Família fez dois pedidos de transferência escolar antes de criança morrer em Maracanaú

Pais só descobriram relatos de bullying durante as férias escolares.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
29 de Julho de 2026 - 15:00
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Legenda: Criança relatou para irmã mais velha que sofria violência escolar.
Foto: New Africa/Shutterstock/Ilustração

A família da estudante de 11 anos que morreu na última semana após relatar episódios de bullying no Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz (CMCB), em Fortaleza, afirma que tentou retirar a filha da unidade antes da tragédia.

Segundo os pais, o primeiro pedido de transferência foi feito por questões de logística, mas, após descobrirem os relatos de agressões que seriam praticados por outros estudantes, voltaram à direção para solicitar uma nova mudança de escola.

Para preservar a identidade da criança e seguir diretrizes de cobertura responsável sobre suicídio, o Diário do Nordeste opta por não divulgar os nomes da vítima e de seus familiares.

Conforme a família, a transferência foi negada em razão das normas da instituição, enquanto a direção informou que adotaria medidas para enfrentar os casos de bullying.

Em nota, o Colégio Militar do Corpo de Bombeiros informou que o pedido inicial de transferência realmente foi apresentado por questões de deslocamento e não pôde ser atendido porque o Regimento Interno dos Colégios Militares Estaduais determina que o estudante conclua pelo menos um ano letivo antes de solicitar transferência entre unidades militares.

Segundo a família, a estudante permaneceu cerca de seis meses na unidade de ensino.

A corporação afirmou ainda que prestou acolhimento à estudante, acompanhou as demandas apresentadas pela família e adotou as medidas previstas em seus protocolos internos.

A mãe da criança contou que o primeiro pedido foi motivado apenas pela rotina da família, sem que ela soubesse dos episódios vividos pela filha na escola.

Fui atrás da transferência dela logo no início por conta realmente da logística. Eu não sabia o que estava acontecendo com a minha filha
Mãe de criança

Segundo a mãe, a situação mudou quando a filha decidiu contar à irmã o que vinha enfrentando na escola, durante as férias de julho. A partir desse momento, a família retornou imediatamente ao colégio.

"Quando a gente realmente descobriu tudo o que a minha filha estava passando, voltamos lá novamente na escola. Eles escutaram minha filha e eu disse: 'Por favor, transfiram minha filha porque está acontecendo isso, isso, isso e isso'".

De acordo com a mãe, a direção informou que a transferência não poderia ser autorizada, mas garantiu que adotaria providências em relação aos episódios de bullying.

Pais ainda aguardam retorno sobre ações de escola

Desde a  morte da criança, a família aguarda informações sobre as medidas prometidas pela escola. "Eles disseram que iam chamar os pais das crianças que estavam fazendo isso [bullying] e eu não tive nenhum retorno", explica a mãe.

Ela afirma que também não foi informada sobre eventuais providências adotadas pela instituição. "Cadê o retorno? Cadê os pais que eles disseram que chamariam? Eu nunca tive".

Adolescente escondia o que acontecia

A mãe conta que, antes de revelar o que enfrentava no ambiente escolar, a filha escondia da família os episódios de violência.

Segundo ela, quando chegava em casa com hematomas, dizia que havia sofrido quedas durante atividades esportivas. "Ela chegava em casa com manchas roxas no corpo. Eu perguntava o que tinha acontecido e ela dizia que tinha caído correndo na quadra. Eu dizia: 'Você está mentindo. Me diga a verdade'".

A situação só veio à tona quando a adolescente procurou a irmã mais velha. "Ela chegou para a irmã e falou tudo. Acho que ela já não aguentava mais. A irmã veio falar comigo e contou tudo o que a mais nova tinha relatado. Na mesma hora eu peguei o carro e fui para a escola".

O que diz o Corpo de Bombeiros

Na nota enviada ao Diário do Nordeste, o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará informou que todas as situações formalmente comunicadas pela estudante e por seus responsáveis receberam o tratamento previsto pelos protocolos internos da instituição.

Apesar dos pais terem procurado a escola durante as férias escolares de julho, segundo a corporação, foram realizados acolhimento, acompanhamento psicopedagógico e adoção das providências administrativas cabíveis. A instituição também informou que mantém ações permanentes de prevenção ao bullying, promoção da cultura de paz e fortalecimento da saúde emocional dos estudantes.

Sobre a transferência, o CMCB reiterou que a legislação interna impede a mudança entre colégios militares antes da conclusão de um ano letivo, motivo pelo qual orientou a família sobre outras possibilidades de matrícula na rede pública ou privada.

A corporação lamentou a morte da estudante, prestou solidariedade aos familiares e informou que permanece à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.

Especialista alerta para importância da prevenção

Para a psicóloga Sarah Montezuma, que atua há oito anos com prevenção e posvenção do suicídio, casos como esse exigem responsabilidade e não podem ser tratados a partir da busca por um único culpado.

A gente não pode tentar responder a tudo isso exatamente para que essa responsabilização ou culpabilização, seja da família ou da escola, não aconteça. A nossa responsabilidade, enquanto sociedade, é fortalecer o movimento de prevenção
Sara Montezuma
Psicóloga

Segundo ela, o bullying representa um importante fator de risco para adolescentes, mas não deve ser tratado como causa única de uma morte. "O suicídio é multifatorial. A gente fala sobre transtornos mentais, sofrimento psicológico, violência sexual e bullying. O bullying é um fator de risco importante, principalmente entre adolescentes, mas não se pode estabelecer uma relação direta de causa e efeito".

Onde buscar ajuda no Ceará

Pessoas em sofrimento emocional ou com pensamentos suicidas podem procurar atendimento gratuito na rede pública de saúde.

  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps): presentes em Fortaleza e em diversos municípios cearenses, oferecem acompanhamento psicológico e psiquiátrico pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso pode ocorrer por encaminhamento da Unidade Básica de Saúde (UBS) ou conforme o fluxo adotado pelo município.
  • Unidades Básicas de Saúde (UBSs): são a principal porta de entrada da Rede de Atenção Psicossocial e podem realizar acolhimento, avaliação e encaminhamento para atendimento especializado.
  • Situações de urgência: em caso de risco imediato, procure uma UPA 24 horas, um hospital de emergência ou acione o Samu pelo telefone 192.
  • Centro de Valorização da Vida (CVV): atendimento gratuito e sigiloso 24 horas pelo telefone 188 ou pelo site http://www.cvv.org.br.
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