Aluna do interior do CE mapeia feminicídios e é premiada na maior feira de ciências do mundo
Mulheres assassinadas por serem mulheres: feminicídios. Um fenômeno violento e aterrorizante que marca a realidade brasileira e cresce no Ceará. Ciente dele e dos prejuízos causados, o que é possível fazer para revertê-lo? Mapear e analisar dados, desenvolver indicadores e estruturar ferramentas capazes de orientar ações estratégicas de prevenção é um caminho, e ele pode ser garantido por meio da produção científica.
Esse é o argumento da estudante da rede pública do Ceará, Yanna Francisca Nogueira Queiroz, 16 anos, que desde o 1º ano do Ensino Médio desenvolve pesquisa científica na Escola Deputado Joaquim de Figueiredo Correia, em Iracema, no interior do estado. Desde 2025, ela se dedica a um estudo sobre a demografia do feminicídio e propõe uma ferramenta capaz de revelar casos fora dos registros oficiais e traçar um perfil mais detalhado das vítimas.
Nesta sexta-feira (15), ela chegou ao ápice do percurso ao conquistar o 4º lugar na categoria Ciências Sociais e do Comportamento na maior feira de ciências e engenharia do mundo para estudantes, a Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), realizada no Arizona, nos Estados Unidos. Ela subiu ao palco diante de uma plateia formada por mais de 1.700 jovens cientistas de mais de 60 países.
Yanna embarcou para a competição no início da semana, levando a ciência produzida no interior no Ceará para o evento, que reúne estudantes do mundo inteiro. Na competição, apresentou o trabalho no salão de exposições e foi avaliada por pesquisadores que consideram, entre outros aspectos, a estrutura da pesquisa, o problema, as hipóteses, os métodos e os resultados.
O Diário do Nordeste publica, em 2026, a quinta edição do projeto Terra de Sabidos, que neste ano tem como foco a produção científica nas escolas públicas do Ceará. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior, como Ocara, Pedra Branca e Iracema, e apresenta iniciativas e projetos de pesquisa desenvolvidos por jovens e professores orientadores que contribuem para a produção do conhecimento e para a resolução de problemas nas mais diversas áreas da ciência, ainda no ensino fundamental e médio.
Percurso da pesquisa sobre feminicídios
Em março de 2026, com a mesma pesquisa, que é da área das ciências humanas, ela foi finalista da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), evento pré-universitário mais prestigiado no país nessa categoria. Na ocasião, o trabalho de Yanna foi um dos oito da rede pública estadual que chegou à final, na edição, que ocorreu na Universidade de São Paulo (USP) e a credenciou para a competição internacional, a ISEF.
A Febrace reúne estudantes do Brasil inteiro, e é promovida pela Escola Politécnica da USP e realizada pela Associação do Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico. No evento, a pesquisa de Yanna sobre demografia do feminicídio foi considerada o melhor projeto do Ceará. Mais uma vez a bandeira do Estado foi erguida no palco onde jovens cientistas anônimos celebram as próprias histórias e esforços.
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Identificar o problema, se inquietar, observar, formular perguntas, criar hipóteses, fazer experimentos, definir métodos, analisar e chegar a resultados. Esse é o caminho que orienta o trabalho de Yanna, filha de comerciantes e moradora do Vale do Jaguaribe. Ao longo desse processo, ela também desenvolve leitura, escrita e análise de dados, lê textos científicos, produz artigos e participa de eventos e competições, tal qual muitos estudantes fazem somente quando ingressam na universidade.
No Ceará, os casos de feminicídio têm aumentado nos últimos anos. Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) mostram que foram registrados 47 crimes em 2025, contra 41 em 2024, 42 em 2023 e 29 em 2022. A violência, que tira a vida de mulheres, se impõe como um grande mal que desafia diversos setores sociais.
Acho que é muito interessante explorar por que acontece o fenômeno do feminicídio e quais são as regiões com maior concentração de casos. Para que a gente possa pensar na criação de, por exemplo, uma Delegacia da Mulher. Porque os números são muito elevados, e eu acho que a gente precisa compreender por que esse fenômeno acontece, como podemos reduzir os casos e também reforçar que isso precisa ser trabalhado. É necessário.
Em Iracema, cidade com pouco mais de 13,7 mil moradores, Yanna é uma das cerca de 6,9 mil mulheres. A pesquisa científica faz parte da sua rotina desde os 14 anos, quando ingressou na rede pública após o ensino fundamental na rede privada, relatou a estudante, em entrevista ao Diário do Nordeste, na própria escola onde parte da pesquisa é desenvolvida. .
Nesse percurso, já passou por temas diversos, como o potencial terapêutico do óleo de tilápia no tratamento da esclerose múltipla e o desenvolvimento de um cálculo matemático para estimar o risco de incêndios em biomas e regiões do Brasil. Ainda assim, a pesquisa sobre o feminicídio, destaca, “foi a que eu mais me dediquei”.
Investigação científica e resultados
No trabalho de pesquisa apresentado na etapa escolar do Ceará Científico e que chegou à final da Febrace, a estudante junto com o orientador Helyson Lucas Bezerra Braz e a coorientadora, Sebastiana Vicente Bezerra, professora na escola, analisou os casos de feminicídio no Ceará entre janeiro de 2022 e junho de 2025 para traçar o perfil das vítimas, identificar onde os crimes ocorreram e em quais circunstâncias.
Como proposta, o estudo também desenvolveu uma uma ferramenta digital baseada em técnicas de inteligência artificial, especialmente processamento de linguagem natural, voltada à coleta e classificação automatizada de dados a partir de textos jornalísticos.
Esse dispositivo foi treinado com mais de 5 mil notícias e passou a identificar dados como idade, cor da pele, local dos crimes e contexto das ocorrências. Em seguida, essas informações foram analisadas com métodos estatísticos e transformadas em mapas, o que ajudou a visualizar a distribuição dos casos no Ceará.
Os dados são de base de órgãos públicos, como a Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública da SSPDS e do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), além de sites de notícias policiais. A partir desse material, os pesquisadores cruzaram informações, calcularam indicadores e analisaram a relação entre os casos e fatores sociais e econômicos.
O levantamento identificou 174 vítimas no período. A maioria dos casos envolveu mulheres negras, e as faixas etárias mais atingidas, conforme a pesquisa da estudante, foram de 31 a 50 anos e de 18 a 30 anos. Quase metade dos crimes foi cometida por companheiros ou ex-companheiros. A Região Metropolitana de Fortaleza concentrou o maior número de ocorrências, e os dados indicam que na distribuição regional, as áreas mais populosas registram mais casos.
Segundo a pesquisa, a ferramenta digital também ajuda a revelar casos que não aparecem nos registros oficiais e oferece um retrato mais detalhado das vítimas. Combinada a análises estatísticas e mapas, a tecnologia, no estudo em questão, é defendida como um elemento que pode contribuir para o planejamento de políticas públicas e para a criação de estratégias de prevenção ao feminicídio.
Participação em competições científicas
Na escola o incentivo à iniciação científica, relata Yanna, começou assim que entrou, quando chegou “cheia de curiosidades em experimentar o novo”. Ela desenvolveu pesquisas no 1º, no 2º e agora no 3º ano. “Nessa do feminicídio, vimos que no Estado do Ceará temos números elevados de casos, principalmente, na grande Fortaleza”, completa.
No decorrer da semana, a rotina se divide entre as aulas em tempo integral, com entrada às 7h e saída às 16h40, e a dedicação a pelo menos dois projetos científicos. No caso da pesquisa sobre feminicídio, à medida que o estudo foi ganhando espaço em eventos científicos, a estudante explica que foi preciso “aprimorar, ampliar o banco de dados e refazer testes”.
Em março, ela e a coorientadora, Sebastiana Vicente, participaram da etapa final da Febrace, em São Paulo, entre os dias 16 e 20. Na feira, que reúne estudantes de todo o Brasil, os jovens pesquisadores se organizam em estandes e apresentam seus projetos em painéis e pôsteres.
As pesquisas são expostas aos avaliadores, com a explicação do problema, da metodologia e dos resultados, além da interação com o público, respondendo a perguntas. Os avaliadores, pesquisadores das áreas dos estudos, circulam pelos estandes, questionam e analisam os trabalhos. No último dia do evento, a lista de vencedores é divulgada em uma cerimônia.
Foi a primeira vez que Yanna saiu de Iracema rumo a outro Estado e a produção científica garantiu essa possibilidade, que ela define como “emocionante”. E foi no palco da USP que ela ouviu que seu trabalho foi: "o melhor do estado naquela Febrace!"
Sobre os recursos da pesquisa, ela explica que faz uso de um computador próprio, e aprendeu a a trabalhar com a linguagem de programação Python, além do Google Colab, “como um ambiente de execução” e algumas bibliotecas digitais. O orientador também ajuda com dicas de curso, a base metodológica e o amadurecimento da pesquisa.
Nas competições científicas, ressalta: “acho que a gente fica muito eufórico e acaba pensando no que meu trabalho pode melhorar para que ele possa ser classificado como melhor. Acho que a gente fica querendo explorar para ver o que pode aprimorar”.
Iniciação científica na escola
Na escola reconhecida na região como uma das instituições de destaque em competições científicas, Yanna avalia que um conjunto de fatores ajuda a consolidar a cultura de pesquisa ano após ano.
Entre eles estão o desejo de parte dos alunos que já ingressaram com vontade de pesquisar e o exemplo de ex-alunos que tiveram êxito em outras competições e as viagens a feiras científicas, que “acabam despertando em cada um a vontade de explorar o ramo científico”. Além disso, encontrar um tema de interesse e um orientador disponível são elementos práticos que viabilizem a ciência dentro da escola. Ela juntou sorte e esforço e se deu bem nesse processo.
A professora Sebastiana Vicente Bezerra, que atua na unidade desde 2013, lembra que quando chegou, a escola já tinha “a fama dos bons projetos científicos”. Após o ingresso, foi convidada pela gestão a começar a orientar pesquisas.
Na época, a rede estadual promovia o Ceará Científico, projeto da Secretaria Estadual de Educação criado em 2007 para incentivar ciência, inovação e pesquisa no cotidiano escolar, organizado em três etapas: escolar, regional e estadual.
A primeira coorientação de Sebastiana ocorreu há 10 anos, relembra, quando voltava de licença maternidade. Dois alunos a procuraram para ajudar em um trabalho científico, que foi credenciado para participar da Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), uma das maiores feiras de ciência e tecnologia da América Latina, realizada anualmente no Rio Grande do Sul. Entre os dois alunos, uma se tornou pesquisadora em Los Angeles.
A partir daí, a professora já orientou ou coorientou pesquisas premiadas em diversos eventos científicos. O sucesso desses projetos rendeu participações em eventos nacionais e internacionais, como em 2019, no Arizona, e em 2024, em Los Angeles, ambos nos Estados Unidos. Agora, ele deve novamente ir aos Estados Unidos, com os dados dos feminicídios no Ceará como foco.
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Sebastiana celebra, mas ressalta que garantir essas participações exige uma política orçamentária consistente, especialmente por parte da Seduc, já que muitos alunos vêm de famílias de baixa renda. “Sem esse suporte, muitas oportunidades de pesquisa e representação em eventos importantes seriam inviáveis”, afirma. Logo, cada viagem, cada feira e cada prêmio ajuda a reforçar a cultura científica, inspirando novos estudantes a se engajar.
Nem sempre a gente consegue. Muitas vezes, trabalhamos com alunos de famílias carentes que não tem realmente condições de pagar uma passagem para São Paulo, por exemplo, muito mesmo para o Rio Grande do Sul, pior ainda para fora do Brasil. Então, essa parceria é muito interessante, porque senão não conseguimos.
Os impactos na aprendizagem, pondera a professora, são visíveis em várias dimensões: na capacidade de investigar, na memorização de conteúdo e no amadurecimento pessoal.
Quando você escuta seu nome sendo chamado, é um choque de emoção: ‘meu Deus, é sério, eu estou aqui!’ Nós somos do interior, escola pública, mas isso não impede de participar. Na Crede 11, na nossa regional, a única escola que já enviou projetos para a ISEF (International Science and Engineering Fair, maior feira pré-universitária de ciências e engenharia do mundo) foi a Figueiredo Correia.
Ela ressalta ainda a importância de iniciativas que barateiam ou custeiam a participação dos alunos da rede pública, considerando as desigualdades sociais. A isenção de inscrição ou o custeio de transporte são citados como formas de garantir que estudantes de famílias mais pobres também tenham acesso a eventos de relevância internacional.
Na rotina de pesquisa, os alunos combinam o tempo das aulas do componente curricular Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais (NTPPS) com horários em casa. “Também uso também os horários dos meus planejamentos e acabo me reunindo com eles para ver o que que precisa ser resolvido. No caso da Febrace, precisa discutir o banner, o diário de campo. O que realmente precisa estar em ordem para não sermos penalizados”, explica.
A cultura de iniciação científica, aponta a professora, já consolidada na escola, é uma marca positiva junto à comunidade e se reflete também nos processos de matrícula. É um atrativo que segue despertando sonhos em uma das menores cidades do Vale Jaguaribe.