Investigada por manter idosa trabalhando sem salário será exonerada de cargo público no CE

Mulher e outras cinco pessoas da família assinaram um TAC para indenizar a vítima após 55 anos de atividades domésticas.

Escrito por Alexia Vieira alexia.vieira@svm.com.br
08 de Julho de 2026 - 16:35 (Atualizado às 17:08)
capa da noticia
Legenda: Trabalhadora doméstica da família trabalhou por 55 anos sem contrato, salário ou descansos remunerados.
Foto: Cottonbro Studio/Pexels.

Zaamarah Alencar Brasil Andrade, uma das investigadas por manter uma idosa de 62 anos em trabalho análogo à escravidão no Eusébio, será exonerada do cargo que ocupava na Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP), vinculada à Prefeitura de Fortaleza.

De acordo com a pasta, o processo de exoneração da servidora foi iniciado na manhã desta quarta-feira (8). A mulher ocupava o cargo há nove anos, desde 1º de março de 2017.

Ela e outros cinco parentes assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT) após investigação constatar que a empregada doméstica da família trabalhou por 55 anos sem contrato, salário ou descansos remunerados. A vítima recebia apenas o benefício do Bolsa Família, sacado pela patroa.

Conforme o documento, obtido pelo Diário do Nordeste, os nomes dos investigados são:

  • Paulo Martins Brasil, aposentado;
  • Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil, aposentada;
  • Paulo Martins Brasil Filho, advogado;
  • Zaamarah Alencar Brasil Andrade, servidora pública;
  • Tiago Silva Andrade, veterinário;
  • Nayarah Alencar Brasil Magalhães, empregada pública.

Paulo Martins Brasil e Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil são casados. Os dois são pais de Paulo Filho, Zaamarah Brasil Andrade e Nayarah Alencar Magalhães. Zaamarah e Tiago Andrade, casados entre si, são os mais recentes patrões da idosa e com quem ela mora atualmente.

A idosa, que é negra e analfabeta, teria começado a morar e prestar trabalhos domésticos para a matriarca da família ainda nos anos 1970, quando tinha sete anos. Quando a filha da primeira empregadora casou, a vítima teria virado funcionária do novo casal. Desde 2014, estava trabalhando para a neta da matriarca, Zaamarah. 

Salários, férias, 13º salários, FGTS, verbas rescisórias e horas extras não pagos durante 55 anos de trabalho somam mais de R$ 1,5 milhão, conforme a auditoria fiscal do Trabalho. 

O TAC assinado pela família, no entanto, se refere apenas aos últimos empregadores e ao período de 2014 até 2026. 

O termo prevê a compra de um imóvel para a vítima no valor de no mínimo R$ 150 mil, totalmente mobiliado e equipado com eletrodomésticos essenciais, além do pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias e indenizatórias.

Além disso, a família se comprometeu a custear as contribuições previdenciárias da idosa até a obtenção da aposentadoria. O acordo estabelece, ainda, a aplicação de multa em caso de descumprimento de qualquer das obrigações assumidas pelos empregadores.

Família nega acusações

A família envolvida com a idosa, no entanto, nega as acusações sobre o trabalho em condições análogas à escravidão. 

Em nota à imprensa, a equipe de advogados responsáveis pelo caso aponta que as situações amplamente relatadas não retratam "a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas com a senhora envolvida".

Além disso, a família ainda ressaltou que a idosa continua presente no ambiente do núcleo familar, descrevendo a situação como incompatível com "conclusões simplificadas".

Confira abaixo o pronunciamento completo:

A defesa da família mencionada em reportagens divulgadas nesta semana, representada pelo escritório BFB Advogados Associados, informa que acompanha com serenidade e respeito a atuação dos órgãos públicos responsáveis pela apuração do caso.

A família nega com veemência as acusações divulgadas até o momento, que não retratam a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas com a senhora envolvida. Lamenta, ainda, que julgamentos precipitados tenham sido tornados públicos.

Ressalta-se que, em nenhum momento, houve resgate, uma vez que ela permanece convivendo com a família em uma relação que apresenta características pessoais e familiares incompatíveis com conclusões simplificadas.

Ao longo desse período de convivência, a senhora recebeu remuneração, usufruiu de férias regulares, contou com plano de saúde com cobertura médica e odontológica particular e teve suas contribuições previdenciárias regularmente recolhidas, encontrando-se, inclusive, em processo de aposentadoria.

Em respeito às instituições, a família firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com as autoridades, reafirmando sua disposição de colaborar integralmente com a apuração e de assegurar, desde já, todo o suporte, proteção e dignidade à senhora — que é, e sempre foi, a prioridade de todos.

A família acompanha as investigações e apresentará, nas instâncias competentes, todas as provas e documentos que demonstram que a realidade dessa relação é muito diferente do que foi divulgado, confiante de que a apuração técnica e imparcial permitirá a compreensão completa e equilibrada do caso.

Este conteúdo é útil para você?

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado

Colunistas