O horror silencioso da escravidão

Desde a Lei Áurea, preferimos acreditar que bastava abolir juridicamente a escravidão para eliminar a sociedade construída por ela. Não bastava.

Escrito por
P.A. Damasceno producaodiario@svm.com.br
Legenda: Esquecemos que a escravidão não desaparece quando caem as correntes, mas quando deixam de existir as estruturas que tornam aceitável a exploração de um ser humano por outro.
Foto: Brian Jiz/Pexels.

Uma mulher de 62 anos foi resgatada no Ceará após passar mais de cinco décadas trabalhando para a mesma família em condições investigadas como análogas à escravidão. A notícia chocou muita gente. O que deveria nos chocar ainda mais, porém, não é apenas o crime, mas a naturalidade com que parte da sociedade reagiu a ele.

Bastou a divulgação do caso para que surgissem comentários sobre o quanto ela era "bem tratada", sobre a "sorte" de morar em um condomínio de alto padrão e sobre como era "praticamente da família". Mais do que defender uma família específica, essas falas revelam a permanência de uma cultura que insiste em justificar relações de profunda desigualdade pelo discurso do afeto.

O Ceará gosta de contar suas grandes histórias. Somos a terra do Dragão do Mar, da Terra da Luz, do Palácio da Abolição e também de José de Alencar. O atual palácio do governo homenageia a abolição provincial da escravidão; a Vice-Governadoria funciona no Palácio de Iracema, celebrando a obra do maior romancista cearense. Poucas vezes, porém, percebemos a contradição que existe entre esses símbolos.

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Enquanto celebramos o escritor, quase nunca lembramos o político. Em 1867, José de Alencar escreveu ao imperador que "o escravo deve ser [...] o homem selvagem que se instrui e moraliza pelo trabalho". Em suas Cartas de Erasmo, defendia que a escravidão exercia uma função civilizatória e que deveria desaparecer lentamente, substituída pela benevolência dos senhores, jamais pela ruptura das relações de dependência.

Não há problema em admirar o autor de Iracema. O problema é esquecer deliberadamente o intelectual que empregou seu talento para justificar a continuidade da escravidão.

Talvez seja justamente esse o maior problema da nossa memória: ela é seletiva. Lembramos aquilo que nos orgulha e esquecemos aquilo que nos responsabiliza.

A reportagem repetia uma expressão conhecida: a mulher era "como se fosse da família". Mas a pequena preposição merece mais atenção do que a própria palavra família. Ela era da família, não na família. O "de" indica posse, não pertencimento. Afinal, quem é verdadeiramente da família compartilha direitos, patrimônio, decisões e futuro. Não apenas deveres.

Afeto não substitui direitos

Durante mais de 50 anos, ela trabalhou para três gerações sem construir autonomia financeira, escolarização ou um projeto próprio de vida. Rapidamente surgiu a narrativa do cuidado: diziam que tinha casa, alimentação, proteção.

É exatamente aí que a História bate à porta. Desde o período escravista, o paternalismo procura transformar direitos em favores. A exploração veste a roupa da generosidade. A dependência passa a ser chamada de gratidão.

Talvez essa tenha sido a mais eficiente herança da escravidão brasileira. Não apenas explorar pessoas, mas convencê-las — e convencer toda a sociedade — de que essa exploração poderia ser confundida com cuidado.

Quando o afeto substitui os direitos, a liberdade deixa de parecer uma conquista e passa a soar como abandono.

Isso ajuda a compreender, inclusive, por que a vítima permaneceu inicialmente na mesma residência, sob acompanhamento das autoridades. Décadas de dependência não se desfazem com uma assinatura. A escravidão aprisiona corpos; relações de servidão aprisionam também afetos, identidades e a própria percepção de autonomia.

O mais inquietante, contudo, não foi apenas a notícia. Foram os comentários. Li dezenas deles. Muitos recordavam com nostalgia as antigas "mães pretas", lamentavam que "hoje ninguém mais quer trabalhar" ou afirmavam que a idosa deveria agradecer pela vida confortável que levava. Nenhum dos comentários que encontrei era escrito por empregadas domésticas. A nostalgia costuma ser um privilégio de quem nunca ocupou o lugar da exploração.

Essas manifestações revelam que esquecer nunca significou superar. Desde a Lei Áurea, preferimos acreditar que bastava abolir juridicamente a escravidão para eliminar a sociedade construída por ela. Não bastava.

Sem acesso à terra, à educação, ao trabalho digno e à cidadania, milhões de brasileiros permaneceram presos a relações de dependência que reproduziram a lógica da casa-grande sob novas formas.

Por isso, esse caso não é apenas policial nem apenas trabalhista. Ele nos obriga a olhar para um espelho. A assinatura da Lei Áurea libertou juridicamente os escravizados, mas não condenou moralmente a cultura que considerava natural possuir pessoas. Essa cultura permaneceu viva, adaptou sua linguagem e encontrou novas maneiras de justificar antigas hierarquias.

A indenização, a garantia de moradia, a aposentadoria e o acompanhamento para que essa mulher finalmente construa uma vida autônoma representam, ainda que tardiamente, uma pequena realização daquilo que o 13 de Maio prometeu e nunca conseguiu entregar plenamente: cidadania.

Somos especialistas em esquecer. Esquecemos que José de Alencar foi mais do que o autor de Iracema. Esquecemos que a Abolição foi apenas o começo de uma luta por igualdade. Esquecemos que a escravidão não desaparece quando caem as correntes, mas quando deixam de existir as estruturas que tornam aceitável a exploração de um ser humano por outro.

Talvez esteja na hora de contar também nossas pequenas histórias. As que nunca dão nome a palácios, não se transformam em monumentos e raramente aparecem nos livros. Porque são justamente elas que revelam aquilo que preferimos não ver.

A história dessa mulher não é apenas a história de uma vítima. É a história de um país que aboliu a escravidão, mas ainda não decidiu abandonar completamente a cultura que ela produziu. O passado não voltou. Ele nunca foi embora. O horror, a violência e a desumanização do outro ainda estão aqui. Permaneceu entre nós, silencioso, doméstico, dissimulado e, por isso mesmo, quase invisível.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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