Mesmo sem casos, CE cria novo protocolo para monitorar Febre do Nilo

Doença transmitida pela muriçoca no Estado teve o único registro em um cavalo no ano de 2019.

Escrito por Redação ceara@svm.com.br
16 de Agosto de 2026 - 07:00
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Legenda: Mosquitos do gênero Culex, popularmente conhecidos como pernilongos ou muriçocas, são vetores do vírus da Encefalite e a Febre do Nilo.
Foto: Nechaevkon/Shutterstock.

Uma nova nota técnica com orientações para a prevenção e vigilância do vírus da Febre do Nilo Ocidental (FNO) e da Encefalite de Saint Louis — doenças caracterizadas por febre aguda e manifestações neurológicas —, foi publicada pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) no mês de julho. Porém, conforme a Pasta, a publicação não significa a identificação de novos casos ou de surto no Estado.

Essas arboviroses têm em comum a transmissão por mosquitos de gênero Culex — a muriçoca tradicional  — infectados pelos vírus do gênero Flavivirus e que possuem o mesmo hospedeiro: aves silvestres.

Elas mantêm o agente infeccioso circulando no sangue por até três meses, podendo propagar para animais e humanos.

O único caso registrado no Ceará da FNO foi em 2019, quando um cavalo do município de Boa Viagem, no Sertão Central, foi diagnosticado após morrer subitamente em decorrência da infecção viral aguda. Desde então, não há ocorrências confirmadas em pessoas no Estado

Nos humanos, a Febre do Nilo Ocidental e a Encefalite de Saint Louis podem se manifestar de forma assintomática até sintomas neurológicos graves, como rigidez na nuca e convulsão.

Além disso, a presença dos potenciais vetores no território, a mobilidade humana e as mudanças ambientais são fatores que reforçam a necessidade de monitoramento e resposta rápida a possíveis surtos. 

A Sesa salienta ainda a importância da sensibilização dos profissionais de saúde para identificar casos suspeitos. Ao Diário do Nordeste, a Pasta destaca que já existiam orientações relacionadas à FNO desde 2019, e a atualização deste ano integra um “processo contínuo de aprimoramento” da monitorização. 

“A publicação deve ser entendida como medida de preparação e fortalecimento da vigilância, buscando sensibilizar os profissionais para a identificação de casos suspeitos, orientar a coleta e o encaminhamento adequado de amostras, e possibilitar a detecção precoce de eventual circulação desses vírus”, diz em nota. 

Até o momento, segundo a Sesa, o Ministério da Saúde não emitiu nota técnica ou comunicado aos Estados sobre a ocorrência de casos de FNO em 2026.

O que é a Febre do Nilo (FNO)?

A arbovirose foi descrita inicialmente em 1937 em Uganda e já foi responsável por epidemias em diferentes países.

Segundo o Ministério da Saúde, a infecção viral pode ser assintomática ou variar de sintomas leves, como febre passageira, cansaço extremo e dor muscular, até casos mais severos com sinais de acometimento do sistema nervoso central (SNC) ou periférico. 

Ainda conforme a Pasta federal, cerca de 20% dos infectados desenvolvem sintomas entre o segundo e 14º dia após a contaminação.

Um em cada 150 indivíduos infectados evolui para doença neurológica severa como meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda. 

É possível ainda que apareçam sinais como:

  • fraqueza
  • sintomas gastrointestinais
  • alteração no “padrão mental”
  • manchas vermelhas na pele
  • perda de equilíbrio e de coordenação motora
  • convulsão 

Somente dois casos foram registrados em humanos no Brasil. As duas ocorrências se deram no estado do Piauí: uma em 2014, no município de Aroeiras do Itaim, e outra em 2019, na cidade de Picos. 

A confirmação da doença ocorre por meio da detecção de anticorpos contra o vírus do Nilo Ocidental em soro ou no líquido da espinha. Conforme o Ministério da Saúde, a abordagem sindrômica (com base em sinais e sintomas visíveis) é a mais indicada para a vigilância da FNO. 

Até o momento, não existe vacina ou terapia antiviral específica para a Febre do Nilo Ocidental. É feito, então, o tratamento dos sintomas e assistência ao paciente, que deve permanecer em repouso e com reposição de líquidos.

Nos casos mais graves, o paciente deve ser atendido em uma unidade de terapia intensiva (UTI) para reduzir as complicações e risco de óbito. 

Equinos podem ser infectados com a doença e desenvolver problemas neurológicos.
Legenda: Equinos podem ser infectados com a doença e desenvolver problemas neurológicos.
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

No ano de 2019, vários equídeos morreram em diferentes municípios cearenses, o que levou a uma investigação epidemiológica pela Sesa em parceria com a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri). 

Amostras de tecido nervoso de animais mortos foram encaminhadas ao Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA), em Pedro Leopoldo (MG) para diagnóstico. A única confirmação veio, então, de um equino de Boa Viagem

O que é a Encefalite de Saint Louis?

Já o vírus da encefalite foi identificado, pela primeira vez, entre 1967 e 1969, em São Paulo, mas os casos de infecção só foram registrados em 1978 no Pará e em 2005 em São Paulo.

A Sesa destaca que o agente infeccioso é detectado esporadicamente em “pesquisas retrospectivas em amostras de animais e de casos humanos oriundos de programas de vigilância sindrômica”.

Assim como o vírus da FNO, a maioria dos casos é assintomático ou apresenta sintomas semelhantes aos da gripe, como fadiga, dores de cabeça, náuseas, vômitos e dores no corpo.

No caso dessa enfermidade, os humanos são hospedeiros acidentais que contraem a doença, mas não são capazes de passar para outros mosquitos e perpetuar a cadeia de transmissão. A maioria dos pacientes recupera-se espontaneamente sem progressão para a inflamação do cérebro.

Como prevenir as doenças?

Sem vacinas recomendadas, é preciso que a população realize a proteção individual com o uso de repelentes e evitar se expor aos vetores.

Assim como a dengue, é indicado adotar ações como evitar água parada e locais sem saneamento básico e não despejar lixo em valas, valetas, margens de córrego, rios e riachos. 

Em relação à vigilância animal, se houver registro de sintomas neurológicos, é preciso notificar imediatamente o Ministério da Saúde. Qualquer pessoa, seja profissional da saúde ou não, pode registrar a morte ou adoecimento de aves silvestres e equídeos possivelmente infectados no aplicativo SISS-Geo.

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