Cearense une IA e profetas das chuvas e é finalista de ‘Nobel da Água Jovem’ no Brasil
Quando o Ceará enfrentou o mais recente ciclo de seca, entre 2012 e 2016, Raul Victor Magalhães Souza, morador de Iracema, cidade do Vale do Jaguaribe, ainda era criança. É desse período que vêm as memórias do avô Luiz Maia, de 71 anos, e das histórias que ele contava sobre pessoas capazes de prever se as águas vindas do céu vão ou não banhar o Estado: os profetas da chuva. Desde então, a possibilidade de antecipar o que virá, somada ao conhecimento científico e popular, desperta a curiosidade e os interesses de Raul Victor.
O fascínio que nasceu na infância cresceu e, na adolescência, virou pesquisa científica. Estudante de escola pública no interior do Ceará, Victor, de 16 anos, filho de uma professora e de um vendedor autônomo, tem feito dessa inquietação reveladora sobre o quanto a existência ou não de reservas de água é central para o cearense, um campo de investigação. E isso de forma ainda um tanto precoce: ele, que é aluno do Ensino Médio e almeja ingressar no curso de Medicina, propõe e participa, desde o 1º ano desta etapa, de estudos na própria escola que articulam tecnologia, saber popular e previsões.
No percurso, Victor, que hoje está no 3º ano, na Escola de Tempo Integral Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, já produziu artigos, ganhou bolsa de iniciação científica, faz parte de uma laboratório de pesquisa vinculado à universidade, concorreu em feiras e em eventos locais, regionais, nacionais e internacionais.
Esse processo inclusive foi o que garantiu a Raul as primeiras viagens para fora da própria cidade, localizada a 285 km de Fortaleza. Os trajetos incluem conhecer a capital, outros estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, e até outros países, como os Estados Unidos. Isso, para apresentar os resultados das próprias pesquisas.
O Diário do Nordeste publica, em 2026, a quinta edição do projeto Terra de Sabidos, que neste ano tem como foco a produção científica nas escolas públicas do Ceará. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior, como Ocara, Pedra Branca e Iracema, e apresenta iniciativas e projetos de pesquisa desenvolvidos por jovens e professores orientadores que contribuem para a produção do conhecimento e para a resolução de problemas nas mais diversas áreas da ciência, ainda no ensino fundamental e médio.
No Rio de Janeiro, ele celebrou, neste ano, a entrega do Prêmio Jovem Cientista, conquistado em 2025, na categoria “Estudante do Ensino Médio”. A premiação é um dos mais importantes reconhecimentos científicos do Brasil, criado na década de 1980 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência de fomento vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A pesquisa de Victor concorreu com trabalhos de estudantes de todo o país.
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O mesmo estudo e os achados deste trabalho, também no ano passado, rendeu ao estudante participar da Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), maior feira do tipo na América Latina, realizada anualmente no Rio Grande do Sul. No evento, o êxito do projeto e as boas avaliações lhe renderam ser premiado com uma credencial para Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), que é a maior feira internacional de ciências e engenharia para estudantes do ensino médio do mundo.
Esse mês, o estudante levou os saberes dos profetas da chuva cearenses conectados à Inteligência Artificial aos Estados Unidos, apresentando o trabalho no salão de exposições e sendo avaliado por pesquisadores na competição que reúne mais de 1.700 jovens cientistas de mais de 60 países.
Enquanto estava na ISEF, Raul Victor recebeu a notícia que está na final do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo, que é promovido pelo Stockholm International Water Institute desde 1997, e é considerado o “Nobel” da ciência jovem voltada às questões hídricas.
A premiação no Brasil é organizada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental e pela Brazilcham Sweden, com o objetivo de incentivar jovens de diferentes países a desenvolver soluções inovadoras para desafios relacionados à água, saneamento e sustentabilidade.
O vencedor da etapa brasileira ganha uma viagem com todas as despesas pagas para representar o país na etapa internacional, realizada em Estocolmo. No Brasil, a premiação é organizada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) e pela Brazilcham Sweden, responsáveis pela seleção do projeto brasileiro que disputará a final internacional na Suécia.
Na trajetória de Raul Victor, o conhecimento e, por efeito, as conquistas, têm escalado. Ele “ganha mundo” e deseja mais, relata ao Diário do Nordeste em entrevista feita na própria escola. Quer prosperar, seguir participando de eventos, incluindo os internacionais, fazendo descobertas, produzindo. Mas, sonha com os pés no chão.
O reconhecimento é bom, sabe ele. Contudo, aos 17 anos, relata ter consciência de que esse processo tem custos: horas e horas dedicadas ao trabalho, a escrita, a troca de mensagem com orientador, produções a serem entregues, a interpretação de dados nem sempre são compreensíveis facilmente.
O que é a pesquisa?
No início do Ensino Médio, Raul Victor já constatava aquilo que muitos pesquisadores descobrem com um certo tempo de carreira: a ciência começa nas inquietações de cada investigador. No 1° ano do Ensino Médio fez o primeiro projeto científico. A pesquisa era sobre o potencial terapêutico do óleo da tilápia no tratamento da esclerose múltipla. Com esse estudo desenvolvido na escola, ganhou uma bolsa de iniciação científica do CNPq.
Nesse processo, começou a fazer parte do Laboratório de Farmacologia de Venenos, Toxinas e Lectinas (Lafavet) do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Isso porque, explica ele, mesmo que a investigação não seja enquadrada na área de farmacologia, venenos ou toxinas, a conexão com o Laboratório se dá pois há o incentivo à iniciação à pesquisa, sem restrição absoluta da área de conhecimento.
A ideia de unir tecnologia aos saberes tradicionais veio no 2º ano do ensino médio. Foi levada por ele ao orientador, Helyson Lucas Bezerra Braz, que, explica ele, “é da área de informática e principalmente a bioinformática”, aponta, e não domina também a área de climatologia, mas aceitou o desafio.
Na pesquisa, o estudante desenvolveu um modelo para prever chuvas no Vale do Jaguaribe, e utilizou Inteligência Artificial para analisar dados meteorológicos coletados ao longo de mais de 40 anos, como temperatura, pressão do ar, umidade, vento e volume de chuva, registradas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
Isso, somado às observações feitas pelos profetas da chuva, pessoas que usam sinais da natureza para projetar o período chuvoso, como o comportamento de animais, o florescimento de plantas e fenômenos observados no céu.
Como foi feita a pesquisa científica no ensino médio?
Ouvir o avô Luiz Maia contar histórias sobre os profetas da chuva, principalmente, aqueles moradores de Iracema, foi o despertar para o estudo, que hoje já circula o mundo. Em 2009, aponta Raul, um profeta da própria cidade previu que o lugar sofreria com uma grande enchente, fato que infelizmente se concretizou devido ao intenso volume de chuvas registrado no lugar em maio daquele ano.
“Foi um trabalho bem árduo para sistematizar todos esses conhecimentos tradicionais, valorizá-los assim como eles devem ser valorizados e credibilizados e transformar eles juntamente com a inteligência artificial em um modelo preditivo que prevê o total pluviométrico para aquela determinada região, que no nosso caso é o Vale do Jaguaribe”.
Lembrou desse fato e da alegria despertada por ele. Em 2025, diz, “perguntou a si mesmo “por que não fazer um projeto que envolva os profetas da chuva já que eles têm tanta assertividade nas suas previsões e a inteligência artificial que é a tendência do momento?”. Com a proposta aceita pelo orientador, que é vinculado à UFC e atua em parceria com a escola nos projetos de iniciação científica, partiu para investigar.
Cinco cidades (todas do Vale do Jaguaribe) foram escolhidas para viabilizar o estudo: Iracema, Morada Nova, Russas, Limoeiro do Norte e Quixeré. A pesquisa seguiu então dois movimentos de coleta de dados:
- Entrevistas com seis profetas da chuva do Vale do Jaguaribe nas quais são estruturadas 10 parâmetros de análise, dentre eles, da fauna, da flora e de fenômenos atmosféricos e astronômicos, como o florescer do mandacaru e do juazeiro, a observação do caule da embiratanha (planta típica do semiárido), a presença da borboleta preta, da aranha caranguejeira, de rã, formigueiros, a observação do halo lunar e alto brilho do sete-estrelo (grupo de estrelas visíveis a olho nu);
- Dados do Inmet e da Funceme referente ao Vale do Jaguaribe, de 1981-2024, com variáveis como: pressão atmosférica, temperatura, umidade relativa do ar, velocidade do vento e direção do vento (graus).
As entrevistas foram feitas de forma presencial e também remotamente em 2024, via videochamadas. No processo de escuta, dois profetas da chuva de Iracema, João Odegário e Expedito, foram ouvidos pelos pesquisadores.
As informações foram organizadas pelos dois, transformadas em dados numéricos e analisadas com técnicas estatísticas e de inteligência artificial. Como resultado, eles criaram um modelo híbrido de previsão, com uma ferramenta que usa inteligência artificial.
- O dispositivo, que ainda será disponibilizado para acesso público, em termos simplificados funciona como um sistema que:
- Reúne dados meteorológicos (temperatura, umidade, pressão etc.);
- Junta esses dados às observações dos profetas da chuva e;
- Conecta os dois para calcular possibilidades de chuvas no Vale do Jaguaribe.
Os primeiros resultados da pesquisa foram estruturados em formato de artigo científico para que os achados possam ser avaliados publicamente. Com essa base, a pesquisa foi inscrita em feiras e competições científicas.
“Abordamos esses fenômenos perguntando (aos profetas) se eles apareciam ou não, para fazermos uma classificação binária de dados, ou seja, converter esses conhecimentos qualitativos em quantitativos, conhecimentos numéricos, para assim a gente trabalhar com a modelagem computacional juntamente com os dados meteorológicos”.
O papel dos profetas da chuva é destacado por Raul como essencial nesse processo: “eu acredito que desde os primórdios o homem está conectado com a natureza, querendo ou não, porque nós dependemos da natureza, isso é um fato. Então, a relação intrínseca dos profetas da chuva com a observação da natureza foi importante para realizarmos esse trabalho, porque não é uma previsão tirada da cabeça deles. É algo que realmente acontece na natureza e eles conseguiram transformar o conhecimento empírico em previsão”.
Rotina e resultado das premiações
Com a pesquisa em desenvolvimento, orientador e estudante decidiram submeter o trabalho a uma série de competições científicas, que, felizmente, têm assegurado o reconhecimento do esforço. O Prêmio Jovem Cientista, relata Raul, foi uma das primeiras submissões realizadas, depois veio a Mostratec, que resultou na conquista da credencial para representar o Brasil no evento internacional, no Arizona, nos Estados Unidos, em maio.
As premiações, como o Jovem Cientista, também renderam recursos materiais, como um notebook para Raul, um para o orientador e uma para a escola, além de ajuda financeira para preparação para outros eventos, já que as competições internacionais incluem custos das logísticas das viagens.
Outro resultado positivo foi a conquista de uma bolsa no Pop Ciência, que é o Programa Nacional de Popularização da Ciência do Brasil, instituído pelo MCTI. A premiação foi oriunda da participação no Ceará Faz Ciência, que é uma mostra científica realizada pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior, do Governo do Estado.
Na rotina escolar que vai das 7h às 4h40, em alguns momentos, a jornada é utilizada para as ações dos projetos científicos, como a escrita de diário de campo, registros das atividades e alguns experimentos. Mas, “a parte da construção teórica de todo o projeto, a escrita do artigo, acontece pela noite e geralmente, eu realizo na minha casa, juntamente com o meu orientador. Fazemos reuniões online. É o tempo que a gente aproveita”, explica Raul.
Em 2026, os planos são fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para tentar o curso de Medicina. O acesso à universidade, no caso de Raul, demanda a mudança de cidade, pois teria que cursar em Fortaleza. “É um pouco diferente desse projeto que eu fiz, mas é porque ele surgiu de uma curiosidade e uma vontade inexplicável de realizá-lo. Mas no meu primeiro ano eu já tinha realizado um projeto da Esclerose Múltipla e sempre fui apaixonado nessa área da ciência, da biomedicina e quero seguir na Medicina”, completa.
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Outro plano é garantir acesso público a plataforma, que é o resultado da pesquisa. “Ainda não foi lançado porque a gente pretende ampliar o número de profetas da chuva, o banco de dados vivos, como também pretende especificar mais as áreas”. A estimativa é que o projeto seja viabilizado até o final de 2026, garantindo a possibilidade de previsão da quadra chuvosa de 2027.
“É bem difícil realizar tudo isso porque ainda estamos realizando análise mercadológica, já que pretendemos deixar acessível de graça para os agricultores locais e os profetas da chuva. Porém, se grandes empresas quiserem utilizar essa plataforma, a gente realizaria alguns planos com assinaturas para eles obterem relatórios complexos acerca daquele período chuvoso, entre outras informações"< aponta.
Incentivo à pesquisa na escola
Raul é uma das dezenas de estudantes da rede pública do Ceará que estão em contato com a iniciação científica ainda no Ensino Médio. E isso, avalia o orientador Helyson Lucas Bezerra Braz, que é professor e pesquisador do Lafavet da UFC, “contribui em diversos aspectos, desde o incentivo à investigação até a escolha da futura graduação e o desenvolvimento pessoal”.
Helyson é um pesquisador entusiasta do processo de contato dos estudantes secundaristas com a produção científica.
“Ela desperta no aluno a capacidade de resolver problemas da sociedade, mostrando que ele pode entender e transformar o mundo ao seu redor. Isso é fundamental para quebrar o rótulo de que o estudante de escola pública não é capaz de promover mudanças incríveis”.
A própria trajetória, defende ele, confirma esse argumento. Ele é e egresso da Escola Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, em Iracema, e relata que participou da iniciação científica júnior no Ensino Médio e “isso foi o pilar primordial para a minha carreira acadêmica e para os projetos que desenvolvi. Hoje, tenho muito orgulho de repassar essa trajetória e treinar novos jovens curiosos que querem resolver problemas reais através da pesquisa”.
Mas, ele também destaca que o processo evidencia desafios já conhecidos, como a falta de infraestrutura. “Precisamos de mais apoio financeiro, mais bolsas de pesquisa e programas de estímulo voltados para o ensino médio, garantindo uma ajuda de custo para que esses alunos possam desenvolver seus projetos e sejam verdadeiramente protagonistas”, destaca.
A iniciação científica também gera impactos concretos e Helyson evidencia: “ a pesquisa transforma esses alunos em sujeitos ativos, influenciando diretamente a decisão de seguir carreira acadêmica ou resolver problemas de suas próprias comunidades. Nos últimos oito anos, todos os alunos que orientei ingressaram na universidade, e muitos já estão no mestrado e doutorado, inclusive fora do Brasil”.
Chegar à graduação com uma mentalidade distinta dos alunos focados apenas em “passar no Enem”, ingressar no ensino superior com trabalhos publicados em revistas internacionais ou já integrando grupos de pesquisa são alguns diferenciais. Além disso, assim como Raul, alunos da rede pública têm “alçado voos”, com credenciamentos para eventos internacionais. São portas abertas, aponta Helyson. E os estudantes seguem insistindo para elas não mais fecharem.