Escola do campo no CE inspira alunos a usarem histórias de vida para fazer ciência
Uma escola com 191 alunos do ensino médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), formada principalmente por moradores de assentamentos rurais. A unidade, entregue há quase nove anos pelo Governo do Ceará, fica na zona rural de Ocara, cidade do Maciço de Baturité, no interior do estado, e está em uma área de 13 hectares, sendo 1 deles ocupado pelo prédio em si. No restante do espaço, há cultivo de frutas, hortaliças e plantas medicinais, além de roçados com milho, feijão e jerimum e a criação de carneiros e ovelhas.
Nesse ambiente, os estudantes, chamados de educandos, passam dois dias da semana em tempo integral e, ao lado de professores, têm desenvolvido projetos científicos que dialogam diretamente com a realidade local. Nesse processo, a combinação entre o saber científico e o conhecimento tradicional, muitas vezes, tem ajudado a produzir soluções simples e acessíveis, que fazem relação entre instituição e comunidade ser transformadora para ambas as partes. É a ciência ganhando vida em uma escola do campo.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, na sede da própria escola, professores destacam que as iniciativas envolvem ciências exatas e da terra, mas também linguagens e ciências humanas. Em todos os casos, há um objetivo comum: partir da realidade do território e unir diferentes saberes para responder a problemas concretos da comunidade.
Na Escola de Ensino Médio Profissional do Campo (EEMPC) Francisca Pinto dos Santos, no assentamento Antônio Conselheiro, as salas de aula funcionam como extensões das histórias de vida dos alunos em uma realidade protagonizada por filhos de trabalhadores rurais.
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O Diário do Nordeste publica, em 2026, a quinta edição do projeto Terra de Sabidos, que neste ano, tem como foco a produção científica nas escolas públicas do Ceará. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior, como Ocara, Pedra Branca e Iracema, e apresenta iniciativas e projetos de pesquisa desenvolvidos por jovens e professores orientadores que contribuem para a produção do conhecimento e para a resolução de problemas nas mais diversas áreas da ciência, ainda no ensino fundamental e médio.
A proposta pedagógica é baseada na ideia de que os projetos devem gerar respostas reais. Não basta produzir conhecimento formal apenas dentro da escola ou “acumular esse saber”, é preciso atender às demandas da comunidade. Antes da criação da unidade, estudantes da região tinham que se deslocar até o centro de Ocara ou para municípios vizinhos, como Aracoiaba.
O que são escolas do campo?
O modelo da EEMPC Francisca Pinto dos Santos integra uma pedagogia presente em outras 11 escolas do campo no Ceará vinculadas à Secretaria Estadual da Educação (Seduc). Nelas, que nasceram do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os alunos já chegam com experiências ligadas à terra, ao plantio, à colheita e ao trabalho manual, pois vivenciam essas práticas desde criança. E, muitas vezes, são elas o ponto de partida para a produção científica.
Nas escolas do campo, tal qual a unidade de Ocara, a rotina é dividida entre o espaço escolar e comunidade. Na unidade, às segundas, quartas e sextas-feiras, os alunos permanecem um turno na escola e continuam as atividades em casa. Já às terças e quintas, o período é integral, ficam de 7h às 17h na instituição.
A diretora da escola, Kerla de Oliveira Nicolau, explica que o chamado “tempo comunidade” não é ocioso. Segundo ela, é nesse momento que os alunos aplicam na prática o que aprendem. “Inclusive, tem momentos que nós visitamos as comunidades também, para ver como é que estão os trabalhos e fazermos oficinas com eles”, afirma.
Nessa metodologia há três pontos estratégicos no currículo. Em todos eles a ciência é uma interseção, conectada aos saberes populares. São eles:
- Práticas Sociais Comunitárias (PSC): o aluno vai para a comunidade observar, conversar com as pessoas e entender os problemas do lugar. A ideia é participar da vida da comunidade e ajudar a pensar em melhorias. Esse conteúdo fica sob a responsabilidade de um professor da formação geral básica;
- Projeto, Estudo e Pesquisa (PEP): é o exercício de pesquisa dos alunos do 3º ano que, nesta etapa, olham para um problema do dia a dia (como, a falta de água ou dificuldade no plantio), estudam sobre ele, testam ideias e desenvolvem um espécie de projeto científico para tentar resolvê-lo. Esse projeto é apresentado ao final do curso e fica sob a responsabilidade de um professor da formação geral básica;
- Organização do Trabalho e Técnicas Produtivas (OTTP): o aluno aprende como organizar o trabalho na prática e isso envolve planejar o plantio, cuidar da produção, usar técnicas e pensar em formas mais sustentáveis de trabalhar. Esse conteúdo fica sob responsabilidade de um professor da área técnica.
A escola também oferece ensino técnico integrado em Agroecologia, Administração voltada a Organizações Sociais e Informática, além de formação subsequente em Agroecologia. Nesse último caso, são alunos que terminaram o ensino médio e seguem em formação com as disciplinas técnicas. Na formação profissional do subsequente são dois anos de formação e o integrado são três.
Na escola que ganhou forma em 2017, já brotaram algumas soluções voltadas à comunidade como: um sistema de irrigação inteligente para reduzir o desperdício de água nos plantios e jardins. A pesquisa foi finalista em 2019, na Feira de Ciência e Tecnologia das Nações do Colégio Dante Alighieri, evento científico cujo objetivo é a divulgação anual de pesquisas de pré-iniciação científica desenvolvidas por alunos de escolas públicas e particulares do Brasil e de outros países.
O mesmo projeto foi finalista de uma premiação internacional que reconhece iniciativas de design e inovação com impacto social, o Donald Norman Award em 2025. Além disso, a escola tem garantido participação constante em feiras científicas, com destaque para o Ceará Científico e mostras voltadas ao semiárido.
Laboratório vivo
Nos 13 hectares de terra da unidade, as aulas acontecem tanto nas salas de aulas e laboratórios “convencionais” se comparados às escolas tradicionais, como biologia e química, quanto em espaços abertos. Na escola do campo há produção de mudas, incluindo espécies como jucá e aroeira, que são doadas às comunidades, além de frutas como limão, laranja, manga, acerola, abacaxi e uva.
O espaço também abriga um sistema agroflorestal, com consórcios de culturas, ou seja, o plantio conjunto e intercalado de distintas espécies como maracujá e pimentão. Essa estratégia, segundo os professores agrônomos, ajuda a evitar pragas. Há ainda roçados de milho, feijão e jerimum, além da produção de hortaliças e temperos que já são utilizados na própria alimentação escolar.
“Aqui dentro dessa área, a gente consegue tirar algumas produções para alimentação coentro, alface, além de frutas, com polpas de maracujá. Fora as condimentares que ajudam no tempero dos pratos”, explica o professor e agrônomo Luis Carlos Santos. Estar nesse espaço livre e aberto “é um dos momentos que eles mais se realizam”, destaca a professor.
No “coração da escola”, como os professores nomeiam, os estudantes aprendem técnicas como plantio por sementes e estacas, preparo de substratos e uso de equipamentos de proteção. Além disso, como o espaço também inclui criação de ovinos, os educandos aprendem manejo, identificação e cuidados com os animais, conhecimentos que, aponta Luís, são levados de volta para as próprias comunidades.
Fazer ciência na escola do campo
A diretora Kerla de Oliveira diz que o modelo de ensino ainda tem um certo ineditismo para muitos estudantes e destaca que a integração entre prática e teoria permite que alunos com habilidades manuais, por exemplo, encontrem espaço para desenvolver projetos científicos. “O nosso modo de trabalho é uma novidade para o estudante. Ele vem das escolas do fundamental, e algumas não são da área do assentamento”, completa.
Na avaliação da diretora, a participação em feiras científicas fortalece a autoestima dos estudantes, que passam a perceber o valor das produções e competem com projetos de outras regiões. A cultura científica, avalia, tem crescido na escola e, nesse movimento, os alunos procuram professores, demonstram curiosidade e desenvolvem projetos com base em questionamentos.
“Esse movimento do trabalho científico é muito semelhante ao que a gente sentiu na universidade. Porque nós não tivemos essa experiência no nosso ensino médio. E os meninos aqui, eles já chegam perto dos professores, dizem que querem apresentar os projetos, querem conhecer. E sabemos que a produção científica começa com essa coragem”.
O projeto de irrigação surgiu de uma sugestão de aluno, durante aulas de física, relata o professor Francisco Dian de Oliveira. A ideia nasceu da necessidade de melhorar a irrigação das plantas da própria escola, já que os alunos conciliam estudos com atividades práticas. Primeiro foi idealizado como um sistema com horários programados e depois, a partir da constatação de desperdício de água nos modelos convencionais, foi sendo aprimorado.
O sistema foi criado em um modelo piloto capaz de medir a umidade do solo e acionar a irrigação apenas quando necessário, afirma o aluno José Auricélio. O primeiro protótipo foi construído com materiais simples e recicláveis, incluindo sensores improvisados com fios de cobre, desenvolvidos a partir de conceitos de resistência elétrica estudados em sala.
Com o tempo, a ideia recebeu apoio de instituições e parcerias, como laboratórios e grupos de pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de Fortaleza (Unifor) que permitiram aprimorar a tecnologia. Hoje, o sistema está em teste no Kuya - Centro de Design do Ceará, no Centro de Fortaleza, e conta com sensores mais precisos e tem protótipos instalados em espaços de teste, com a meta de aplicação futura nas comunidades rurais.
Criação de abelhas sem ferrão
Outro projeto que surgiu do curso subsequente em Agroecologia, explica o professor e agrônomo Leonardo Marco Lopes Rufino, é a criação de um meliponário. No trabalho, foram construídas caixas de abelhas sem ferrão como parte das atividades de conclusão do curso.
Atualmente, o projeto conta com quatro colmeias instaladas, das quais duas já estão colonizadas com abelhas doadas por educandos, professores e estudantes. No planejamento há previsão de divisão das colônias e ampliação do meliponário. Essa proposta também se articula com a metodologia do “tempo comunidade”, em que os alunos aplicam em casa, nos quintais produtivos, o que aprendem na escola.
Além da produção, outra dimensão do projeto é a preservação das abelhas sem ferrão, espécies nativas importantes para a polinização de culturas como o caju. “Estamos numa área que tem muito cultivo, tem a produção de caju, de outras lavouras e o resgate dessas abelhas como polinizadoras nesse modelo que a gente está trabalhando é fundamental. Além de ser também uma barreira, pois se eu tenho as abelhas, eu não posso usar agrotóxico”, explica o professor.
Nesse movimento, a educanda Sidaiane Castro Carvalho, 22 anos, que é da formação subsequente em Agroecologia e estuda no período noturno, relata que já participou de diferentes projetos dentro da escola.
Moradora do distrito de Marizeiro, no interior de Aracoiaba, Sidaiane relata que concilia formação técnica e trabalho. Ela, moradora de área rural, leva cerca de uma hora e meia até a escola, dependendo das condições das estradas, e tem uma rotina dividida entre aulas noturnas e estágio durante o dia.
O trabalho com abelhas sem ferrão, para ela, é “uma nova experiência”. Segundo Sidaiane, a participação em diferentes iniciativas têm ajudado a ampliar conhecimentos e compreender melhor as aplicações da agroecologia no cotidiano.
Ela também avalia as participações em feiras científicas, como o Ceará Científico, onde apresentou projetos da escola. Na primeira vez, relembra, precisou enfrentar o nervosismo, já que não tinha experiência em apresentações públicas, mas conseguiu se adaptar.
“Foi um desafio. O pessoal disse: vamos tentar fazer e nós fizemos. Fomos selecionados para irmos para a etapa em Baturité. Era o projeto do hidrogel (espécie de gel de plantio que retém água e nutrientes, liberando-os gradualmente para as raízes). Levamos as plantas para mostrar como é que ele se desenvolvia. No ano passado, fomos para Aracoiaba, mas com outro projeto. Foi dividido e cada um (estudante) ficou com um setor diferente para dar uma explicação. Ficava nervosa porque nunca tinha apresentado assim para muita gente, mas deu certo. É, aí ficamos na espera, ‘eles vão chamar?’ E trouxemos a medalha”.
Para ela, atividades do tipo ajudam não apenas para o aprendizado técnico, mas também para desenvolver a comunicação e a confiança ao expor os próprios trabalhos. “Aqui na escola era para os alunos, lá (na etapa regional) não. Era também para outras pessoas e foi um desafio que a gente conseguiu. Aqui na escola tem aquele vínculo com o povo e se comunicar é mais fácil. Eu era muito envergonhada e deu aquela liberdade de conversar com o público”, completa.
Além dos projetos, Sidaiane realiza estágio em uma escola de ensino fundamental na comunidade de Passagem Funda, onde participa de atividades como a implantação de hortas com as crianças. O objetivo, defende ela, é levar o conhecimento da agroecologia para outras realidades, reforçando a ligação entre o estudo técnico e a prática comunitária.
Educação para permanecer no campo
Um ponto também reiterado pelos professores é o fato de a escola ter sido criada para fortalecer a permanência dos jovens no campo, valorizando as origens e o território. O professor Luis Carlos Santos afirma que a proposta pedagógica integra teoria e prática, com espaços de vivência que reproduzem a realidade dos estudantes, e ressalta a valorização dos saberes locais, como o intercâmbio de experiências entre agricultores.
“É a questão da pertença deles com o campo e viver alternativas que realmente proporcionem uma vida digna, para que eles possam permanecer, trabalhar, vivenciar as suas experiências e também fortalecer a questão da atividade que é importante na agricultura. Uma nova visão de permanecer, mas com vida. Para não ter que sair, ir para outros municípios e viver o que não é a realidade deles”.
Nesse contexto, professores e alunos desenvolvem projetos de extensão que valorizam os saberes locais. Um deles é a iniciativa “Camponesa Camponês”, que promove a troca de experiências entre agricultores, como técnicas de adubação orgânica e produção sustentável.
O projeto, apontam os professores, começou com a participação de mulheres e, ao longo do tempo, ampliou as atividades com reuniões, oficinas e seminários, inclusive durante a pandemia de Covid, quando parte das ações ocorreu de forma virtual.
A coordenadora pedagógica da escola, Raimunda Marina, destaca a participação da unidade em uma iniciativa que preserva sementes crioulas. Segundo ela, o grupo formado por mulheres, chamado de “guardiãs das sementes”, atua também em outras unidades da rede, fortalecendo uma rede de produção e conservação desses recursos.
Ela explica que o projeto tem crescido a partir de formações e encontros com profissionais de diferentes áreas, que contribuem com orientações e estratégias para o fortalecimento das ações.
O trabalho envolve organização coletiva com camponeses, realização de reuniões na escola ou nas próprias comunidades e desenvolvimento de atividades em quintais produtivos, associações e cooperativas, sempre de acordo com a realidade local e com foco no fortalecimento da agricultura familiar.