De Baturité a Meruoca: serras ‘viram’ montanhas e CE passará a ser estado mais montanhoso do NE

Conheça quais são as novas formações e que efeitos a mudança poderá ter na prática.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
(Atualizado às 16:17)
Imagem mostra relevo montanhoso do Maciço de Baturité, no Ceará.
Legenda: O Maciço de Baturité é uma região úmida que inclui cidades como Guaramiranga e Pacoti.
Foto: Thiago Gadelha.

O Ceará se tornará o estado mais montanhoso do Nordeste, a partir do segundo semestre deste ano. A mudança acontece devido ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que atualizará as categorias de relevo do País, reclassificando algumas estruturas geológicas por meio do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevos (SBCR).

Embora a Bahia tenha a maior área absoluta de montanhas da região, a geógrafa Rosângela Garrido, membro da Gerência de Mapeamento dos Recursos Naturais do órgão federal, explica ao Diário do Nordeste que o território cearense liderará o ranking devido à proporção entre a extensão dessas formações e a área total estadual.

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Com a reclassificação, passarão a ser consideradas montanhas pelo menos sete estruturas geológicas cearenses. São elas:

  • Maciço de Baturité;
  • Maciço de Pereiro;
  • Serra da Aratanha;
  • Serra da Meruoca;
  • Serra da Taquara;
  • Serra das Matas;
  • Serra de Urubetama.

Apesar de serem exemplos de formações que assumirão o status de montanha, Rosângela Garrido frisa que a lista ainda não está fechada e poderá sofrer alterações até ser divulgada oficialmente

Até então, essas estruturas eram classificadas como planaltos, como detalha o professor Rafael Moreira, que leciona Geografia e Atualidades em turmas de pré-vestibular. Porém, ganharão o status de montanha com a alteração na taxonomia — área da ciência que organiza, classifica e hierarquiza elementos do espaço em categorias — do sistema de relevo do Brasil. 

Vista aérea da paisagem verdejante e montanhosa do Maciço de Baturité, no Ceará. A imagem mostra o relevo coberto por vegetação sob céu com nuvens carregadas e feixes de luz solar, ilustrando uma das formações geográficas classificadas como montanhas pelo IBGE.
Legenda: Caracterizada por uma vegetação de Mata Atlântica, a APA do Maciço de Baturité tem uma área de 32.690 hectares.
Foto: Divulgação/Sema.

Devido à atualização, o País, que hoje possui três categorias de relevo principais — planaltos, planícies e depressões —, passará a ter cinco: planaltos, planícies, montanhas, tabuleiros e superfícies rebaixadas. Segundo Rosângela Garrido, as novas nomenclaturas não incluirão mais depressões, que serão incorporadas como uma forma de superfície rebaixada.  

Para a especialista do IBGE, as alterações são reflexos do avanço científico na área, proporcionado por novas metodologias, equipamentos e imagens de resoluções mais altas. Isso muda, inclusive, a forma como alguns temas de Geografia são ensinados na escola. 

A ciência geomorfológica está evoluindo, assim como todas as demais ciências, e o ensino dela nas escolas, a partir do relevo brasileiro, precisará ser atualizado.”
Rosângela Garrido
Geógrafa IBGE

O que a reclassificação mudará na prática?

Atualmente, três das futuras montanhas cearenses estão localizadas em Áreas de Proteção Ambiental (APAs), conforme dados do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE): enquanto o Maciço de Baturité e a Serra da Aratanha são regiões de proteção estadual, a Serra da Meruoca é uma unidade de conservação federal. 

Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), APAs são mecanismos que visam proteger a diversidade biológica e regular a ocupação para garantir o uso sustentável dos recursos naturais.

Para Rosângela Garrido, o reconhecimento de formações como as cearenses como montanhas pode facilitar o fortalecimento de políticas de conservação e de preservação das regiões montanhosas, que são vulneráveis a fenômenos como deslizamentos.

A tomada de consciência a partir dessa oficialização vai ajudar a termos um aumento da proteção dessas áreas.”
Rosângela Garrido
Geógrafa IBGE

Pequena queda d'água fluindo entre grandes rochas e paredões de pedra cercados por vegetação densa na Serra da Aratanha, no Ceará. O cenário natural ilustra uma das formações geográficas do estado classificadas como montanhas pelo IBGE.
Legenda: Localizada na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), abrangendo Maranguape, Pacatuba e Guaiúba, a Serra da Aratanha ganhou proteção por meio de um decreto estadual de 1998.
Foto: Divulgação/Sema.

A reclassificação será lançada pelo IBGE em agosto deste ano, em uma nota técnica voltada para a comunidade acadêmica. Então, em meados de outubro, o conjunto de especificações e de mapas atualizados do território nacional, incluindo detalhes sobre as montanhas cearenses, será publicado no novo Atlas Nacional do Brasil, obra que encerrará as comemorações de 90 anos do órgão.

Mudança impactará ensino de geografia nas escolas

A atualização não alterará apenas a nomenclatura técnica, mas impactará a forma como o relevo é ensinado nas salas de aula. “A gente vai precisar que os professores, os livros didáticos e os atlas escolares sejam atualizados, para que o professor tenha um material de apoio para ensinar a partir dessa evolução da ciência”, ilustra Rosângela Garrido. 

Embora a novidade ainda não tenha sido incorporada pelas publicações, já é trabalhada como curiosidade por alguns docentes nas salas de aula. Um deles é o Rafael Moreira, que ensina Geografia e Atualidades em turmas de pré-vestibular. 

“A gente já está comentando com os alunos que está havendo uma nova formulação de conceitos. [...] Mas, para efeito de cobrança, obviamente, só após a divulgação do novo Atlas”, detalha.

O profissional avalia que atualizações como essa repercutem diretamente no interesse dos estudantes pela disciplina, ao quebrar a resistência a temas mais técnicos com conteúdos sobre descobertas científicas recentes. 

Essas mudanças que ocorrem só enriquecem e ampliam todo o debate diante de um tema que, geralmente, os alunos não gostam por se tratar de geografia física, mas, quando a gente traz essas atualidades, isso chama a atenção positiva para os alunos.” 
Rafael Moreira
Professor de Geografia

A atualização sobre as “novas” formações da superfície cearense é acompanhada com atenção por Rafael Moreira. Segundo ele, temas como atualizações de conceitos são recorrentes em questões de vestibulares tradicionais, como o da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). 

Imagem mostra professora escrevendo no quadro em uma sala de aula, enquanto alunos de costas acompanham a explicação. Foco em aprendizado, anotação e ensino em turma.
Legenda: Tema integra o currículo dos ensinos fundamental e médio.
Foto: Davi Rocha.

IBGE busca modernizar e padronizar conceitos

O Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo foi criado em 2019, após um esforço conjunto da comunidade científica para suprir a falta de padronização nas nomenclaturas e nas classificações da geomorfologia nacional.

Os mapas de relevo que a gente via — e ainda vê — mostravam um relevo monótono. [...] E não é. Basta a gente passear, circular pelo território nacional, que a gente vê que o nosso relevo é de uma riqueza imensa.”
Rosângela Garrido
Geógrafa do IBGE

Atualmente, o estudo reúne mais de 70 pesquisadores, ligados ao IBGE, ao Serviço Geológico do Brasil (SGB), à União da Geomorfologia Brasileira (UGB) e a universidades federais. 

Um dos marcos mais emblemáticos do projeto ocorreu em 2023, com o reconhecimento técnico da existência de montanhas, seguindo critérios internacionais baseados, principalmente, na forma e declividade. A mudança rompeu com a antiga visão acadêmica de que essas estruturas eram resultantes apenas do choque entre placas tectônicas — processo que originou as cordilheiras mais altas do mundo, como o Himalaia, onde está o Monte Everest.

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Segundo a especialista do IBGE, o Brasil já reconhecia a existência de montanhas em décadas passadas, mas essa percepção desapareceu com o surgimento da Teoria das Placas Tectônicas, que descreve como a camada sólida mais externa da Terra, conhecida como litosfera, é dividida em placas. De acordo com essa ideia, o país não teria montanhas, uma vez que está distante das bordas da Placa Sul-Americana, região onde essas formações se desenvolvem.

Para Rosângela Garrido, esse reconhecimento pode facilitar o fortalecimento de políticas de conservação e de preservação das regiões montanhosas, que são vulneráveis a fenômenos como deslizamentos. "A tomada de consciência a partir dessa oficialização vai ajudar a termos um aumento da proteção dessas áreas.”

A publicação da nota técnica e da nova edição do Atlas Nacional do Brasil vai consolidar o primeiro nível do SBCR. O cronograma científico do estudo terá sequência com a segunda etapa, voltada às características geológicas das formas de relevo, cujo uso deve se concentrar principalmente no ambiente universitário. Já a terceira fase do mapeamento segue em processo de debate e construção, conforme detalha a geógrafa.

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