Decorar ruas para a Copa do Mundo transforma lugares de passagem em espaços de encontro
Do Pirambu ao Castelo Encantado, endereços deixam como principal legado da Copa reforçar vínculo entre vizinhos
O menino que parou o racha para pintar o asfalto de amarelo. A dona de casa que comprou bandeira e a estampou no portão de entrada. A idosa em dedicação madrugada adentro enfileirando bandeirinhas em fio de barbante. A Copa do Mundo é no pé, mas feita por muitas mãos. Ruas, avenidas, comunidades e bairros inteiros parecem evocar outro tipo de torcida: aquela construída na coletividade, no vínculo fortalecido entre os pares.
Tingir endereços de verde e amarelo, no fim das contas, parece pretexto para reforçar elos. Ou vê-los nascer. “A gente brinca dizendo que é a época da união. Até quem não se fala na rua passa a trocar uma ideia na hora de decorar”, conta Gleisiane Rodrigues. Foi o que aconteceu neste ano no Pirambu, em Fortaleza, lugar de morada da influenciadora digital.
Há exatamente um mês antes do primeiro jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo 2026, realizado neste sábado (13), uma das ruas mais famosas do bairro, a Santa Inês, se mobilizou para revitalizar a belíssima tradição gestada de quatro em quatro anos. Se, no começo, conforme Gleisiane, havia certo desânimo em decorar o local, bastou o pai dela, líder comunitário da comunidade, comprar galões de tinta, para todo mundo cair no gosto de novo.
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“Na hora que um precisava de pincel, outro vinha para ajudar. Teve dia que amarramos e colocamos bandeirinha até umas 2h da manhã. Todo mundo se uniu, foi uma corrente, realmente. Quanto mais pessoas pudessem ajudar, melhor. Eram muitos desenhos e detalhes, poderia ficar cansativo, e só podíamos terminar logo se todos chegassem junto”.
A força-tarefa deu resultado: em 15 dias, o que era paisagem desgastada virou tonalidade viva. Três quarteirões totalmente decorados, do chão ao céu. Imagens aéreas dão conta da dimensão, e revelam a força do esforço coletivo, capaz de inspirar até quem não mora na rua ou que, porventura, fez resistência em colaborar no início do processo, mediante cota de R$ 10 por pessoa. “Acho que a consciência deles pesou ao ver tudo tão lindo”, brinca Gleisiane.
“Foram de 30 a 40 pessoas ajudando, entre crianças, adolescentes, adultos e até idosos. Lembro que, na Copa do 7 a 1, tava uma festa linda, com cadeira, mesa e tudo no meio da rua. E, aí, veio aquele resultado. Mesmo assim, nessa Copa a gente quis decorar tudo de novo. É realmente um investimento, muito trabalhoso. Pintamos no sol e, às vezes, quando terminávamos, vinha uma chuva. Tem que ser brasileiro mesmo pra aceitar o desafio”.
Futebol como construção da identidade
Há justificativa para tamanha movimentação: no Brasil, o futebol se entrelaça com a construção histórica do imaginário e da identidade do que significa ser brasileiro. Em um país tão vasto e culturalmente diverso, o reconhecimento internacional do País como uma das potências futebolísticas desde 1958 – quando do primeiro título mundial no esporte – contribui para nos tirar do que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-lata”.
A explicação é do sociólogo Leonardo Vasconcelos, professor adjunto do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece). O complexo citado pelo estudioso diz respeito ao sentimento de inferioridade construído frente ao discurso colonialista de que países situados na periferia do capitalismo e racialmente miscigenados são menos capazes que nações mais centrais.
Nesse sentido, segundo o antropólogo Roberto Da Matta, o futebol, assim como o carnaval, promove, mesmo que temporariamente, a suspensão dessa identidade periférica, colocando os celebrantes – no caso, nós – no palco principal do esporte e da festa.
“As identidades culturais são uma espécie de costura entre as imagens públicas individuais e coletivas. Megaeventos como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas são oportunidade para que esse jogo de construção de identidades culturais se dê a partir de uma audiência global”, diz Leonardo. Ou seja, a idéia de nação ou da imagem que ela representa se dá no confronto com outras nações do mundo, sendo o esporte, neste momento, um dos principais palcos dessa construção de discursos identitários nacionais.
“A idéia de ‘pátria de chuteiras’ tão consolidada no País em copas mobiliza as pessoas justamente por que é um evento de audiência global onde o Brasil se destaca historicamente como o maior vencedor. E isso é algo que mobiliza organizações sociais e indivíduos nelas inseridos, no sentido de exaltar e valorizar essa imagem pública”.
Por que a periferia se empenha mais em decorar ruas
Há outro ponto importante a considerar quando o assunto é decorar ruas para a Copa do Mundo: esse empenho ocorre, sobretudo, na periferia das cidades, e em Fortaleza não é diferente. No Pirambu mesmo, além de todo o trabalho na já citada rua Santa Inês, haverá churrasco, cerveja e telão para acompanhamento coletivo da transmissão dos jogos do Brasil.
“Se Deus quiser, vamos comemorar muito porque também terá som automotivo. Nos organizamos pra deixar a festa bem linda. Até quem não gosta de futebol, na Copa se joga e se engaja”, gargalha Gleisiane. “Espero que venha um bom resultado. É tão cansativo, tão trabalhoso, o pessoal se dedicou tanto… Vamos ficar na torcida”.
Para Leonardo Vasconcelos, a coesão social dos bairros periféricos na Capital é estruturada pela co-dependência dos cidadãos frente às celebrações e às lutas diárias que a população tem em comum – seja a partir de celebrações religiosas ou de pagãs, como o carnaval; na busca por melhorias em infraestrutura urbana; ou na luta por moradia digna.
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“Essa unidade comunitária é incentivada a partir desses momentos. De outro lado, nos bairros mais ricos da cidade, é hegemônica a perspectiva individualista. A convivência comunitária pontual se dá em espaços exclusivos, como condomínios fechados, onde essas demonstrações coletivas muitas vezes ocorrem. Nesse sentido, não é que as elites não se manifestem em relação ao ‘espírito da Copa’. O que ocorre é que tais celebrações de identidade se dão em espaços mais exclusivos”, observa.
Entre os bairros mais famosos na iniciativa de decorar espaços para a Copa, na visão do pesquisador, estão Pirambu, Conjunto Ceará, Carlito Pamplona, entre outros do mesmo perfil, nos quais a preparação para o jogo e para a festa nos dias de partidas do Brasil se transforma em carnaval fora de época.
A oportunidade de suspensão da identidade “periférica” transforma-se, assim, conforme o sociólogo, em evento comunitário de celebração do protagonismo brasileiro no palco de um acontecimento global – felizmente, com possibilidade de colorir tudo.
Ocupar a rua, dissipar preconceitos
Colorir, inclusive, a realidade. Para além de deixar tudo mais vistoso, a sensação de segurança e paz nesses endereços aumenta. Mais: dissolve o cruel estereótipo que muitas vezes paira sobre eles, de medo e perigo.
“Durante muito tempo, o que chegava aqui eram equipes de reportagem pra mostrar coisa ruim; hoje estamos mostrando o lado bom da comunidade, que tem união, diversão, pessoas boas. É motivo de muita felicidade. Quebra um certo preconceito de achar que aqui só tem criminalidade. Agora, virou ponto turístico. Graças a Deus, hoje em dia nosso bairro está bem mais tranquilo, vivemos em paz, podemos ir e vir. Vale a pena conhecer”, celebra Gleisiane.
Em frente à praia do Mucuripe, moradores do Castelo Encantado igualmente festejam esse passo: é outro ponto obrigatório de visita em Fortaleza durante a copa. A luminosa – e, agora, coloridíssima – escadaria que dá acesso ao bairro tornou-se cartão de visitas para quem deseja desbravar a fundo o território.
Ela é apenas ponto de partida, porém. Cada rua e esquina – com intervenções, por vezes, no meio do caminho – demonstra a eficácia da dedicação comunitária, a beleza das mãos juntas. “A ideia começou há 16 dias, quando um dos moradores, Walisson, teve a ideia de fazer uma simulação de como a pracinha da entrada do Castelo Encantado ficaria se fosse decorada para a Copa”, conta o fotógrafo Warley Cavalcante de Oliveira, também habitante do local.
O passo seguinte foi publicar em um dos perfis mais famosos do bairro, nas redes sociais – algo que despertou interesse de inúmeras pessoas, empenhadas em fazer o sonho acontecer. “Tivemos muitos apoiadores, de moradores a empresários locais. Quando tudo começou a acontecer, fiz algumas fotos, e elas também viralizaram. Foi quando ganhou uma proporção ainda maior, e mais pessoas começaram a aparecer”.
O resultado são artes produzidas por nomes da própria comunidade – caso do muralista Berin, famoso por painéis com desenhos entre o humano e o espiritual – e dignas não apenas de registro, mas de enaltecimento do vigor coletivo. Quando todos se unem, a graça se expande. “Foi a primeira vez que fizemos isso, de pintar inclusive as escadarias. Já tínhamos pintado ruas pequenas, mas a praça foi uma estreia”, conta Warley.
“Geralmente as pessoas sujam os lugares, mas, com essa iniciativa de colorir, foi tudo muito surpreendente. Todo mundo chegou junto, colocou a mão na massa; pessoas que nunca imaginamos que poderiam nos ajudar, assim fizeram. Cada um contribuiu com o talento que tinha, uma coisa que tinha, e isso muda um pouco a vivência do bairro”.
Em resumo, favorece inclusive setores como turismo comunitário – conforme Warley, pessoas de diferentes partes de Fortaleza percorrem as escadarias agora para ver de perto a decoração do bairro; economia, haja vista o investimento de moradores na abertura de quiosques, ampliando a renda; entre outros segmentos.
“O que a população ainda espera é a ajuda do poder público. Ainda há muito para fazer – falta iluminação, trocar o corrimão das escadarias… Nossa comunidade tem um potencial turístico muito grande, temos uma vista incrível, de frente pro mar, e todo esse momento é prova disso”. Não à toa, a semente germinada para que, em outros instantes e efemérides do mundo, todos deem as mãos novamente e se percebam maiores e melhores em conjunto.
É o que torce Warley, em nome da geral: “Se tivéssemos ao menos o apoio do poder público, no sentido de uma revitalização, daria para ter um norte para próximas iniciativas. Porque a pintura passa; se houvesse uma revitalização total, aí sim seria melhor. Dá pra ver a união, dá pra ver que a galera quer valorizar o espaço que tem. Mas, infelizmente, ainda não temos tanta ajuda assim”.