A cidade de Sobral é famosa nacionalmente pelos elevados índices educacionais. Porém, para muitos cearenses, ela também é reconhecida pela associação com os Estados Unidos, rendendo-lhe até o apelido de “Estados Unidos de Sobral”. A relação é histórica e envolve elementos culturais, econômicos e arquitetônicos, além de um toque do bom humor cearense.
Relatos não oficiais indicam que a ligação começou após a cidade adquirir unidades dos tradicionais ônibus escolares americanos, ainda na década de 1990. De cor amarela e lataria com letreiros originais com a palavra “school” — termo em inglês referente a “escola” —, os veículos rodavam pelas vias locais.
Outro fator que teria contribuído seria a existência de diversos restaurantes inspirados em estabelecimentos estadunidenses, além da prática de beisebol por residentes do município — esporte popular nos EUA.
Porém, não foram apenas esses componentes que originaram a relação, mas, sim, um conjunto de aspectos, como explica o historiador e colunista do Diário do Nordeste, P.A. Damasceno.
Vários elementos, em momentos diferentes da história, foram sendo agregados para criar essa imagem de Sobral como o nosso Estados Unidos.”
Relação entre Sobral e EUA é antiga
O mais antigo fator ocorreu ainda no século XIX, com um marco na relação comercial entre as duas localidades. Na época, o Ceará se destacava pelo cultivo de algodão, e os Estados Unidos precisaram adquirir o produto devido ao desabastecimento durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) — conflito entre as regiões Norte e Sul do país —, apesar de também serem cotonicultores.
Para ter acesso à commodity cearense, muitos navios estadunidenses recorriam ao porto do município de Camocim, a cerca de 125 km de Sobral, por onde era escoada a produção da região sobralense. Contudo, os registros históricos apontam que os EUA só passaram a influenciar diretamente a cidade durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Segundo o historiador, muitos estadunidenses desembarcaram no Ceará no período, quando Fortaleza sediou uma base militar americana. Em paralelo, Sobral realizava preparações e treinava parte da população para o conflito.
Origem dos Estados Unidos cearense
Apesar do intercâmbio bélico, P.A. Damasceno ressalta que não foi a presença dos americanos, nem mesmo o comércio de algodão, que originou o título de Estados Unidos cearense, mas, sim, a própria cultura “moleca” da população do Estado, que comparava a “sofisticação e a organização sobralense” com o protagonismo da nação americana.
Essa imagem, na verdade, é uma marca do humor, da chacota cearense, porque se teria começado a chamar Sobral de 'Estados Unidos', porque Sobral era o polo do Norte, a cidade mais importante. Isso teria começado como uma brincadeira, mas acabou se incorporando e consolidando após a Segunda Guerra.”
Com a criação da alcunha, o especialista afirma que figuras políticas da região passaram a reforçar a relação entre as localidades, principalmente usando símbolos americanos para ilustrar a modernidade do município, como os ônibus escolares citados anteriormente. “Em política, imagem tem muito peso.”
Sobral também tem outro apelido
Antes de ser conhecida pela relação com os Estados Unidos, a cidade já tinha outro título: “Princesinha do Norte” ou “Princesa do Norte”. A alcunha reconhece, segundo o historiador, o papel de centro de poder, de cultura e de comércio da localidade, que, ao longo dos séculos, serviu de eixo conector para a região Norte do Ceará.
Sobral ganha esse nome pela importância política e econômica que desempenha. Inclusive, também está associada a isso essa brincadeira de Estados Unidos, porque Sobral é a importância.”
Antes mesmo de ser um dos polos de apoio para o Porto de Camocim, durante os anos áureos de exportação do algodão, o município já funcionava como um ponto de confluência de rotas desde o período colonial, no século XVIII, época que conectava trajetos que seguiam ao Maranhão, via Piauí, e os que desciam rumo ao Rio Jaguaribe.
"Como todos os caminhos levavam à Sobral, e o rio Acaraú era esse eixo conector, a cidade foi ganhando cada vez mais relevância econômica. E, durante muito tempo, foi a segunda força econômica do Estado."
Arquitetura sobralense tem elementos inspirados nos EUA
Muitos prédios e casas históricas da cidade possuem características arquitetônicas europeias, como o Arco de Nossa Senhora de Fátima, estrutura instalada em uma das principais praças e que é inspirada no Arco do Triunfo de Paris, na França, conforme informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Porém, ao contrário do que possa se concluir, nem todas as edificações antigas de Sobral remetem ao continente europeu. Na verdade, as ruas locais guardam muitos imóveis com referências à arquitetura oficial adotada pelos Estados Unidos no passado: o neocolonial estilo missão.
É o que conta o arquiteto David Leal, que, durante a dissertação de mestrado, mapeou as casas que seguem o estilo no município. “O sítio histórico [de Sobral] e o próprio processo de tombamento não levam em consideração a arquitetura produzida em meados do século XX, que pode ser inserida dentro do ecletismo, que é esse estilo missão”, explica ao Diário do Nordeste.
São esses bangalôs, essas casinhas, que são soltas no lote, ficam rodeadas de jardim e têm aquelas varandinhas. São bem diferentes da casa de porta e janela típica da arquitetura luso-brasileira.”
Segundo o especialista, na época, essa linguagem arquitetônica foi incorporada pelo país norte-americano como o design oficial e estava presente em edifícios institucionais e nos cinemas, passando a ser usada como propaganda cultural e de hegemonia dos Estados Unidos.
Devido à influência global da nação no pós-Guerra, o estilo passou a ser adotado e propagado por arquitetos e revistas especializadas, além dos filmes, e chegou aos profissionais que atuavam no mercado sobralense, entre eles os construtores Falb Rangel e Pedro Viana Madeira.