Após morte de aluna, colégio do CE nega omissão em relatos de bullying

Casos podem estar associados ao sofrimento emocional de crianças e adolescentes.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
28 de Julho de 2026 - 14:30
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Legenda: O Corpo de Bombeiros informa ainda que desenvolve ações permanentes de prevenção ao bullying.
Foto: Towfiqu barbhuiya/Pexels

A morte de um jovem interrompe projetos de vida e deixa marcas profundas nas famílias, amigos e comunidade escolar. Quando essa perda ocorre por suicídio, o luto costuma ser atravessado por dúvidas, sofrimento e pela busca de respostas para uma realidade que desafia explicações simples. 

"A gente não pode tentar responder a tudo isso exatamente para que essa responsabilização ou culpabilização, seja da família ou da escola, não aconteça", afirma a psicóloga Sarah Montezuma, que atua há oito anos com prevenção e posvenção do suicídio.

Segundo ela, embora fatores como bullying possam representar risco para o sofrimento psíquico, o comportamento suicida é multifatorial e não pode ser explicado por um único acontecimento.

A discussão ganha força após a morte de uma aluna do Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz (CMCB), no bairro Jacarecanga, em Fortaleza. Em nota, a instituição lamentou o falecimento, ocorrido em 23 de julho.

Além disso, manifestou solidariedade aos familiares e informou que adotou todas as medidas previstas em seus protocolos internos diante das demandas apresentadas pela estudante e por seus responsáveis. O Diário do Nordeste apurou que a garota sofria bullying de outros estudantes da unidade.

De acordo com a escola, a adolescente ingressou na escola no início do ano letivo de 2026, após aprovação em processo seletivo e matrícula realizada em dezembro de 2025.

O colégio informa ainda que, nos primeiros meses do ano, a família solicitou a transferência da estudante para o 3º Colégio da Polícia Militar, em Maracanaú, alegando dificuldades relacionadas ao deslocamento entre a residência e a unidade de ensino.

Segundo a nota, o pedido foi analisado pela assessoria jurídica da corporação, mas não pôde ser atendido em razão do Regimento Interno dos Colégios Militares Estaduais.

A norma estabelece que a transferência entre colégios militares estaduais somente pode ocorrer após o estudante concluir pelo menos um ano letivo na instituição de origem, além da existência de vaga na série e no turno desejados.

A reportagem tentou contato com a família da adolescente, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Especialista alerta para riscos de buscar explicações simplificadas

Colégio Militar do Corpo de Bombeiros diz afirma que dispõe de equipe de psicólogos responsável pelo acolhimento, escuta, orientação e acompanhamento dos estudantes.
Legenda: Colégio Militar do Corpo de Bombeiros diz afirma que dispõe de equipe de psicólogos responsável pelo acolhimento, escuta, orientação e acompanhamento dos estudantes.
Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros do Ceará

Para Sarah Montezuma, um dos principais cuidados após uma morte por suicídio é evitar a busca por uma causa única ou pela responsabilização de pessoas ou instituições.

Quando alguém morre por suicídio, surgem muitos questionamentos sobre o que foi feito ou deixou de ser feito. Esses sentimentos precisam ser acolhidos, mas a nossa responsabilidade é não tentar responder a tudo isso de forma simplificada.
Sarah Montezuma
Psicóloga 

A psicóloga destaca que a prevenção passa pelo reconhecimento de que o suicídio é resultado da interação de diversos fatores psicológicos, sociais e ambientais.

"Quando a gente fala de prevenção, a gente fala de muitas questões: transtornos mentais, sofrimento psicológico, violência sexual, bullying e outros fatores de risco", afirma a profissional.

Segundo ela, o bullying merece atenção especial por estar associado ao sofrimento emocional de crianças e adolescentes, mas não deve ser tratado como explicação isolada para uma morte.

"O bullying é um fator de risco importante, principalmente entre adolescentes. Mas a gente não pode estabelecer uma relação direta de causa e efeito. O mais importante é identificar o sofrimento o quanto antes e garantir acompanhamento adequado", ressalta.

Escola afirma que acompanhou situações

Em relação às alegações de bullying, o CMCB afirma que todas as situações formalmente comunicadas à instituição receberam o encaminhamento previsto pelos protocolos internos.

Segundo a direção, não há registros de solicitações que tenham ficado sem atendimento. A nota acrescenta que a equipe gestora, o setor pedagógico e os demais profissionais permaneceram à disposição da família para diálogo, acompanhamento e adoção das medidas cabíveis.

A instituição destaca que dispõe de equipe de psicólogos responsável pelo acolhimento, escuta, orientação e acompanhamento dos estudantes, além de promover campanhas sobre o uso consciente das redes sociais e dos ambientes digitais, incentivando a participação das famílias na vida escolar dos adolescentes.

Sarah Montezuma avalia que, além das ações pedagógicas, é essencial que estudantes com sinais de sofrimento psíquico recebam acompanhamento contínuo na rede de saúde.

"A escola e a família são fundamentais para identificar sinais de risco e fazer os encaminhamentos necessários. Mas esse adolescente precisa ter acompanhamento psicológico contínuo quando houver sofrimento importante", afirma.

Segundo a especialista, a prevenção depende da atuação integrada entre educação, saúde e assistência social.

A gente precisa levar informação durante todo o ano, não apenas no Setembro Amarelo. Falar de prevenção significa ensinar a identificar fatores de risco, fortalecer fatores de proteção e mostrar onde buscar ajuda
Sarah Montezuma
Psicológa

Como age o Conselho Estadual de Educação (CEE) em situação de violência escolar?

Ao Diário do Nordeste, o Conselho Estadual de Educação do Ceará (CEE) informou que pode ser acionado por pais, responsáveis e instituições de ensino, por meio do Portal Ceará Transparente/Ouvidoria, para analisar denúncias relacionadas a casos de violência escolar, incluindo situações de bullying, envolvendo escolas que integram o Sistema de Ensino do Estado.

Segundo o órgão, a atuação do Conselho não substitui a investigação realizada pela escola nem tem caráter policial ou judicial. A responsabilidade pela apuração inicial dos fatos, pela escuta dos envolvidos e pela adoção de medidas pedagógicas é da equipe gestora e pedagógica da instituição de ensino, em diálogo com estudantes e familiares.

Quando provocado, o CEE verifica se a escola adotou as providências previstas na legislação e em seu Regimento Escolar:

  • analisando documentos como registros de ocorrências;
  • comunicações às famílias;
  • medidas pedagógicas aplicadas e decisões dos órgãos colegiados.
  • Dependendo da situação, o Conselho também pode realizar visitas técnicas, reuniões com gestores e familiares, emitir orientações e encaminhar o caso a outros órgãos competentes.

"O CEE também orienta que as instituições mantenham programas permanentes de prevenção ao bullying e de promoção da cultura de paz, conforme prevê a Resolução CEE nº 514/2024, que institui diretrizes para Educação em Direitos Humanos, Justiça Restaurativa e mediação de conflitos nas escolas públicas e privadas do Sistema de Ensino do Estado do Ceará", afirma.

Nos casos em que houver indícios de ato infracional ou crime, a ocorrência poderá ser encaminhada ao Conselho Tutelar, Ministério Público, autoridades policiais ou ao Juizado da Infância e da Juventude, conforme a gravidade da situação.

Lei amplia obrigação das escolas em casos de automutilação e suicídio

Desde 2025, as escolas brasileiras passaram a ser obrigadas a comunicar aos conselhos tutelares casos de violência ocorridos no ambiente escolar, especialmente quando envolverem situações de automutilação, tentativas de suicídio e mortes por suicídio. A determinação está prevista na Lei Federal nº 15.231/2025.

Além da comunicação dos casos de violência, a legislação determina que os conselhos tutelares também sejam informados sobre estudantes que acumularem número de faltas superior a 30% do limite permitido pela legislação educacional.

Para Sarah Montezuma, esse trabalho articulado é essencial para reduzir novos casos."A prevenção não acontece apenas dentro da escola. Ela envolve postos de saúde, Caps, Cras, Creas, famílias e toda a rede de proteção. Quanto mais informação e acesso ao cuidado, maior a possibilidade de identificar o sofrimento antes que ele evolua".

Onde buscar ajuda no Ceará

Pessoas em sofrimento emocional ou com pensamentos suicidas podem procurar atendimento gratuito na rede pública de saúde.

Centros de Atenção Psicossocial (Caps): presentes em Fortaleza e em diversos municípios cearenses, oferecem acompanhamento psicológico e psiquiátrico pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso pode ocorrer por encaminhamento da Unidade Básica de Saúde (UBS) ou conforme o fluxo adotado pelo município.

Unidades Básicas de Saúde (UBSs): são a principal porta de entrada da Rede de Atenção Psicossocial e podem realizar acolhimento, avaliação e encaminhamento para atendimento especializado.

Situações de urgência: em caso de risco imediato, procure uma UPA 24 horas, um hospital de emergência ou acione o Samu pelo telefone 192.

Centro de Valorização da Vida (CVV): atendimento gratuito e sigiloso 24 horas pelo telefone 188 ou pelo site http://www.cvv.org.br.

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