o maior desafio desses 300 anos!
Viva Fortaleza viva! 
 
Viva Amelinha! Viva a fortaleza das Fátimas, Marias, Jamillys, Ângelas, Veras, Cinthias, Paulas, Celsas, Rosângelas, Anas, Elianes, Socorros, Clarissas, Nandas, Pequenas, Penhas, Simoas, Barbaras, Marias Luizas, Luiziannes, Dahianas e Dandaras! 
 
Viva todas nossas mulheres vivas!
 
Parabéns a minha fortaleza, Fátima Maria Pinto Damasceno, que partilha esse dia 13 com nossa cidade!  
 
À Fortaleza Delas! E que venham muitos 300!
 
Serviço
A coluna agora presta serviço e dica cultural. Vai ter show de Amelinha no Cine São Luiz, viu!
Aproveita o Frevo-Mulher pra celebrar Fortaleza! 
Vai ser no 19 de abril, domingo, no Cineteatro São Luiz, às 18 horas. 
Os ingressos estão à venda virtualmente pelo Sympla. Aproveitem nossa cidade!
 
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.