“Tia, tem médico negro?”. O questionamento foi feito à professora em uma sala de aula com 33 crianças, de idade entre 10 e 12 anos, em uma escola pública no Jangurussu, periferia de Fortaleza. Lá é também o bairro mais populoso da cidade, com 70,6 mil habitantes. A pergunta feita em um dia comum da rotina escolar, no início do semestre de 2025, em uma turma do 5º ano do ensino fundamental, mobilizou alunos e professores e marcou o início de uma trajetória de produção científica na escola, mirando a própria realidade.

Se no imaginário geral, a imagem de cientista ainda é associada a pessoas de jaleco branco com tubos de ensaios na mão em ambientes de laboratórios, em unidades escolares da periferia de Fortaleza, essa concepção do que é ser um pesquisador e produzir ciência, está mudando. Uma delas é a Escola Professor Asthon Guilherme da Silva, unidade de tempo regular, no Jangurussu, situada nas proximidades do Conjunto Habitacional José Euclides, um dos maiores da Capital, com 13 mil habitantes.  

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Legenda: Alunos Laura Martins e Rodrigo Sabino e professores Bruna Ferreira e Breno Flor
Foto: Thiago Gadelha

“Sabe aquela pergunta: ‘Professora, uma pessoa negra pode ser médica? Pode ser cientista?’ Sim, pode. Nós dois somos cientistas e estamos mostrando nosso trabalho para que mais pessoas conheçam o que fazemos”, diz, orgulhoso, Rodrigo Sabino, de 12 anos, aluno do 6º ano da unidade. Em entrevista ao Diário do Nordeste na própria escola, ele menciona a colega de sala Laura Martins, de 11 anos, e faz referência à parceria que os dois construíram na iniciação científica desde 2025. 

Negras e moradoras da periferia de Fortaleza, as duas crianças têm sido escolhidas por professores e por outros alunos para representar a turma em eventos científicos realizados fora da escola desde o ano passado. Juntos apresentaram, por exemplo, na Feira Municipal de Ciências e Cultura de Fortaleza em 2025, promovida pela Prefeitura, a primeira pesquisa científica desenvolvida coletivamente pela classe formada por crianças do ensino fundamental. 

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O Diário do Nordeste publica, em 2026, a quinta edição do projeto Terra de Sabidos, que neste ano, tem como foco a produção científica nas escolas públicas do Ceará. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior, como Ocara, Pedra Branca e Iracema, e apresenta iniciativas e projetos de pesquisa desenvolvidos por jovens e professores orientadores que contribuem para a produção do conhecimento e para a resolução de problemas nas mais diversas áreas da ciência, ainda no ensino fundamental e médio.

Na unidade, para os anos iniciais dessa etapa escolar, a feira de ciências da própria instituição é o primeiro contato com a pesquisa. É, inclusive, na definição dos temas a serem trabalhados nesse processo que surgem ideias mobilizadoras do reconhecimento das próprias histórias de vida. 

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Investigar a própria história e a comunidade

Na turma de Rodrigo e Laura, o processo que começou em uma roda de conversa na sala de aula, orientada pelos professores Bruna Ferreira e Breno Flor, se desenvolveu e resultou em destaque nas etapas escolar, distrital e municipal da feira de ciências. A pesquisa, realizada pela turma do 5° ano - hoje, alunos do 6º ano - aborda a presença de pessoas negras na área da saúde como possibilidade de trajetória para jovens negros. 

A pergunta sobre a existência de médico negro motivou as discussões e a turma passou a pesquisar profissionais negros da saúde e a refletir sobre representatividade, racismo e perspectivas de futuro. Segundo Bruna, o envolvimento dos alunos foi maior justamente porque a investigação partiu de inquietações presentes na realidade deles.

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Legenda: Alunos e professores falam sobre o processo de elaboração e desenvolvimento da pesquisa
Foto: Thiago Gadelha

“No momento que as crianças tiveram oportunidade de pensar, de analisar a realidade delas, foi onde a gente viu o retorno. Porque partiu deles. Trazer o aluno como protagonista desse processo. Os próprios alunos foram estruturando como a gente poderia trazer esse tema. Foi muito bacana e muito doloroso porque a gente também trabalha com relatos orais deles sobre o tema”. 
Bruna Ferreira
Professora

O trabalho foi construído durante algumas semanas de forma coletiva e registrado em um diário de campo. Os alunos fizeram pesquisas em casa, conversaram com familiares, coletaram informações e compartilharam descobertas com a comunidade. Além das atividades dentro da sala de aula. 

O movimento também teve caráter multidisciplinar, já que enquanto conteúdos relacionados à história da população negra eram trabalhados em sala de aula, eles também tinham essa mesma discussão incorporadas às aulas de Educação Física, com jogos, brincadeiras e manifestações culturais de matriz africana. 

De acordo com professor de educação física, Breno Flor, as conexões, muitas vezes, partiram dos próprios alunos que conectam os conteúdos discutidos em diferentes aulas. “É a primeira vez que nossa escola conseguiu ir tão longe com um trabalho dos ensino fundamental séries iniciais. Hoje ainda estamos apresentando esse trabalho. Isso chegou inclusive na Universidade Federal do Ceará. Nossos alunos deram aula para a disciplina de didática da educação física da UFC”. 

Na apresentação do trabalho na escola, os alunos idealizaram distintas estratégias: uma delas, um jogo em que visitantes precisavam relacionar fotos de personalidades negras aos nomes; outra, monólogos inspirados nas pessoas pesquisadas. Nesse caso, durante as apresentações, os estudantes assumiram a identidade dos personagens em primeira pessoa. 

“Foi muito divertido porque a gente também levou para os nossos familiares, teve um momento de pesquisa, que a gente levou o material para casa, estudou junto com os responsáveis, anotou várias ideias no caderno, mostrou para os professores”. 
Laura Martins
Estudante do ensino fundamental

Outro ponto é que o estudo também incorporou relatos dos próprios alunos sobre situações de racismo e discriminação e esse material foi considerado pelos professores um dos pontos mais marcantes do projeto. “Não é um assunto tão falado e foi muito diferente. Teve um jogo onde colocava as fotos das personalidades e os nomes embaralhados. Muitas pessoas não acertaram por não saber sobre esse assunto. Aí foi uma parte interessante porque a gente discutiu e as pessoas foram aprendendo”, reforça Rodrigo. 

ciencia na escola

Estímulo à vacinação 

Na mesma escola, alunas dos anos finais do fundamental também têm se destacado na pesquisa científica. O professor de matemática Thomas Souza dos Santos explica que, nesse processo, o trabalho de iniciação científica vai além da elaboração de projetos, pois os alunos aprendem noções de metodologia, pesquisa, análise de dados, produção de gráficos e técnicas de apresentação. 

Nesse contexto, as alunas Suyane Sara da Silva Mendonça e Ana Luísa Almeida, ambas de 14 anos e atualmente no 9º ano, desenvolveram o projeto “O Poder da Informação”, voltado para a conscientização sobre a vacinação. O trabalho surgiu a partir das discussões sobre desinformação relacionadas às vacinas, especialmente após a pandemia de Covid-19.

Segundo as estudantes, a proposta é informar a comunidade escolar sobre a importância da imunização por meio de diferentes linguagens, como teatro, dança, maquetes e apresentações orais. O interesse pela pesquisa científica começou ainda no 6º ano e foi se fortalecendo ao longo da trajetória escolar. 

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Legenda: As alunas Suyane Sara da Silva Mendonça e Ana Luísa Almeida e o professor Thomas Souza
Foto: Thiago Gadelha

Quando estavam no 8º ano, com a orientação do professor Thomas, aprofundaram os trabalhos de pesquisa. Suyane e Ana Luísa ficaram responsáveis pela organização e pela apresentação do projeto, já são “as tagarelas da turma”. “A gente aproveita esse dom de falar muito para ter uma oratória melhor, para aprender, e ao chegar perto das pessoas, saber falar sobre o assunto que estudamos”, destaca Ana Luísa. 

O desempenho da dupla chamou a atenção dos avaliadores na própria escola e, com isso, o projeto também foi selecionado na etapa escolar, depois avançou para as fases distrital e municipal da Feira Municipal de Ciências e Cultura de Fortaleza. O evento é promovido pela Secretaria Municipal da Educação (SME) em parceria com a Seara da Ciência da Universidade Federal do Ceará (UFC). A equipe conquistou medalha de prata na categoria Júpiter, destinada a estudantes do 8º e 9º anos. 

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Para Ana Luísa, a experiência foi marcada pelas descobertas e por novas emoções. “Foi muito nervosismo, mas também muito orgulho. A gente ensaiou durante meses porque sabia que estaria apresentando para pessoas de toda Fortaleza. Quando vimos o resultado, foi uma felicidade enorme”, relembra.

Já Suyane, reforça: “o nosso ficou bom, mas tinham também outros trabalhos muito perfeitos. Tem pessoas que estão lá para apresentar, não exatamente para competir. Ela quer apresentar o esforço que ela fez”. 

Além da premiação, a experiência gerou contato com projetos de diferentes escolas e áreas do conhecimento. Thomas defende que esse é um dos principais ganhos da iniciação científica. “A ciência acontece por meio da colaboração. Existe a competição, mas o mais importante é a vivência, a troca de experiências e o desenvolvimento de habilidades que eles vão levar para a vida inteira”, afirma.

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Viajar para aprender e competir

Em outro ponto da cidade, na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Marieta Guedes Martins, no bairro Novo Mondubim, em Fortaleza, o exercício de iniciação na ciência dos alunos de 7º ao 9º ano tem rendido resultados de destaque em competições estaduais e nacionais de astronomia e lançamento de foguetes. 

Sob a orientação do professor de matemática Francisco Xavier da Silva, a escola, cujo público é composto por alunos do próprio bairro e do entorno como Canindezinho, Conjunto Esperança, Parque Santa Rosa, dentre outros, acumula medalhas na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e na Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG), além de participações na etapa nacional realizada em 2025, em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro.

O professor afirma que a trajetória com a astronomia começou em 2009, quando teve contato com a OBA e, posteriormente, com a construção de foguetes de garrafa PET. “Além de levar o conhecimento teórico sobre astronomia e astronáutica, a gente pode levar algo prático também”, explica. 

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Legenda: Professor Francisco Xavier, diretora Aline Kelly e alunos da Escola Marieta Guedes Martins
Foto: Thiago Gadelha

Nos últimos três anos, a escola conquistou uma sequência de medalhas. O primeiro ouro na OBA veio em 2025. Na OBAFOG, estudantes da unidade também foram campeões nacionais e conquistaram medalhas de ouro em etapas estaduais e nacionais.

Para garantir as atividades na escola que é regular, os estudantes que integram a equipe participam de encontros no contraturno, quando estudam conceitos de matemática, física e engenharia aplicados aos lançamentos. “A gente consegue trabalhar ângulos, ação e reação, além de conceitos de física e matemática que eles veem em sala”, destaca o professor. 

Os foguetes, apontam os alunos, são a junção de garrafas PET reforçadas, peças produzidas em impressoras 3D e sistemas desenvolvidos para aumentar a segurança durante os lançamentos.

O estudante do 8º ano, João Marcelo de Oliveira da Silva, de 13 anos, conta que se interessou pelo projeto após ouvir relatos de colegas que haviam participado da competição nacional. “Em 2024, eles foram para o Rio de Janeiro, eu estava no sexto ano. No sétimo eu fui atrás, falei com o professor e vi que essa experiência era uma coisa muito boa. Ganhei medalhas, adquiri conhecimento, enfrentei desafios e foi muito divertido”, relata. 

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Legenda: O trabalho foi feito sob a orientação do professor de matemática Francisco Xavier
Foto: Thiago Gadelha

Segundo ele, a trajetória começou nas oficinas de construção e culminou com medalhas nas competições estaduais e a viagem, em novembro de 2025, ao Rio de Janeiro, onde o grupo de estudantes viajou pela 1º vez de avião.

“A expectativa era grande porque sabíamos que o nível seria muito alto, com equipes do Brasil inteiro. Eram equipes que tinham mais condições que a gente, mas a gente foi lá e ganhou”. 
João Marcelo
Estudante

A também aluna do 8º ano, Ana Karolina de Sousa, 13 anos, afirma que decidiu participar após assistir a uma apresentação sobre as experiências dos estudantes que viajaram em anos anteriores. “No 6º, o professor trouxe uma projeção e mostrou como tinha sido a competição. Eu falei para o professor: ‘por favor, no próximo me leva’. Eu quero chegar nesse nível e me aprofundar nesse estudo. Foi uma experiência totalmente incrível e quero continuar levando isso para o meu futuro”, diz. 

Já Emily Victória Santos Lins, também do 8º ano, destaca que o projeto despertou o interesse pelas ciências ainda no 6º ano. “Eu me interessei pelo projeto, fui na primeira reunião e comecei a ir para todos os treinamentos e reuniões. Hoje gosto muito de ciência da natureza”, afirma.

Além da construção dos foguetes, os alunos também precisam apresentar os projetos diante de dezenas de equipes de todo o país. Para Davi Lucca Souza Santos, de 13 anos, a experiência contribui para o aprendizado. “A melhor forma de aprender é explicando. Assim, as pessoas entendem nossa trajetória e a gente aprende ainda mais”, afirma. 

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Legenda: A experiência com a produção de foguetes tem rendido reconhecimento inclusive em eventos nacionais
Foto: Thiago Gadelha

Os estudantes também enfatizam que o momento da premiação foi um dos mais marcantes. “Na hora que estávamos na parte de entrega das medalhas, a gente podia escolher música. Foi mágico. Todo mundo dançando, comemorando. Uma sensação incrível”, lembra João Marcelo.

Outra estudante integrante da equipe é Ana Larissa Marque Almeida, de 15 anos, egressa da escola. Hoje ela está no ensino médio e tem levado a experiência adquirida no fundamental para a nova etapa.

“Conheci a olimpíada na escola (Marieta Guedes Martins) e a gente pode aprender muito. Eu e mais dois colegas que já tínhamos participado de olimpíadas buscamos  (na nova escola) o professor de física para também tentar participar nessa etapa. Agora, eu tenho que ter um pouco mais de autonomia, tá sendo diferente, mas é bem legal”.
Ana Larissa Marque Almeida
Aluna egressa da Marieta Guedes Martins

A diretora da unidade, Aline Kelly Costa Bastos de Sousa, contextualiza que os alunos da unidade são  majoritariamente de comunidades de baixa renda do entorno da escola e avalia que as olimpíadas têm papel importante na transformação das expectativas deles. 

Segundo ela, muitos desses adolescentes sequer acreditavam que poderiam chegar a competições nacionais. “Quando uma equipe conseguiu ir para o Rio de Janeiro, eles começaram a entender que isso era possível para eles também”, afirma. 

Ela também defende que o projeto tem ajudado a aproximar ciência, tecnologia e sonhos profissionais. Entre os participantes, pondera, já há quem pense em seguir carreiras como engenharia, advocacia, medicina, biologia e até astronomia. 

Para a gestora, que é egressa de escola e universidade pública, o principal objetivo é mostrar aos alunos que a educação pode ampliar horizontes: “temos esse papel social de mostrar para o jovem, principalmente para o jovem de periferia, que ele pode ocupar outros espaços para além da periferia que ele vive, que não é a condição social que ele vive que vai definir onde ele vai chegar. Lógico que a gente também não vai fazer um discurso meritocrático, dizer que para ele vai ser igual ao outro, porque não vai. Mas que ele pode sim chegar. E a gente incentiva”. 

ciencia na escola