Criança que sofria bullying em escola de Fortaleza tinha medo de voltar às aulas, diz mãe

Pais só descobriram a situação durante as férias escolares de julho.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
30 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Aluna passou o primeiro semestre de 2026 no colégio, mas nunca contou aos pais sobre possíveis agressões.
Foto: Jessica Olivella/Pexels.

A mãe da criança de 11 anos que morreu na última semana e estudava no Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz (CMCB), em Fortaleza, afirmou ao Diário do Nordeste que a filha demonstrava medo de voltar às aulas após relatar episódios de bullying dentro da escola.

Segundo a família, a jovem chegou a pedir para deixar a instituição, enquanto os pais solicitaram a transferência da estudante e cobraram providências da direção.

Para preservar a identidade da criança e seguir diretrizes de cobertura responsável sobre suicídio, o Diário do Nordeste opta por não divulgar os nomes da vítima e de seus familiares.

Em nota divulgada na segunda-feira (28), o CMCB informou que lamenta a morte da estudante, prestou solidariedade à família e afirmou que adotou todas as medidas previstas em protocolos internos diante das demandas apresentadas pela adolescente e por seus responsáveis.

A instituição também informou que o pedido de transferência feito pela família, no início de 2026, foi motivado por questões logísticas, relacionadas ao deslocamento entre Maracanaú e Fortaleza.

Conforme a escola, a solicitação não pôde ser atendida porque o Regimento Interno dos Colégios Militares Estaduais exige que o estudante conclua pelo menos um ano letivo antes de uma transferência entre unidades militares.

Ainda segundo o Corpo de Bombeiros, a família foi orientada de que poderia solicitar vaga em outra escola pública ou privada do município onde reside.

Já os pais afirmam que, depois de descobrirem os relatos de violência sofridos pela filha, voltaram a procurar a escola para pedir uma nova transferência.

"Quando realmente descobrimos tudo o que ela estava passando, voltamos lá novamente. Eu disse: 'Por favor, transfiram minha filha porque está acontecendo isso, isso, isso'. A resposta foi que não podiam fazer nada em relação à transferência, mas que resolveriam a questão do bullying", afirmou a mãe.

Medo da volta às aulas

De acordo com a mãe, a aproximação do retorno das atividades escolares deixou a filha apreensiva. "A gente estava organizando a compra do novo fardamento para a volta às aulas. Foi quando ela começou a ficar desesperada", relembra.

A mãe afirma que, à época, não imaginava a dimensão do sofrimento vivido pela garota. "Muita gente pergunta por que eu não tirei minha filha da escola. Se eu soubesse o que ia acontecer, eu teria tirado. Mas eu não sabia", lamenta. 

Família diz que adolescente escondia agressões

A mãe da menina contou que, antes de revelar o que acontecia na escola, a adolescente costumava justificar hematomas dizendo que havia sofrido quedas durante atividades esportivas.

"Ela chegava em casa com manchas roxas no corpo. Eu perguntava o que tinha acontecido e ela dizia: 'Foi correndo na quadra, eu caí'. Mas eu dizia: 'Filha, você está mentindo. Me diga a verdade'".
Mãe de criança

A situação só veio à tona, segundo a família, quando a adolescente decidiu conversar com a irmã mais velha. "Ela chegou para a irmã e contou tudo. Acho que ela já não aguentava mais. A irmã veio falar comigo e relatou tudo. Na mesma hora eu peguei o carro e fui para a escola".

Os pais afirmam que, após a conversa com a direção, aguardavam um retorno sobre as providências que seriam adotadas. "Eles disseram que chamariam os pais das crianças envolvidas, mas eu nunca tive nenhum retorno".

Especialista alerta para importância da prevenção

Para a psicóloga Sarah Montezuma, casos como esse exigem responsabilidade e não podem ser tratados a partir da busca por um único culpado.

A gente não pode tentar responder a tudo isso exatamente para que essa responsabilização ou culpabilização, seja da família ou da escola, não aconteça. A nossa responsabilidade, enquanto sociedade, é fortalecer o movimento de prevenção
Sarah Montezuma
Psicóloga

Segundo ela, o bullying representa um importante fator de risco para adolescentes, mas não deve ser tratado como causa única de uma morte.

"O suicídio é multifatorial. A gente fala sobre transtornos mentais, sofrimento psicológico, violência sexual e bullying. O bullying é um fator de risco importante, principalmente entre adolescentes, mas não se pode estabelecer uma relação direta de causa e efeito".

Olhar pelos sinais de sofrimento

A especialista afirma que as escolas precisam estar preparadas para reconhecer sinais de sofrimento emocional e encaminhar os estudantes para acompanhamento especializado quando necessário.

"A gente precisa olhar para o que ficou. Muitas vezes, o que fica é uma visão distorcida da própria vida, uma falta de significado, questões relacionadas ao corpo e à autoestima. Tudo isso pode trazer à tona um pensamento suicida".

Para Sarah Montezuma, ampliar o acesso à informação é uma das formas mais importantes de evitar novos casos.

"O importante para a nossa sociedade não é descobrir de quem foi a culpa. O importante é entender que isso pode ser prevenido e que as pessoas tenham cada vez mais acesso às informações de prevenção. Quando a gente fala sobre suicídio de forma responsável, a gente abre espaço para que esse sofrimento seja validado e para que outras vidas possam ser protegidas".

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