O Ceará já farmava aura antes da internet
Juazeiro do Norte realizou o segundo evento de 'farmação' da cidade, que teria sido pioneira no país.
Tenho visto aqui e ali certa dificuldade em entender a expressão "farmar aura". Nesta breve crônica, tento colaborar para o debate lembrando que quem é cearense pode entender seu significado sem tanto esforço.
Para começar, que tal lembrar alguns dos nossos verbos mais chegados: arremedar, caçoar e mangar? Todos são sinônimos de zombar.
Farmar aura vem dessa ação humana de imitar alguém, gestos, personagens e se permitir fazer rir, ou seja, rir dos outros, o que, às vezes, pode ser cruel, ganhando o nome de bullying - um problema nas escolas -, mas também é preciso reconhecer que pode ser saudável quando se ri de si mesmo e entre amigos, dando leveza ao viver.
Desde criança, no recreio, nas brincadeiras com irmãos e primos, todo cearense aprende a mangar, a tirar onda; os mais extrovertidos, dão um passo além: fazem careta, marmota, muganga.
Está aí, à luz da cearensidade, um possível significado de farmar aura. Mas a expressão traz outro componente cultural, que também não é novidade. É um fenômeno que abrange o país todo e foi atualizado.
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Há pelo menos meio século, nós brasileiros, por meio da TV, de jogos eletrônicos e agora também nas redes sociais, temos sido capturados, ainda crianças e adolescentes, por personagens de seriados asiáticos: primeiro os japoneses, depois os coreanos e, mais recentemente, os chineses, vide a comoção provocada, dias atrás, pela morte do ator que interpretou Jaspion.
Quem aí, na casa dos 40 anos, não se lembra de ter dado um pinote, uma bunda-canastra e até deslocado um braço tentando imitar o Jaspion, Changeman ou Ninja Jiraiya?
Todas as gerações subsequentes foram tendo os seus personagens favoritos. E a atual, que também cresce mergulhada nessa cultura asiático-brasileira, trouxe desse universo o verbo "farmar", sinônimo de acumular pontos, passar de nível, e aura, entendida como carisma, charme, presença.
Na semana passada, Juazeiro do Norte realizou o segundo evento de "farmação de aura" da cidade, que teria sido pioneira no país.
Como eu havia perdido a estreia, em 12 de junho, na Praça Feijó de Sá, mais conhecida como Giradouro ou Praça do Triângulo Crajubar, corri às pressas para o pátio do Ginásio Poliesportivo logo que soube em mensagem desafiadora da jornalista Yaçanã Neponucena, filha do amado Sertão do Araripe, terra do meu pai e de Luiz Gonzaga:
"Duvido você ir lá fazer aquela pose de influenciador sorrindo de boca aberta para exprimir felicidade nas redes sociais, vai farmar aura na hora."
Desta vez, o encontro aconteceu com autorização da Prefeitura; havia troféu e pagamento em dinheiro. O que começou como uma reunião espontânea de jovens numa praça pública já dava sinais de institucionalização. Conversei com o influenciador Corre Jhow, idealizador do evento, já conhecido como "patriarca da aura", em clara referência ao padre Cícero Romão Batista:
— Farmar é uma gíria gamer. Significa acumular, elevar. Aura seria o que antigamente a gente dizia quando alguém mitava. Então, farmar aura é ter carisma, ter presença.
Posicionados no centro de uma espécie de arena, os competidores reproduziam poses de personagens, cambalhotas, caretas, a dancinha Six Seven (cuja origem seria norte-americana, mas que também não passa de muganga) e outros gestos claramente inventados na hora.
Havia um apresentador ao microfone, uma jovem que levantava a cada duelo no estilo do boxe e ainda jurados, que levantavam as suas placas com notas. A plateia estava lá, atenta e participativa, rindo das brincadeiras, tirando onda com os competidores.
E há uma característica própria: no meio da arena, enquanto os farmadores de aura competiam, influenciadores e curiosos faziam os seus vídeos.
Na conversa com o Patriarca da Aura, ele respondeu às críticas à farmação:
— Muitas pessoas criticam o evento, mas é uma brincadeira que já entrou na cultura geek. Teve no Sana. É o mesmo público do anime e do cosplay. As pessoas precisam pesquisar mais, não só criticar.
Entre os competidores, estava o barbeiro e influenciador Nublado, também conhecido nas redes sociais como Gordinho da Aura. Campeão da primeira edição, aquela realizada no Dia dos Namorados, desta vez terminou em segundo lugar. Ao passar o título, deixou um conselho que resume um princípio da disputa:
— É importante que essa pessoa leve na esportiva, para todo mundo conseguir brincar, se divertir e dar engajamento.
Engajar, nesse caso, ultrapassa curtidas ou visualizações nas redes. Significa trazer gente para a praça, para farmar aura. Seria o evento uma maneira que a geração encontrou de fugir das telas e voltar às calçadas, à brincadeira na rua com os amigos?
O momento mais curioso, porém, veio com o campeão. O professor de skate e influenciador Switch conquistou o troféu em decisão do júri respaldada pela plateia. Imaginei encontrar alguém dedicado, estudioso do ato de farmar aura. Ouvi o contrário:
— Descobri hoje o que é farmar aura. Vi o pessoal fazendo dancinha. E descobri hoje que é ter presença. Eu tenho presença!
Realmente, a palavra não inventa a coisa, apenas lhe dá nome. Farmar aura não criou a capacidade de transformar uma pose, uma careta ou uma marmota em espetáculo. Apenas batizou o que nós cearenses já fazíamos, neste torrão onde o bom humor é tão levado a sério que produzimos gênios como Chico Anysio.
No fim das contas, a internet traduziu para a linguagem da geração Z aquilo que o Ceará pratica desde sempre. Antes de existir o meme, já existia a marmotice. Antes de existir engajamento, já existia a roda de amigos, o recreio, a calçada.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.