Idosa resgatada em Eusébio foi chamada de 'mãe preta' pelos patrões em rede social

A idosa de 62 anos foi resgatada após ser submetida por 55 anos ininterruptos a um trabalho com condições análogas à escravidão.

Escrito por Bergson Araujo Costa bergson.costa@svm.com.br
09 de Julho de 2026 - 16:06 (Atualizado às 16:21)
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Legenda: A mulher chegou à residência da primeira geração da família em 1971, quando tinha apenas sete anos.
Foto: Redes socias.

Uma foto publicada em 2013 nas redes sociais de Nayarah Alencar Brasil Magalhães mostra a idosa de 62 anos sendo chamada de 'mãe preta' pela família. A empregada doméstica foi submetida por 55 anos a um trabalho com condições análogas à escravidão. Ela foi resgatada em junho deste ano em um condomínio de luxo na cidade de Eusébio, na Grande Fortaleza. 

O Diário do Nordeste teve acesso à publicação feita no Facebook. Nela, a idosa aparece segurando um bebê e rodeada de duas meninas. “Nossa mãe Preta!”, diz o comentário, que é seguido por outros que falam sobre a aparência das meninas.

Conforme o Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o termo “vem do período em que as escravas negras amamentavam os filhos das mulheres brancas”.

“Para servirem às brancas, eram requisitos que as mucamas fossem bonitas e limpas. Dada a importância social da “mãe preta” e ao significado simbólico de sua figura”, explica ainda o texto do Cedem.

Segundo informações dos Auditores-Fiscais do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho (MPT), a mulher chegou à residência da primeira geração da família em 1971, quando tinha apenas sete anos. Desde então, passou a executar atividades domésticas, inicialmente ao lado de sua irmã.

QUEM SÃO OS PATRÕES DA IDOSA

Nayarah Alencar Brasil Magalhães é irmã de Zaamarah Brasil Andrade. As duas são filhas de Paulo Martins Brasil e Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil. Zaamarah e Tiago Andrade, casados entre si, são os mais recentes patrões da idosa e com quem ela mora atualmente.

Nesta quarta-feira (8), a Prefeitura de Fortaleza informou que Zaamarah, que é servidora municipal, será exonerada da Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP). Ela ocupava o cargo desde 1º de março de 2017.

Foi assinado por ela, e mais cinco parentes, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao MPT após as investigações.

Conforme o documento, obtido pelo Diário do Nordeste, os nomes dos investigados são:

  • Paulo Martins Brasil, aposentado;
  • Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil, aposentada;
  • Paulo Martins Brasil Filho, advogado;
  • Zaamarah Alencar Brasil Andrade, servidora pública;
  • Tiago Silva Andrade, veterinário;
  • Nayarah Alencar Brasil Magalhães, empregada pública.

‘QUANDO ELA PODE VOLTAR A TRABALHAR?’

Em entrevista ao Diário do Nordeste, a auditora-fiscal do Trabalho que participou da investigação, Maria Neuzeli Arantes, trouxe detalhes da interação com os empregadores investigados

Segundo ela, durante a abordagem, a família chegou a perguntar para os profissionais quando a vítima poderia voltar a trabalhar.

“Eu perguntei [aos patrões] por que pelo menos não pagavam um salário mínimo para ela, já que essa mulher não tinha final de semana. A empregadora disse: ‘porque ela não é empregada, ela é da família, ia se ofender se a gente tratasse ela como empregada’. Essa é a justificativa deles”, contou a profissional.

Família nega acusações

A família envolvida com a idosa, no entanto, nega as acusações sobre o trabalho em condições análogas à escravidão. 

Em nota à imprensa, a equipe de advogados responsáveis pelo caso aponta que as situações relatadas não retratam "a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas com a senhora envolvida".

Além disso, a família ressaltou que a idosa continua presente no ambiente do núcleo familiar, descrevendo a situação como incompatível com "conclusões simplificadas".

Confira abaixo o pronunciamento completo:

A defesa da família mencionada em reportagens divulgadas nesta semana, representada pelo escritório BFB Advogados Associados, informa que acompanha com serenidade e respeito a atuação dos órgãos públicos responsáveis pela apuração do caso.

A família nega com veemência as acusações divulgadas até o momento, que não retratam a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas com a senhora envolvida. Lamenta, ainda, que julgamentos precipitados tenham sido tornados públicos.

Ressalta-se que, em nenhum momento, houve resgate, uma vez que ela permanece convivendo com a família em uma relação que apresenta características pessoais e familiares incompatíveis com conclusões simplificadas.

Ao longo desse período de convivência, a senhora recebeu remuneração, usufruiu de férias regulares, contou com plano de saúde com cobertura médica e odontológica particular e teve suas contribuições previdenciárias regularmente recolhidas, encontrando-se, inclusive, em processo de aposentadoria.

Em respeito às instituições, a família firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com as autoridades, reafirmando sua disposição de colaborar integralmente com a apuração e de assegurar, desde já, todo o suporte, proteção e dignidade à senhora — que é, e sempre foi, a prioridade de todos.

A família acompanha as investigações e apresentará, nas instâncias competentes, todas as provas e documentos que demonstram que a realidade dessa relação é muito diferente do que foi divulgado, confiante de que a apuração técnica e imparcial permitirá a compreensão completa e equilibrada do caso.

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