O que tem no ponto mais alto do Ceará? Conheça o Pico da Serra Branca

Local de maior altitude do Estado oferece vista panorâmica aos visitantes.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
11 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: No topo do Estado é possível observar a extensão da Serra das Matas, uma das futuras montanhas do Ceará.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Catunda.

Que tal fazer um desafio de conhecimentos gerais? Cite qual é o maior pico do Ceará. Se a sua resposta for o Pico Alto, em Guaramiranga, ela está errada. Na verdade, o ponto mais alto do Estado está em Catunda, no Sertão dos Crateús, e é conhecido como Pico da Serra Branca.

A altitude exata do ponto culminante varia conforme a fonte. Enquanto o Município afirma que a estrutura tem 1.154 metros, os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o topo está a 1.130 metros acima do nível do mar.  

A crista dessa formação geológica é marcada por um monólito — estrutura composta por uma única rocha — cravado com uma cruz, de onde é possível observar uma paisagem panorâmica da região. 

A 293 quilômetros da capital Fortaleza, a estrutura integra a Serra das Matas, uma das futuras montanhas cearenses, e é 18 metros mais alta que o Pico Alto, que é o segundo ponto de maior altitude do Estado, localizado no município da região do Maciço de Baturité, de acordo com o órgão estatístico. 

Inclusive, essa diferença, equivalente a um prédio de seis andares, nem sempre foi conhecida pelas autoridades. O reconhecimento do Pico da Serra Branca como cume do Ceará é algo relativamente recente, como conta ao Diário do Nordeste o professor e pesquisador de Geografia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Frederico de Holanda Bastos. 

“Antigamente, acreditava-se [que o ponto culminante] era o Pico Alto. Mas, com o avanço da topografia, dos dados de topografia global, chegaram à identificação de que o Pico da Serra Branca é um pouco mais alto”, explica o especialista, citando a ciência que estuda, mede e descreve a superfície da Terra.

Embora venha a se tornar em breve o Estado mais montanhoso do Nordeste, o Ceará não abriga o pico mais alto da região. Na verdade, este título pertence ao Pico do Barbado, na Bahia, com 2.033,3 metros. A nível nacional, quem lidera a lista de maiores picos é o Amazonas, com os 2.995,3 metros do Pico da Neblina, ainda segundo o IBGE. 

O que tem no pico mais alto do Ceará?

O ponto culminante do Estado abriga um mirante natural, formado por um monólito, de onde é possível apreciar uma vista panorâmica da Serra das Matas, especialmente da zona rural catundense e da área urbana do município vizinho, Monsenhor Tabosa. No cume, um crucifixo de madeira marca o topo. 

“Você se sente realmente nas nuvens”, define o ouvidor municipal Marlon Farias sobre a experiência de observar a paisagem a partir do pico. Natural de Catunda, ele já escalou a estrutura geológica algumas vezes. 

É um visual incrível, único. Você vê realmente que aquele ponto é bem elevado.”
Marlon Farias
Ouvidor municipal
 

Turistas e residentes da região costumam subir ao ponto mais alto do Estado.
Legenda: Turistas e residentes da região costumam subir ao ponto mais alto do Estado.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Catunda.

A atração principal do Pico da Serra Branca são os atributos ecológicos, destaca o agente de saúde Pedro Magalhães, que já o visitou ao menos duas vezes. "É importante ter a consciência de que não é um lugar com estrutura, com um restaurante, por exemplo. É uma formação rochosa no meio da natureza."

Apesar do aspecto natural, ele alerta que o local possui algumas intervenções humanas fruto de vandalismo. “As pessoas que visitam costumam escrever o nome na cruz ou até mesmo na pedra do local.”  

Formada há cerca de 600 milhões de anos, a Serra das Matas é um maciço residual granítico, ou seja, de granito — rocha magmática resistente —, que foi moldado pela erosão ao longo dos séculos, como detalha o especialista em Geografia.

“No Ceará, esses granitos têm uma origem associada a um grande evento tectônico que ocorreu no final do Pré-cambriano, mais especificamente no período Neoproterozoico, chamado Orogênese Brasiliana, que foi o encontro de duas grandes placas tectônicas, a da América do Sul e a da África. É uma geológica muito antiga”, explica Frederico.

Embora seja explorado por turistas e moradores da região, o pesquisador da Uece afirma que o potencial geoturístico da área é pouco conhecido. Por ser composta majoritariamente por granito, que é uma rocha resistente capaz de gerar formas de relevo muito específicas, a localidade pode abrigar estruturas visualmente atrativas.

Por exemplo, Quixadá tem um relevo granítico muito conhecido. Então tem uma série de microformas graníticas que acabam sendo atrativos turísticos, mas não chegamos a inventariar se existe essa grande quantidade na Serra das Matas. Mas o granito, por si só, já tem esse potencial.”
Frederico de Holanda Bastos
Professor e pesquisador de Geografia da Uece

O município do Sertão Central citado por Frederico de Holanda Bastos possui diversos monólitos famosos, entre eles a Pedra da Galinha Choca, uma geoforma que se assemelha a uma galinha localizada às margens do açude Cedro — primeiro reservatório artificial do Brasil

Como chegar ao Pico da Serra Branca?

É possível acessar o topo do Ceará por dois trajetos: partindo do município de Catunda ou de Monsenhor Tabosa. A segunda opção é a mais indicada por Marlon Farias e Pedro Magalhães, devido à estrutura mais acessível. 

À reportagem, eles relatam que, saindo da sede da cidade taboense, é necessário se deslocar cerca de 9 quilômetros até o distrito de Serra Branca, na zona rural catudense. A partir desse ponto, só é possível seguir a pé.

A caminhada de 20 a 30 minutos, de aproximadamente 1 quilômetro, inclui trechos de mata rasteira e densa, em que os visitantes podem observar exemplares de árvores como a barriguda (Cavanillesia umbellata), espécie típica da caatinga, como ressalta o docente da Uece.

Sobre vestimenta, os residentes da região aconselham que os visitantes usem calçado fechado e roupas confortáveis. Como no cume o vento é intenso, Pedro Magalhães ainda recomenda que o ideal é levar um casaco devido à possibilidade de frio.

Já em relação à dificuldade, o agente de saúde destaca que a trilha exige condicionamento físico, principalmente nos metros finais, em que é necessário escalar algumas rochas.

A parte de terra vai numa crescente suportável. Agora, quando chega pedra mesmo, que você tem que fazer a escalada, aí é um paredão. Idosos não conseguem fazer isso tranquilamente."
Pedro Magalhães
Agente de saúde

Alguns trechos da caminha são íngremes e exigem a escalada de rochas.
Legenda: Alguns trechos da caminha são íngremes e exigem a escalada de rochas.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Catunda.

Outro elemento que eleva a complexidade do trajeto, principalmente na descida, é a carência de infraestrutura que facilite o deslocamento, como escadas, muros de contenção ou passarelas, por exemplo. Recentemente, instalaram uma corda para ajudar a subir o monólito do topo, conta Marlon Farias.

"Descer é mais difícil do que subir, pois não tem nenhuma estrutura, não tem nenhuma corda, não tem nada assim: você vai livre", explica Pedro Magalhães, acrescentando que mantimentos como comida e água também devem ser providenciados pelos próprios visitantes.   

Embora a trilha seja sinalizada com placas que indicam, em ordem descendente, a distância até o Pico da Serra Branca, as duas fontes frisam que o trajeto não deve ser feito sem o auxílio de um guia. Apesar da recomendação, Catunda e Monsenhor Tabosa não dispõem de um serviço oficial, público ou privado, de guia para o local.

Ao Diário do Nordeste, a Prefeitura catundense informou que está elaborando um projeto de infraestrutura para aprimorar o acesso, a sinalização e a estrada até o pico, enquanto estuda investir em políticas de valorização cultural e de visibilidade da formação geológica. 

Paisagem muda a depender da estação

Além de estar em uma altitude superior à do Maciço de Baturité, a estrutura no Sertão dos Crateús tem vegetação totalmente distinta. Enquanto o Pico Alto abriga pontos remanescentes de Mata Atlântica, proporcionando paisagens verdes o ano inteiro, o Pico da Serra Branca é coberto por mata seca e caatinga, que adquirem tons verdes no período de chuvas, mas coloração esbranquiçada na estação seca, conforme a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema). 

A diferença é explicada pela longa distância da Serra das Matas do litoral cearense, que faz com que a região seja pouco influenciada pela umidade dos ventos oceânicos, aponta Frederico de Holanda Bastos. 
 

“Essa questão da altitude do relevo não justifica a umidade, por exemplo, que a gente vê no Maciço de Baturité. Pelo fato de ser mais alto, a temperatura é um pouco menor, mas, do ponto de vista pluviométrico, não tem aqueles totais tão elevados como se constata, por exemplo, em Baturité, Aratanha e Maranguape, que são maciços pré-litorâneos. Então, é uma serra seca ou, pelo menos, subúmida”, detalha o pesquisador. 

Essa mudança marcante na paisagem, causada pela vegetação, proporciona experiências distintas a quem visita o cume, a depender da época do ano. Enquanto nos meses de janeiro a maio, geralmente, é possível observar uma mata mais densa e temperaturas mais amenas, o cenário se transforma de junho a dezembro, como relata Pedro Magalhães. 

“No inverno [quadra chuvosa] costuma ficar bastante nublado no topo, o que impede quase toda a vista e faz frio. Já na época do verão [estação seca], a paisagem fica mais limpa”, detalha, acrescentando que, para ele, o ideal é escalar o pico após o período chuvoso, a partir do mês de junho, e no turno da manhã.

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