Bullying: quando nossos monstros aterrorizam os outros

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Violência nunca deve ser banalizada, e tanto quem pratica quanto sofre necessita de cuidados.
Foto: Hryshchyshen Serhii/Shutterstock.

A agressividade nos habita. Todos já sentimos o poder da destrutividade que tantas vezes nos invade. Surge feito força descomunal invade músculos, palavras e elege como alvo conhecidos, amores e desconhecidos. O outro nos desafia e nos confronta com enigmas sobre nós e sobre os limites do que podemos desejar com um outro. O bullying expõe nossos monstros, que saem para aterrorizar os outros e assim, atenuar as dores que nos assolam, de forma caótica e cruel. Aquilo que não consigo lidar internamente, transforma-se em alvo nos outros.

Dificuldades nas relações, na prática da empatia, uso da intimidação, desejo de controle, domínio, prazer em subjugar e em causar danos, possuem implicações individuais e coletivas. 

Como eu reajo ao que gostaria de ter e ser e não consigo? Como eu fujo das minhas experiências dolorosas e projeto sobre os outros as minhas coisas horríveis?

Sujeitos impulsivos, que podem desejar pertencer a um grupo que possui na violência a sua identidade, que buscam aceitação e que geralmente agem diferente quando estão sozinhos (pois em grupo encontram apoio, seja sob a forma de risadas ou ajuda para os atos agressivos) geralmente pertencem a famílias autoritárias, violentas, onde existe exposição à violência e pouco diálogo.

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O bullying é uma denúncia do movimento das relações na sociedade. Como lidamos uns com os outros? Como resolvemos conflitos? Como ensinamos crianças e adolescentes a lidarem com emoções complexas? Como lidamos com as diferenças?

É imprescindível o envolvimento da família, da comunidade escolar, do entorno, dos movimentos sociais, dos coletivos, das universidades, dos equipamentos de saúde, arte, esporte, assistência social, agências de comunicação para auxiliar tanto na denúncia quanto na construção de projetos que possam ampliar a a capacidade de pensar, elaborar e encontrar outras formas de resolução de conflitos e expressão de emoções. 

Como se discute temas como racismo, machismo, capacitismo, etarismo? Como as escolas realizam atividades coletivas? Existem atividades extracurriculares, atividades de voluntariado? Qual o clima e cultura organizacional da instituição? Como se dão as relações? Os apelidos são utilizados para diminuir, machucar o outro? Existem atividades de debates e expressão de ideias e emoções? Clubes de leitura, teatro? Existem protocolos sobre o que fazer em casos de violência? Existe articulação intersetorial com o território? 

A violência silencia, adoece, apaga, desvincula, entristece, mina a esperança e o sonho. A violência perdura no tempo dentro de um sujeito, passa a ser incorporada à identidade e à existência. O ego do sujeito pode se identificar com o objeto depreciado que dizem que ele é, e assim, alimentar um olhar sobre si de ataque, desamor e auto violência, pois pode passar a se considerar merecedor dos ataques e assim, ficar no lugar e se tornar o objeto depreciado que os outros dizem ser.

Quem pratica bullying pode ter baixa autoestima, poucas habilidades emocionais, e a expressão violenta pode sinalizar um pedido de ajuda em relação à própria violência vivida.

Violência nunca deve ser banalizada, e tanto quem pratica quanto sofre necessita de cuidados. Quando o contexto cultural incentiva o domínio, autoriza o ódio, fortalece posturas narcísicas, empobrece a capacidade de pensar e sentir, fragiliza projetos coletivos, diminui o convívio com as diferenças, potencializa racismo, homofobia, machismo, criamos um solo fértil para expressarmos o júbilo, com o sofrimento alheio e não percebemos quão adoecida está uma sociedade que aplaude o escárnio. 

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.