Há pouco mais de 7 meses, começava um novo ciclo. Mudança do lugar de moradia, de sala de aula, de hábitos, de transporte, de convivência. A família ficou a cerca de 2,5 mil km de distância. Chegou a hora de “ganhar mundo”, crescer, partir do local onde nasceu movido pelo desejo de entrar na universidade, cursando exatamente o que sempre quis. Essa é a trajetória do cearense Pedro Ricardo Alves Freitas, egresso da rede pública de ensino do Ceará que, após ser aprovado em 3 cursos superiores: na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade Federal do Ceará (UFC) e na Fundação Getúlio Vargas (FGV), optou por morar no Rio de Janeiro e agarrar o sonho que tanto o impulsionou e demandou esforços.  

Quando partiu do Cambeba, em Fortaleza, rumo ao bairro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2025, após ter recém-concluído o Ensino Médio na Escola Profissional Miguel Gurgel, unidade da rede estadual do Ceará, em Messejana, Pedro sabia muito pouco sobre o que o esperava.

Mas, àquela altura, aos 18 anos, já tinha conquistado, além da desejada vaga em Ciência de Dados, uma bolsa de ajuda financeira da universidade onde está cursando e a hospedagem gratuita durante 2 anos. Em Fortaleza, deixou a casa da mãe, com quem morava junto ao irmão de 11 anos. Os pais são separados desde 2018. 

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Legenda: Pedro foi premiado pelo MEC e se encontrou com o ministro Camilo Santana
Foto: Divulgação MEC

O Diário do Nordeste publica em 2025 a quarta edição do projeto Terra de Sabidos que neste ano tem como foco o “destino universidade”. O especial percorre Fortaleza e cidades do interior como Itarema, Ipueiras e Granjeiro, e conta experiências de egressos de escolas públicas do Ceará que acessaram a universidade, seja via Sistema de Seleção Unificada (Sisu) ou Programa Universidade para Todos (Prouni). As experiências apontam quão desafiantes, mas também recompensantes, têm sido as oportunidades que abrem portas e alteram a vida dos jovens e de quem os cerca.

Naquele momento Pedro também já tinha tido êxito em todos os processos seletivos que tentou para ingressar no ensino superior. Mais ainda: após muitos anos de estudos, conseguiu optar entre fazer Ciência de Dados e Estatística na USP, Medicina na UFC, ou Ciência de Dados na FGV. Escolheu a última que é uma universidade privada, bastante renomada no país e já foi eleita uma das mais influentes da América Latina e o 3º think tank mais importante do mundo.

No cenário mais recente, em julho deste ano, Pedro foi um dos 54 egressos da rede pública premiados pelo Ministério da Educação (MEC), em uma cerimônia oficial, por ter conquistado a melhor nota na redação do Enem no Ceará, na rede pública. 

Pedro sabe que teve oportunidades - a partir do empenho e das condições da própria trajetória - ainda pouco frequentes para centenas de alunos da rede pública. Na FGV, ele foi aprovado com bolsa que garante, além da gratuidade da mensalidade, uma renda mensal para custeio das despesas na nova cidade, como um auxílio-moradia, assegurado através do fornecimento de “hospedagem” por parte da universidade. A residência é ofertada gratuitamente nos 2 primeiros anos da graduação. 

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Na Escola Miguel Gurgel, o estudante teve a formação técnica em Informática. A afinidade com o atual curso - Ciência de Dados na Escola de Matemática Aplicada -, destaca ele, já era evidente em diversos momentos da trajetória. Foi esse um dos  motivos para que no momento decisivo ele fizesse a opção que até o momento, diz ele, tem se mostrado acertada. 

A nota obtida por Pedro no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2024 foi de 770 pontos, o suficiente para ingressar em cursos muito concorridos. E foi partindo dessa percepção que ele aproveitou o “momento de glória” para também dar visibilidade à escola que garantiu sua formação na última etapa da educação básica. 

A escola me ajudou muito nesse processo. Quando saiu o resultado do Enem, meu processo da FGV já estava todo encaminhando. Mas, foram anos de esforço e eu queria usar a minha nota do Enem para alguma coisa. Quando eu vi a média de 770 eu vi que conseguia passar em um curso bem disputado. Decidi colocá-lo na UFC porque eu queria dar visibilidade à escola. Coloquei lá para Medicina e para Ciência de Dados. 
Pedro Ricardo Alves Freitas
Universitário e ex-aluno de escola pública

A instituição, conforme já publicado no projeto Terra de Sabidos, tem adotado a meta de fazer com que 75% dos egressos consigam entrar na universidade. A unidade, segundo a direção, tem um público majoritário de alunos de baixa renda.  

Quando a notícia de que ele havia passado em Medicina se espalhou, após uma postagem feita pela escola nas redes sociais, as reações se perpetuaram e a conquista de Pedro ganhou visibilidade. “Muita gente perguntou porque eu não fui cursar Medicina, mas não era minha vocação. Coloquei só para ajudar a escola”, completa.

Imagem do Terra de Sabidos

Experiência na universidade

Na aprovação para a FGV, uma das preocupações da mãe de Pedro, que é servidora pública estadual, era se ele teria “como se manter” em outra cidade. Ele relata que com as ajudas financeiras que recebe da instituição tem conseguido se organizar financeiramente e ainda que seja um desafio residir em outro estado, considera que tem administrado bem essa mudança. 

“Além da bolsa, eles também dão direito a morar em uma espécie de república, que é um hotel cheio de estudantes. Eles dão auxílio financeiro para alunos que não são do Rio, fora a bolsa”, detalha. O estudante reside em um hotel custeado pela universidade.

No local, ele divide quarto com outro estudante e tem direito à higienização do espaço, café da manhã diariamente, roupas de cama. As demais alimentações são custeadas com a verba da bolsa, e o hotel tem espaço para que os estudantes possam, se desejar, produzir refeições como almoço e jantar. 

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Legenda: Post que registram as aprovações de Pedro Ricardo Alves Freitas
Foto: Divulgação Escola Miguel Gurgel

“No começo minha mãe achava até que era golpe. Mas eu expliquei para ela e falei que queria ir. Ela foi entender melhor. Foi conversar com o meu coordenador e viu que era sério”, acrescenta. Quando se mudou, a mãe o acompanhou ao Rio de Janeiro para comprovar as condições nas quais o filho ficaria. 

Pedro mora em um hotel no bairro do Flamengo que concentra só estudantes, e a sede da FGV onde cursa fica em Botafogo, bairro vizinho. A distância é tão curta, relata ele, que o deslocamento entre o hotel e a instituição é feito a pé. 

Tenho aula de manhã. Durante o semestre passado, todo dia começava às 7h30 e ia até 10h50. Fico na faculdade mesmo e volto para casa por volta de 20h em grupo. À tarde, tem vários espaços na faculdade que eu fico usando. Tem laboratórios de informática, biblioteca, livros, salas de estudos. No semestre passado eu não tinha computador e foi bem ruim. Aí eu fui juntando dinheiro. Mas enquanto eu não tinha, eu usava o computador da FGV, e eu fui no órgão que coordena os bolsistas e ele me emprestaram um tablet. 
Pedro Ricardo Alves Freitas
Universitário e ex-aluno de escola pública

Na turma, explica ele, tem alunos bolsistas além do Nordeste, do Sul, Sudeste e Centro Oeste. “Só não tem do Norte”, constata e acrescenta que essa convivência “é muito legal”. “A gente se ajuda muito por conta disso. Tem muita gente longe de casa. Tem gente que tem realidade muito parecida, então a gente compartilha coisas, anda juntos. Se tem uma promoção no supermercado, a gente já indica. Tem toda essa rede, digamos assim”. 

No semestre anterior, Pedro relata que foi aprovado em todas as disciplinas e reforça que a faculdade “é muito mais difícil do que ele imaginava” pelo nível e o rigor.

“Foi um choque inicial, mas eu estava muito determinado a me manter, passar e foram dias que eu estudei muito. Na prova 1 eu não fui tão bem como eu gostaria. O nível da turma é muito alto e tem alunos medalhistas, gente com o nível muito elevado. Eu sou um dos poucos que vêm do colégio estadual. Mas eu foquei e deu pra ter um norte do que eu precisava fazer. Quando chegou a avaliação 2, eu consegui dar um salto. Evoluir”, relata. 

Imagem do Terra de Sabidos

Aluno premiado pelo MEC

Na trajetória escolar, durante o ensino fundamental, Pedro estudou em escola particular até o 6º ano do fundamental. Depois passou pela rede pública, voltou para à privada, até cursar o ensino médio completamente na escola pública estadual. “Não conhecia a experiência da escola profissionalizante”, aponta, até que se deparou com modelo na Miguel Gurgel. 

Ele também destaca que no ensino médio teve a oportunidade de participar de olimpíadas escolares que o ajudaram na formação. Na escola ele também foi líder de sala durante 1º. 2º e 3º ano, além de monitor de matemática. Uma das suas principais incentivadoras, aponta ele, foi a professora de matemática Jéssyka do Santos, que tanto participava quanto o estimulava a se engajar em olimpíadas escolares.

Creio que esse incentivo seja importante para os alunos perceberem que são capazes de aprofundar seus estudos numa determinada área, possibilitando um novo olhar para a disciplina em questão, além de descobrir quais outras áreas de atuação aquele estudo proporciona. É interessante e necessário também explicar aos estudantes quais oportunidades são descortinadas através de premiações em olimpíadas, como programas de iniciação científica, ingresso nas universidades, bolsas de estudos, entre outras.
Jéssyka do Santos
Professora de Matemática

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Jéssyka relatou que Pedro é a pessoa mais gentil que conhece. "Ele foi um dos meus monitores de matemática desde a 2ª série. Auxiliava alguns alunos a estudarem os assuntos que tinham mais dificuldades e para os minitestes, avaliações que eu passava toda semana". Ela o caracteriza como "alguém muito sereno e centrado" e, como isso, "conseguia conversar com alguns colegas e descobrir que habilidades precisavam ser melhoradas e quais assuntos deveriam ter mais tempo”.

A professora também ressalta que o acesso dos alunos da rede pública às universidades tem progredido por meio das políticas públicas que surgiram, bem como pelo apoio e dedicação dos professores da rede.

Para ela, a principal questão a ser trabalhada com os estudantes para possibilitar um aumento no número de ingressantes no ensino superior oriundos de escola pública é “a saúde mental e a autoestima, reforçando as habilidades já conquistadas e trabalhando para apreender algumas das habilidades ainda não adquiridas, mas necessárias para as avaliações externas, mostrando-os que é possível acessar os ambientes de ensino superior, principalmente as universidades públicas”. 

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Outro ponto de celebração da trajetória de Pedro ocorreu em julho de 2025. Ele foi um dos estudantes da rede pública premiados pelo Ministério da Educação, em agosto, por ter alcançado um resultado expressivo na redação do Enem. 

A premiação nacional, que ocorreu pela primeira vez esse ano, foi criada pelo MEC para "reconhecer as estratégias e iniciativas para promoção de avanços na melhoria da qualidade da aprendizagem na Educação Básica". Uma das categorias - a que Pedro foi agraciado - contemplou 54 estudantes concluintes (sendo 2 de cada estado brasileiro) com maior nota na redação do Enem

Imagem do Terra de Sabidos

Incentivos na vida escolar

A mãe de Pedro, Islayne Alves, conta que desde pequeno "ele foi aprendendo gradativamente em cada etapa de sua vida sobre suas pequenas responsabilidades, isso incluía me ajudar nas tarefas domésticas, na luta diária de uma casa sem jamais deixar de ser criança e brincar e buscar a leveza das fases da idade e aproveitar ao máximo isso".

Ao longo da adolescência, no ensino fundamental e médio, aponta ela, "ele foi naturalmente sem aquela pressão por grandes resultados, se tornando um estudante cada vez mais focado no que ele almejava para si, sem perder a ternura e  alegria". 

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Legenda: Pedro na Escola Profissional Miguel Gurgel
Foto: Arquivo Pessoal

Ela relata que a vida toda estudou em escola pública e acredita que o filho era estimulado na unidade onde estudou. "Entendo que a escola pública, como um todo, tem muito a melhorar e crescer, tivemos avanços desde o meu ensino médio, mas precisamos que o estado faça muito mais seu papel com olhar sensível e crítico, especialmente para os bairros mais carentes e onde há muita criminalidade e violência, e isso, muitas vezes, inibe a ida à escola", destaca.

Ela enfatiza que ser aprovado em três grandes universidades aos 18 anos "é lindo" e destaca que Pedro tomou para si suas responsabilidades. "Adquiriu maturidade e aprendeu a se cuidar, fazer a comida e tudo mais que tentei ensiná-lo para não depender mais de mim". Hoje, Islayne diz que eles conversam sobre as transformações todas, e esse diálogo, aponta, é "fundamental para continuarmos em nossas construções e suprindo nossas saudades".

No Rio de Janeiro, Pedro segue aproveitando as oportunidades. Faz curso de inglês, conta que pretende entrar no francês em 2026 e já pensa em quando precisará cursar o estágio. Antes disso, se inscreveu para auxiliar um cursinho popular voltado a alunos que desejam ingressar no ensino superior. Diz que tentará ajudá-los. Um retorno coerente com quem acredita que a educação pode mudar rotas de modo significativo. 

Imagem do Terra de Sabidos