A intolerância do homem cordial

Racismo religioso, educação e o legado de Hilário Ferreira Sobrinho.

Escrito por
P. A. Damasceno ceara@svm.com.br
Legenda: Kátia Galvão, coordenadora do CEI, disse que ações fazem parte da educação antirracista promovida pela rede de ensino.
Foto: Arquivo Pessoal.

Uma escola de educação infantil, em uma das áreas mais carentes de Fortaleza, foi alvo da ação de um vereador que denunciava a situação do lugar. Mas a denúncia não era sobre melhoria da estrutura física, melhores condições de trabalho para professoras e professores, sobre a qualidade da merenda escolar ou qualquer uma das muitas necessidades cotidianas da educação brasileira.

O político vociferava contra uma atividade pedagógica, uma leitura de contos, mas a denúncia era grave: doutrinação religiosa na escola.

Veja também

As crianças foram levadas a abjurar sua fé? Não há registro. Participaram de atos de culto e adoração a deuses que não os de seus pais? Não há registro. Houve batizados, pregações estridentes, exorcismos ou aclamações por conversão? Também não.

Sim, houve apresentação de cânticos e danças ligadas ao sagrado das religiões de matriz africana, mas, até onde está posto, apenas se expôs que há um Brasil de crenças africanas que existem e resistem.

Então, qual era a doutrinação?

Fazer saber que a fé do outro existe e deve ser respeitada.

 A radiografia desse vídeo e a delicadeza do tema nos convocam a pensar para além dos imediatismos digitais e compreender que ele não é um fenômeno do agora, mas um eco que diz muito sobre nós, o Brasil e os brasileiros.

A invasão ao CEI Cesar Cals, a intolerância e o ódio que tomaram as redes sociais ocorreram no mesmo mês em que perdemos o professor José Hilário Ferreira Sobrinho. A coincidência temporal entre os dois acontecimentos parece quase simbólica. 

Enquanto um episódio revelava a permanência da intolerância, o outro nos lembrava da ausência de quem dedicou a vida a combatê-la por meio da educação. A proximidade dos eventos tornou ainda mais visível a importância de Hilário e o vazio que sua partida deixou.

Ensinar as Áfricas, os Brasis e os outros possíveis

Quando a Lei 10.639 foi aprovada, em 2003, eu estava recém-ingresso na Universidade Estadual do Ceará (UECE). A determinação da obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas abriu-se para muitos de nós como uma conquista e, ao mesmo tempo, uma preocupação.

Como tantas vezes acontece em nosso país, a legislação chegou antes da preparação. As escolas receberam uma nova responsabilidade, mas as universidades ainda não formavam professores para enfrentá-la plenamente, nem no domínio dos conteúdos nem nas disputas sociais que esse ensino inevitavelmente mobilizaria.

A lei representava um avanço necessário; a formação docente, porém, ainda corria para alcançá-la.

Foi nesse cenário que um grupo de amigos ueceanos "criamos" o grupo ‘História em Movimento’ para promover debates e eventos. Organizamos então o evento “África, Áfricas: I Semana de Africanidades da UECE”. A iniciativa buscava preencher, ainda que parcialmente, os silêncios deixados pela formação tradicional. 

Durante aqueles dias de debates, palestras e descobertas, tive contato pela primeira vez com o trabalho do professor Hilário. Entre reflexões sobre história, identidade e educação, conheci um pesquisador que não apenas estudava a temática, mas a transformava em compromisso intelectual e humano, deixando uma marca duradoura em toda uma geração de estudantes.  

Foi ali que percebi que a ausência de compreensão da africanidade brasileira não era apenas um vazio formativo. Era também o resultado de um projeto de poder que escolheu o que deveria ser lembrado e o que deveria ser esquecido, condenado, combatido.

Das intolerâncias do homem cordial 

Há algo curioso — e ao mesmo tempo preocupante — sobre a história brasileira: fomos ensinados durante muito tempo a celebrar a mistura, a cordialidade e a convivência pacífica como características nacionais. A imagem de um Brasil harmonioso, fruto da miscigenação, foi repetida em livros, discursos e imaginários coletivos

Sergio Buarque de Holanda definiu o brasileiro como um “homem cordial”. A expressão foi muitas vezes interpretada como sinônimo de gentileza, mas é sobre quem submete a esfera pública às suas relações privadas, que trata o espaço coletivo como extensão da própria casa.

O homem cordial não é um homem gentil, é o sujeito que acredita ter autoridade para invadir fronteiras institucionais, interferir em decisões pedagógicas e determinar o que professores podem ou não ensinar.

O professor Hilário era um homem gentil. O vereador é o típico homem cordial. Considera-se sensato e defensor do bem comum enquanto reproduz intolerâncias e violências travestidas de preocupação moral.

Do racismo religioso

A intolerância religiosa não surge do nada. Ela possui história. Durante séculos, práticas religiosas de matriz africana foram perseguidas, criminalizadas e associadas à marginalidade. Terreiros foram invadidos, objetos sagrados apreendidos e saberes ancestrais tratados como superstição.

O problema é que passados mal resolvidos raramente permanecem no passado. Eles reaparecem em novas linguagens e novos contextos. Quando alguém se escandaliza ao descobrir que existem religiões africanas ou considera ofensivo o simples fato de elas serem apresentadas em uma escola, estamos diante da permanência dessa herança.

A intolerância dificilmente nasce do conhecimento. Ela costuma florescer justamente onde faltam informação, convivência e reconhecimento do outro.

É nesse ponto que a educação deixa de ser apenas conteúdo curricular para se tornar instrumento de cidadania.

Mudanças importantes ocorreram nas últimas décadas, mas leis, sozinhas, não alteram imaginários. Educar não é apenas transmitir informação. É ampliar repertórios, produzir encontros e desenvolver a capacidade de reconhecer o outro como sujeito histórico.

Talvez um dos maiores desafios da educação brasileira não seja apenas ensinar conteúdos, mas romper heranças de silêncio. Porque preconceitos sobrevivem quando histórias são apagadas. E sociedades democráticas dependem justamente do contrário: da capacidade de escutar vozes que durante muito tempo foram impedidas de falar.

Excesso de intolerantes, ausências de Hilários

O ódio avança quando instituições deixam de cumprir seus próprios limites. Quando autoridades confundem fiscalização com intimidação. Quando parte da sociedade aplaude quem grita e hostiliza, mas desconfia de quem ensina, dialoga e conta histórias.

É triste constatar como é fácil desmontar a imagem do Brasil dócil e acolhedor. Basta um vídeo. Sob o verniz da cordialidade convivem preconceitos antigos que insistimos em não enfrentar.

O ataque ao CEI Cesar Cals não pode ser tratado como apenas mais um episódio passageiro das redes sociais. Trata-se de um alerta. Democracias dependem da existência do outro, da diferença e exigem limites claros contra a intolerância.

Se há algo que a trajetória do professor Hilário Ferreira nos ensinou, é que educação não é apenas transmissão de conhecimento. É também a construção cotidiana das condições para que diferentes histórias, crenças e identidades possam existir em comum.

E essa continua sendo uma das tarefas mais urgentes do Brasil.

Para escrever esse artigo, pedi auxílio ao coletivo Fortaleza Negra, do qual fazia parte o professor Hilário. Aprendi com Ailton Krenak: quer mudar suas aulas, não fale por nós, deixe nossa voz chegar onde puder levar. Assim segue a nota do Coletivo Fortaleza Negra sobre o ocorrido na escola fortalezense:

O Fortaleza Negra vem a público manifestar solidariedade à professora responsável pela atividade, à gestão escolar e a todo o corpo docente da CEI César Carlos, que sofreram intimidação por parte de um suplente de vereador sob a justificativa de uma suposta “fiscalização”.

É importante lembrar que a professora estava exercendo sua função e cumprindo a Lei 10.639/2003, que existe há mais de 20 anos no Brasil e determina o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. As religiões de matriz africana fazem parte dessa história, dessa cultura e da trajetória do povo negro brasileiro. Contar a história do povo negro é também contar a história das religiões de matriz africana e afro-brasileira.

Isso não significa, em nenhum momento, tentativa de converter crianças ou adolescentes a qualquer religião. Significa reconhecer historicamente a formação do povo brasileiro e cumprir uma legislação que deve estar presente nas escolas. Criminalizar ou atacar uma prática pedagógica amparada pela lei é racismo religioso. E é justamente por isso que a implementação da Lei 10.639 é tão importante: porque o conhecimento também é ferramenta para combater o racismo dentro e fora da escola.

A comunidade escolar e os agentes políticos precisam entender a importância dessa lei e do papel da educação na construção de uma sociedade menos racista.

Também é importante lembrar que o ensino religioso cristão sempre esteve presente neste país desde a colonização. O Brasil foi fundado sob a catequização cristã, e até hoje vemos símbolos e práticas cristãs ocupando espaços públicos e instituições. No entanto, diante disso, não vemos esse mesmo vereador fazendo fiscalização ou questionamento.

Sempre que a extrema-direita avança, tenta esvaziar as pautas negras e impedir que o povo negro se reconheça como sujeito político e protagonista da própria história. Se existisse, de fato, preocupação com a educação pública, esse mesmo vereador estaria fiscalizando os casos de racismo dentro das escolas, a perseguição contra professores, a precarização do ensino e a falta de merenda de qualidade.

A extrema-direita defende uma educação que não forme estudantes críticos, justamente para manter uma lógica neoliberal, branca e excludente. Já as religiões de matriz africana pensam a sociedade a partir de outra lógica: circular, ancestral, coletiva e comunitária. Uma forma de organização social que a extrema-direita não compreende e não aceita.

Por isso, o Fortaleza Negra reafirma a defesa da educação antirracista, do ensino da história africana e afro-brasileira e do povo negro no Ceará. Também defendemos a responsabilização desse suplente de vereador, que utilizou seu mandato para pressionar docentes e a gestão escolar sem qualquer respaldo.

É impossível não perceber a contradição desses políticos que surfam nas igrejas evangélicas, transformam púlpito em palanque eleitoral e usam o nome de Deus para conseguir votos, mas silenciam diante do racismo religioso e da violência contra o nosso povo. São os mesmos que levantam bandeiras de Israel enquanto um Estado genocida segue matando crianças e adolescentes palestinos. Respeito à vida e à diversidade religiosa não pode existir só quando convém politicamente. Seguiremos, enquanto movimento negro de Fortaleza e do Ceará, fortalecendo uma perspectiva circular, ancestral e coletiva, como aprendemos nos terreiros e nas formas de organização do nosso povo. E seguiremos lutando para que pessoas negras ocupem todos os espaços de poder, porque, enquanto o povo negro não ocupar plenamente esses espaços, situações como essa continuarão acontecendo.

O Fortaleza Negra acredita na educação, na cultura e na ocupação de todos os espaços de poder pelo povo negro.

Coletivo Fortaleza Negra

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

Assuntos Relacionados