A casa simples, rodeada por pés de graviola, tangerina e plantações de batata, feijão, milho e macaxeira, na qual galinhas correm no entorno e cachorros e gatos se acomodam, em uma comunidade rural, a alguns metros da sede do distrito de América, em Ipueiras, no interior do Ceará.  Esse é o cenário onde o estudante Francisco Julian de Sales Nunes, de 19 anos, “nasceu e cresceu”. 

Em julho de 2024, partiu dali rumo a um destino localizado a 480 quilômetros. Uma cidade completamente diferente, em um território onde até o clima é distinto, ele “virou universitário”. Nessa distância, quem saiu de casa para “se tornar um agrônomo formado”, tem visto as práticas adotadas no quintal de casa se conectarem com o saber científico. 

Ainda criança Julian aprendeu que é da relação com a terra que na família, liderada pelos pais agricultores Francisca Feitosa de Sales e Francisco Nunes de Paulo, brotava o sustento. Cultivo de produtos, mas também de expectativas. Foi dessa conexão que surgiu o desejo de “se profissionalizar”. Primeiro se tornar técnico em agropecuária - objetivo atingido ainda no Ensino Médio -  e depois de “entrar na universidade de Agronomia”.  

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Legenda: Julian é egresso da Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos
Foto: Davi Rocha

Julian, natural de Ipueiras, no Sertão dos Crateús, e egresso da rede pública estadual, desde o ano passado, é aluno da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Ingressou via Sistema Unificado de Seleção (Sisu) após ter feito o primeiro Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na vida. 

O Diário do Nordeste publica em 2025 a quarta edição do projeto Terra de Sabidos, que neste ano tem como foco o “destino universidade”. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior como Itarema, Ipueiras e Granjeiro, e conta experiências de egressos de escolas públicas do Ceará que acessaram a universidade, seja via Sistema de Seleção Unificada (Sisu) ou Programa Universidade para Todos (Prouni). As experiências apontam quão desafiantes, mas também recompensantes, têm sido as oportunidades que abrem portas e alteram a vida dos jovens e de quem os cerca. 

Passou a ser morador do Crato, no Cariri cearense, terra “mais quente que a dele” e ainda está se adaptando à distância, às mudanças e aos desafios impostos a um estudante de baixa renda, filho de agricultores, que decidiu não largar a boa oportunidade, conquistada com esforço.

Entrar na universidade é uma realização e permanecer é outra tão relevante quanto. Julian tem experimentado essa sentença, e agora, no 3º semestre, sabe que ela segue como um ponto de ponderação. 

Imagem do Terra de Sabidos

Mudança de cidade

Quando ainda estava na Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos, situada na zona rural de Ipueiras, no distrito Balseiros, a 50km da casa de Julian, ele decidiu que tentaria entrar na universidade, mas não sabia precisamente o que enfrentaria. 

A EFA, onde Julian estudou, em 2023, teve a segunda melhor nota, com 7,5 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre as escolas públicas do Brasil, sendo a melhor do Ceará. A nota máxima é 10. O Ideb mede é o indicador que mede a qualidade educacional no país a partir de dois fatores: o fluxo escolar e as médias de desempenho nas avaliações. 

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Hoje, passados dois semestres na UFCA, ele relembra que já contornou muitos impasses, e em paralelo, tem acumulado ganhos incalculáveis nessa experiência. Nas férias, aproveita para retornar ao local de origem, na zona rural de Ipueiras, e mata a saudade da família e dos amigos. 

“Meu filho, nós não estamos preparados. Mas ele disse: eu quero fazer. E o que a gente disse, então vamos apoiar. Estamos para apoiar e dar a sustentação. Mas quando foi na hora de separar, foi mais difícil ainda", relatou o pai de Julian sobre o processo de “separação” do filho para a ida ao Crato. O relato ao Diário do Nordeste ocorreu em junho, no alpendre da casa simples, durante o terceiro retorno do filho à residência, em período de férias universitárias.  

A saudade sentida pela mãe é minimizada em ligações diárias, conta a família. "A gente sente falta dele, mas quando foi pra ele ir, ele decidiu e foi. A gente fica feliz. Quando penso no futuro, penso em continuar na faculdade, realizando o sonho. E a gente peleja para manter ele lá. É muito bom olhar para um filho e ver que a gente plantou está colhendo". 

Na mudança para o Crato, relata: “fui e fiquei em um canto durante 15 dias, num lugar com a ajuda de um conhecido de um professor (da escola). Depois, fiz uma amizade e fiquei na casa desse colega por mais 7 dias, e depois conheci uma pessoa com quem hoje eu divido aluguel”.

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Legenda: Julian com os irmãos, na escola agrícola, e com os pais, no distrito de América, em Ipueiras
Foto: Davi Rocha

Na nova realidade, recorda, “era algo totalmente diferente do ensino médio. Não tinha familiares por perto para me adaptar.Também tinha a questão financeira. Eu pensava que ‘não podia dar despesas para os meus pais’". 

O curso de Agronomia na UFCA funciona em tempo integral, logo, para exercer alguma atividade remunerada era preciso fazê-la à noite. E foi essa saída vislumbrada por Julian. Trabalhar em um restaurante para ter renda. “Eu só tinha vaga para a noite. Saía umas 18h da faculdade e ficava até 2h da manhã no restaurante. Passei quase 2 meses assim”. 

No percurso, surgiu um processo seletivo do Programa de Educação Tutorial (PET) Agronomia - iniciativa que complementa a formação universitária fortalecendo a conexão entre pesquisa, ensino e extensão. Julian se inscreveu e garante ter sido o “único calouro a conseguir a bolsa com 2 meses de universidade”. São R$ 700,00 que garantem o pagamento do aluguel e das contas. Um recurso imprescindível, reitera o universitário. 

Imagem do Terra de Sabidos

Experiência diferenciada na escola

O ensino fundamental foi todo feito no próprio distrito, América. Na pandemia de Covid, em 2021, ingressou no ensino médio e veio a experiência diferenciada: estudar em uma escola agrícola cujo a metodologia é a Pedagogia da Alternância. E o que isso significa?

Na Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos, que é uma unidade do campo, chamada EFA, a dinâmica de ensino conecta os alunos com as práticas rurais experimentadas nas próprias famílias e comunidades.

Nesse processo, os alunos passam parte do tempo na escola, com aulas e conteúdos teóricos, e outros momentos alternam para as experiências em campo, aplicando os conhecimentos na prática do trabalho rural. Na família de Julian, os dois irmãos mais novos também estudam na escola. 

“Desde criança eu tinha contato com o solo. Tínhamos unidades produtivas na minha casa, com culturas anuais de milho, feijão, macaxeira, maracujá, tomate, pepino, laranja e limão”, relata Julian. Quando  entrou na EFA de Ipueiras, trabalhava com os pais na agricultura e essa era a principal renda, conta. 

Na escola, a rotina é distinta dos modelos convencionais. Parte dos alunos ingressam na segunda-feira, por volta das  8h da manhã e só deixam a escola na sexta-feira. Ficam em uma espécie de regime de internato na própria unidade, com dormitórios e áreas de convivência, higiene e refeitório e têm aulas do currículo convencional, mas também formação conectada à própria realidade. Na EFA em questão há também a oferta do curso técnico em Agropecuária integrado ao Ensino Médio. 

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Legenda: Julian precisou mudar de região para ingressar na universidade
Foto: Davi Rocha

"A gente passava a semana aqui. Divide o quarto, cuidar da nossa própria cama, do espaço. Eu achei diferente mas fui me acostumando", relatou ao Diário do Nordeste em visita a EFA, após já ter se mudado para o Crato. Na EFA ele aprendeu trajetos que agora ganham força na universidade, completa. Um deles, a cuidar de si mesmo, do espaço que ocupa, a ter autonomia, outro a ser um estudante que pesquisa e produz ciência. 

“Eu vim perceber o quanto aprendi na EFA quando eu saí de lá. A EFA trabalha também com outras competências sociais, autonomia de estudo, responsabilidade e isso é o que eu trabalho na faculdade diariamente. Arrumar meu quarto, lavar as próprias roupas, ajustar o espaço que utilizo. A escola também me influenciou para fazer o ensino superior. Além desse apoio, eu sei que também precisa um querer interno”. 
Francisco Julian de Sales Nunes
Egresso de escola pública e universitário

Conforme a metodologia da EFA, ainda durante o ensino médio, os alunos desenvolvem projetos de pesquisa que têm relação direta com as comunidades que habitam. Para isso, desenvolvem o Projeto de Vida da Família Camponesa (PVFC), que é uma espécie de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) desenvolvido ao longo do ensino médio, mas priorizado e defendido no 3º ano da etapa. 

No PVFC, o estudante (ou educando como é chamado da EFA) trabalha alguma pesquisa relacionada às unidades produtivas da sua família ou sua comunidade.

No caso de Julian, o foco da análise foi o plantio de maracujá e pomar de laranja e limão no próprio quintal, desde “a preparação do solo até a fase da produção”, detalha e acrescenta “Ao final do ano, tem que apresentar para uma banca e eles avaliam e dão a nota”. 

Imagem do Terra de Sabidos

Conexão entre campo e universidade

A escola de metodologia diferenciada “surgiu de um sonho onde o filho do homem do campo tivesse acesso à educação. Ela surge dos movimentos sociais, das Comunidades Eclesiais de Base”, aponta a diretora da unidade, Lucélia de Sousa.

No Ceará, além da EFA de Ipueiras - que é mantida pelo Governo do Estado -, há outras 4 EFAs comunitárias em Quixeramobim, Tabuleiro do Norte, Tianguá e Independência.

No total, a escola tem 6 turmas, três salas de aulas e 140 alunos no total. A cada semana, metade deles ocupa o espaço escolar e a outra metade realiza atividades em casa. Na instituição alunos de 8 cidades (Ipueiras, Nova Russas, Ararendá, Poranga, Crateús, Ipaporanga e Tamboril) que vivenciam a Pedagogia da Alternância. 

Na escola a rotina é distribuída, em geral, dessa forma, relata a diretora: 

  • 8h e 8h30 - na chegada, dois monitores (professores) esperam os educandos (estudantes) para os alojamentos Depois, seguem para mística e em seguida para o lanche. 
  • 9h40 -  têm 2 aulas nas salas de aula no turno da manhã até 11h30. 
  • 11h30 - almoço e horário de descanso
  • 13h - estudantes retornam para as salas de aula
  • 15h30 - lanche da tarde
  • 15h50 - depois retornam para as salas onde têm aula até 17h30
  • 17h30 - vão para horário de descanso
  • 18h30 - retornam às atividades e vão para a mística, seguida do jantar. 
  • 19h30 - passam por acompanhamento personalizado com o plano de estudo.
  • 21h15 - atividades são encerradas
  • 22h30 - são orientados a irem dormir. 

No dia a dia na escola, os estudantes também participam das atividades de limpeza e manutenção do espaço. Toda semana, uma equipe fica responsável por cuidar do refeitório, limpar as mesas, a pia e a bancada, informa a diretora. 

Além disso, ao irem para casa, cada educando precisa manter atualizado um caderno de acompanhamento personalizado no qual são registradas as atividades realizadas junto à família e à comunidade. 

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Legenda: Na escola, os estudantes realizam atividades práticas relacionadas ao cultivo
Foto: Davi Rocha

A diretora reforça o papel do PVFC e segundo ela: "a partir do primeiro ano, o estudante já começa a pensar qual é a unidade que ele vai desenvolver na sua casa. E ao longo do 3º ano ele vai apresentar o seu conteúdo científico escrito com as suas unidades produtivas desenvolvidas justamente com a família.

Mostrar o método, o resultado, se ajudou a família. O que os estudantes fazem na universidade, eles já fazem aqui". 

Imagem do Terra de Sabidos

Acesso à universidade

Na EFA, mais de 90% dos alunos são da zona rural e a escola oferta o curso técnico em agropecuária integrado ao Ensino Médio. Um contexto que, durante muito tempo, foi tido como definidor para inibir a busca por acesso à universidade.

Mas, essa percepção já não reflete a realidade, pois, embora o desejo por ingressar no ensino superior não seja algo generalizado entre os alunos, avaliam os educadores, hoje, ele já é bem maior que antes. 

“A gente começou a incentivar e motivar eles para ingressarem na universidade. Para fazer o Enem. Eles estão aqui para serem o que eles quiserem ser. Começamos a plantar essa sementinha, cada um tem um padrinho para incentivar a participar do Enem. No turno da noite tem aulão. Tem incentivo desde o início do ano. E notamos que muitos querem e querem a área das agrárias”. 
Lucélia de Sousa
Diretora da Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos

Nos últimos três anos, segundo dados da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) - contabilizados a partir de 2017 até junho de 2025 -  a  Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos garantiu o ingresso de 8 estudantes - incluindo Julian - no ensino superior. Um quantitativo ainda pequeno, mas que tem se mantido regular a cada ciclo. 

O coordenador da EFA, Cassiano Oliveira, destaca que Julian sempre “foi um aluno muito empenhado” e que ele, assim como os demais estudantes, ao chegar na escola começou a ter a vocação trabalhada.

“Nós buscamos entender a realidade da famílias, se eles sonham, começamos a mostrar para eles as profissões mais acessíveis e as profissões de forma geral”, ressalta. 

Cassiano também garante que os alunos da EFA se formam em um curso técnico, “mas o principal caminho é o ensino superior”. Dentre os cursos que os alunos da unidade têm optado e conseguido acessar estão medicina veterinária, zootécnica e agronomia. Este ano, acrescenta ele, todos os alunos do 1º, 2º e 3º séries irão fazer o Enem. 

“A EFA Padre Eliésio tem conseguido mostrar que uma escola no distrito pequeno, no interior de Ipueiras, ela consegue trabalhar tantas coisas e fazer um papel social muito importante. Os nossos estudantes, o Julian já tá lá, temos outros estudantes que também já passaram, e apreenderam os pilares da educação, a conviver, a ter um protagonismo, a querer, a resolver, e sabemos que conseguimos transformar muitas vidas”, enfatiza. 

Imagem do Terra de Sabidos