“Perdão, mas ainda é a seca”, bradou Rachel de Queiroz no título de uma crônica publicada em março de 1953. No texto, lamenta sobre a fome, a morte, “os maquinismos comidos de ferrugem”. A lista é longa e cruel. Sete décadas depois, a sentença assusta pelas descrições, mas sobretudo pela atualidade: ainda integra o solo cearense. A seca persiste entre nós.

Reportagem do Diário do Nordeste publicada neste mês noticiou que o Ceará tem 44 cidades em situação de emergência por seca ou estiagem. Grande parte dos decretos estão vigentes até setembro deste ano – prova de que o tema está longe de ficar relegado aos livros de História. Para muitos, ainda há dias “comidos de ferrugem”.

Em uma parte do Estado, contudo, a aridez parece não marcar o calendário da memória dos antepassados. Os mais velhos recordam outros marcos, a ponto até de intitular o local de “oásis”. “Talvez o que mais marca o Cariri, em tempos passados, é a chegada de retirantes – tanto é que tivemos campos de concentração não só na periferia de Fortaleza, mas também nessa região sul do Ceará. Pessoas tentavam chegar aqui para sobreviver”, conta o biólogo Weber Girão.

Esse “tampão de qualidade de água”, conforme referencia Weber, fez diferença no território cearense, e continua. Passado, presente e futuro do Estado dependem da Flona, uma das mais importantes aniversariantes de 2026, algo tão grandioso quanto sublime: a Floresta Nacional do Araripe, primeira Floresta do Brasil, criada em 1946, e com uma trajetória que passa por vários pontos.

O que significa, porém, “criar uma floresta”? Que tipo de título é esse? Não foi na Flona onde nasceu a primeira árvore brasileira, por exemplo. O termo não se refere a isso. Ela, contudo, foi a primeira floresta a ser instituída no País via Decreto-Lei nº 9.226, assinado pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, em 2 de maio de 1946.

Nos 80 anos da Floresta, neste mês de maio, equipe de reportagem do Diário do Nordeste esteve no verde espesso da mata pioneira a fim de compreender por que Ceará, Brasil e mundo precisam dedicar os olhos para esse patrimônio e, assim, garantir vida aos anos que virão.

Na imagem, uma fotografia panorâmica diurna tirada a partir de um mirante elevado, revelando uma vasta planície. Na parte inferior, vê-se a estrutura em madeira do corrimão do mirante e a copa das árvores em primeiro plano. A vista se estende por uma imensa área verde e arborizada, intercalada por pequenas áreas urbanas e estradas de terra ao longe. No horizonte distante, destaca-se uma cidade com prédios e construções sob um céu azul intenso, decorado com nuvens brancas e finas em formato de linhas fluidas. A imagem é emoldurada no topo e nas laterais pelas folhas e galhos escuros das árvores do próprio mirante, criando um efeito de janela natural.
Legenda: Flona-Araripe tem área total de 38.968 hectares, 975 mil vezes a área do estádio Castelão.
Foto: Fabiane de Paula.

Esta é a primeira reportagem do especial “O Canto da Floresta”, no qual o Diário do Nordeste celebra os 80 anos da Floresta Nacional do Araripe (Flona) ao desbravar as transformações pelas quais passou, os impactos que gera e a diferença que esse canto singular faz na vida de milhares de cearenses, seja no Cariri ou além dele.

Em termos práticos, a Flona é estratégica para o futuro cearense porque exerce função essencial na manutenção da água, do clima e da estabilidade ambiental de grande parte do semiárido cearense. “A Chapada do Araripe funciona como uma grande área de recarga hídrica, responsável por alimentar nascentes, aquíferos e cursos d’água que abastecem municípios inteiros da região do Cariri”, justifica o Chefe do ICMBio Araripe, Carlos Augusto Pinheiro. 

Assim, preservar a Floresta significa garantir, para milhões de pessoas, água para consumo humano, agricultura, atividades econômicas e sobrevivência das futuras gerações em uma região historicamente marcada pela escassez hídrica. A unidade também fortalece atividades econômicas sustentáveis ligadas à sociobiodiversidade, agricultura familiar, turismo e conhecimentos tradicionais de comunidades locais. 

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Legenda: Floresta Nacional do Araripe é estratégica para o futuro cearense porque exerce funções essenciais.
Foto: Fabiane de Paula.

“Em um cenário de mudanças climáticas, a Flona do Araripe funciona como uma barreira natural contra a degradação ambiental, assegurando condições de sobrevivência e desenvolvimento sustentável para as futuras gerações do Ceará. O uso inadequado dos recursos naturais da Chapada do Araripe poderá acelerar os efeitos das mudanças climáticas, resultando em empobrecimento da biodiversidade, aumento dos incêndios florestais, degradação dos solos, redução da disponibilidade hídrica e agravamento dos processos de desertificação em toda a região”.

Também decano da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) e um dos ornitólogos responsáveis pela primeira avistagem do Soldadinho-do-Araripe, em dezembro de 1996 – acontecimento ocorrido na nascente do Farias, distrito de Arajara, Barbalha – Weber Girão situa de quem é o mérito pelo fato de a Flona ainda estar de pé e tão pulsante quanto ela sempre foi. Dois se destacam.

“Uma parte se deve ao poder público, com quadro próprio – embora aquém do que é necessário para proteger; e outra à longevidade dessa unidade de preservação, junto à sociedade que já queria isso há muito tempo. A Floresta Nacional do Araripe é um presente das gerações passadas. Há 80 anos, o povo conseguiu se organizar para fazer a primeira floresta do país”. Um marco que puxa outros e prevê mais.

Como a Floresta foi criada

É Leo Azevedo, biólogo e comunicador socioambiental, quem responde. Na visão dele, a Floresta Nacional do Araripe chega a oito décadas de idade como uma das unidades de conservação mais simbólicas do Nordeste e mais importantes do país.

A proposição de oficializar a Floresta, do deputado federal Antônio Alencar Araripe, sócio-fundador do Instituto Cultural do Cariri (ICC), teve como intuito fazer com que as terras pertencessem à União para, assim, salvaguardar as fontes de água do semiárido e diminuir o avanço da desertificação no Nordeste. 

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Legenda: Criada em 1946, Flona-Araripe é a primeira floresta nacional do Brasil.
Foto: Fabiane de Paula.

Alguns passos dessa travessia da Floresta, do começo até aqui, merecem atenção. “Entre os principais, estão proteção das nascentes da Chapada do Araripe, pesquisa científica, valorização de comunidades tradicionais e reconhecimento crescente do papel climático e hídrico da mata para o Ceará”, analisa Leo. Por sua vez, na lista de marcos notáveis, ele destaca avanço dos estudos sobre biodiversidade, criação da Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Araripe, em 1997, e integração do território ao Geopark Araripe.

Este, com área aproximada de 3.789 km², está inserido numa região caracterizada por importante registro geológico do período Cretáceo. O destaque vai para o conteúdo paleontológico do solo, com datações entre 150 e 90 milhões de anos, e o particular estado de preservação, a partir de grande diversidade paleobiológica.

 

 

Em 2006, o Geopark Araripe foi reconhecido pela Rede Global de Geoparques, sob a chancela da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como o primeiro Geoparque das Américas. 

Entre os principais objetivos dele, estão proteger e conservar os sítios de maior relevância geológica/paleontológica, territorialmente denominados geossítios; possibilitar o conhecimento e a divulgação dos registros arqueológicos de povoamento ancestral da região; e incentivar um turismo de qualidade, baseado nas múltiplas valências do território, por meio de estratégias de promoção e divulgação de nível internacional.

Do começo aos avanços da mata

De volta à Flona, um giro pela História otimiza compreensão mais aguçada dos processos da mata. O já mencionado Decreto-Lei de 1946 anunciou: “Fica criada, em duas glebas distintas, sendo uma na Serra do Araripe, na região dos Estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, e outra na Serra do Apodi, entre os Estados do Ceará e do Rio Grande do Norte, a Floresta Nacional do Araripe-Apodi, subordinada ao Serviço Florestal do Ministério da Agricultura”.

 

 

A área total, de 38.968 hectares – 975 mil vezes a área do estádio Castelão, compreendendo os municípios de Barbalha, Crato, Jardim, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri – passou por reformulações ao longo de 80 anos.

Geógrafo, ambientalista do Movimento Salve Chapado Araripe – do Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Juazeiro do Norte – e coordenador do Laboratório de Climatologia, Basilio Silva Neto compara o início e o agora da Floresta. Para o professor, embora em termos de biodiversidade o território tenha sido conservado, muita coisa passou por transformações ao longo de oito décadas. “Ela mudou, mas ainda é a mesma”, sentencia.

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Legenda: Geossítio Riacho do Meio, no GeoPark Araripe, em julho de 2019: riqueza.
Foto: Divulgação/GeoPark Araripe.

“Mudou porque hoje a Flona é trilha para bicicleta, para PCDs, e há guardas do Ibama que protegem a área. Mudou porque a visão das pessoas sobre a Floresta é outra, e há mais monitoramento. Mudou também porque as águas das fontes, no sopé da Chapada do Araripe, diminuíram, e temos mais incêndios criminosos nas encostas dessa mesma Chapada. A Flona está numa APA, na Chapada, e o processo de erosão nessa área é muito intenso. Se a gente não protege a borda da Floresta, a encosta, esse processo continuará. Por isso a luta por um Plano de Manejo da APA Chapada do Araripe”.
Basilio Silva Neto
Professor e ambientalista

Em termos de avanço sociopolítico, por sua vez, o primeiro movimento após a criação da Flona ocorreu em 2004, a partir da instauração de um Conselho Consultivo. A finalidade, conforme a legislação, era “contribuir para ações voltadas ao planejamento e desenvolvimento da Unidade de Conservação, principalmente no que concerne à implantação e implementação do seu Plano de Manejo e ao cumprimento dos seus objetivos de criação”.

Um ano depois, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aprovou o aguardado Plano de Manejo da Floresta – documento no qual se estabelece zoneamento e normas que orientarão o uso da área, manejo dos recursos naturais e implantação de estruturas físicas necessárias à gestão eficiente de uma Unidade de Conservação. Nesse rol de passos, até alteração de limites foi realizada, em 2012, regulamentada pela até então presidente Dilma Rousseff.

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Legenda: Inserção do público em algumas áreas da Flona foi um dos marcos da mata.
Foto: Fabiane de Paula.

A ampliação, de aproximadamente 706,77 hectares contíguos aos contornos originários, foi fruto de requisição de quase duas décadas, com área cedida ao Estado para pesquisa agrícola desde que a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Ceará (Epace) foi extinta. Com isso, os limites da Flona voltaram a ser campo experimental da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Barbalha. 

“Hoje, a Flona abriga uma das maiores áreas contínuas de vegetação preservada do semiárido brasileiro. Além da preservação ambiental, desenvolve ações de fiscalização, educação ambiental, pesquisa científica, prevenção de incêndios e apoio ao ecoturismo. Também funciona como laboratório natural para universidades e instituições de pesquisa do Ceará e do Brasil”, detalha Leo Azevedo.

Segundo ele, a proteção da mata é garantida principalmente por um tripé: o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, a legislação ambiental e a atuação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “As leis existentes são fundamentais, mas a efetividade delas ainda depende muito de estrutura, fiscalização e vontade política”.

Queimadas e avanço urbano: os desafios da Flona

Não à toa, o pesquisador elege como uma das maiores questões da Floresta, de ontem e de agora, o combate às queimadas, principalmente nos períodos entre agosto e dezembro – nos quais a estiagem fica mais rigorosa e o ar seco acelera os processos de combustão. “Outro desafio importante é fortalecer a fiscalização e garantir maior integração entre ciência, gestão pública e participação das comunidades locais”.

Faz sentido. Há 80 anos, a região, claro, possuía menor pressão humana, menor avanço urbano e menos estradas. Havia pouca estrutura de fiscalização e menor compreensão científica sobre a relevância ecológica do território. Hoje está mais conhecida e protegida institucionalmente, mas ainda enfrenta ameaças, a exemplo de mudanças climáticas e pressão econômica sobre recursos naturais. 

Na imagem, página de jornal impresso com uma reportagem sobre os impactos de um incêndio florestal. No topo, a manchete diz
Legenda: Reportagem de 2020 do Diário do Nordeste sobre incêndio na Flona.
Foto: Sedoc/SVM.

Reportagem do Diário do Nordeste de janeiro de 2020 mostrou os fortes impactos de um incêndio em plena Flona, no fim de 2019. O fogo consumiu área superior a dois mil hectares e devastou 80% da safra de pequi – importante fruto de renda para centenas de famílias no Cariri. “Entre os extrativistas, há um sentimento de incerteza quanto ao futuro”, diz o texto.

O caso, contudo, busca ser isolado. Chefe do ICMBio Araripe, Carlos Augusto Pinheiro, explica que a Flona possui regras restritivas de proteção, uma vez ser uma unidade federal de domínio público voltada à conservação, pesquisa e manejo sustentável. “Dito isto, não há registro de desmatamento significativo no interior da Flona relacionado à expansão agrícola ou ao avanço de monoculturas como soja e algodão”, analisa.

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“Para enfrentar cenários desfavoráveis à Floresta, o ICMBio vem fortalecendo ações de fiscalização, monitoramento remoto, controle da supressão vegetal e articulação com órgãos ambientais federais, estaduais e municipais, além de atuar nos processos de licenciamento ambiental e regularização territorial”.

Na imagem, página de jornal impresso do caderno
Legenda: Reportagem do Diário do Nordeste de setembro de 2014.
Foto: Sedoc/SVM.

Para ele, é fundamental a sociedade entender que os serviços ambientais trazidos pela Flona para o Cariri fazem com que a região fique de pé. “A Floresta está em cima da Chapada do Araripe, e é uma verdadeira esponja: capta água da atmosfera – seja por meio das próprias chuvas ou pelo sequestro das gotículas de água – e faz com que ela penetre no solo”, situa.

“Essa água sairá em fontes localizadas embaixo da Flona, onde temos outras unidades de conservação. A mata integra, assim, esse ciclo hidrológico, em que a principal função é captar água e fornecê-la não só para animais ou para o ecossistema no entorno daquela fonte, mas, sim, para o ser humano, para o abastecimento das populações que estão abaixo dela”.

Soldadinho-do-Araripe, indicador de vida

No fim das contas, são vários os indicadores de vida e pulsão da mata. A Flona-Araripe está localizada no platô da Chapada homônima, divisora das águas das bacias dos rios Jaguaribe e São Francisco. O clima, tropical chuvoso, faz com que a precipitação média anual seja em torno de 1.033 mm, propício para a formação de três tipos de vegetação: Savana (Cerrado), Savana estépica (Carrasco) e Floresta Estacional Sempre-Verde (Floresta úmida). 

No documento referente ao Plano de Manejo, a flora do território é descrita a partir de números impressionantes. Embora publicado em 2005, o registro oferece dimensões oficiais sobre o que pode ser encontrado na Floresta.

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Legenda: Soldadinho-do-Araripe é símbolo do Ceará e só pode ser vista no Cariri.
Foto: Ciro Albano/Divulgação.

Oito tipologias diferentes de plantas foram identificadas à época, entre elas Cerradão, Transição Floresta Úmida/Cerrado e Floresta Úmida com Incidência de Incêndios. O Guia de Plantas da Floresta Nacional do Araripe-Apodi, lançado em 2018 pela Universidade Federal do Ceará, também faz um apanhado dessa cobertura. O material mapeia 130 espécies vegetais presentes no território. Uma riqueza.

No que diz respeito à fauna, o mesmo Plano de Manejo identificou cinco famílias de serpentes com 20 gêneros e 27 espécies; oito famílias de lagartos, com 17 gêneros e 20 espécies; e três famílias de anfíbios, com oito gêneros e 12 espécies. Aves, contudo, constituem o grupamento animal mais estudado na Flona. Foram 193 espécies registradas na Chapada do Araripe como um todo, 15 delas com ocorrência apenas no Brasil.

Uma delas brilha mais – capaz de levar parte do nome da Floresta no próprio nome, e de viver única e exclusivamente no Cariri, portanto endêmica. O Soldadinho-do-Araripe, espécie simbólica do Ceará, tem cerca de 15 centímetros de comprimento e 20 gramas de massa. Foi encontrado pela primeira vez nas encostas da Chapada do Araripe. A viagem que permitiu a descoberta da ave completa três décadas em dezembro deste ano.

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Legenda: Em sentido horário: Arara-Canindé, lagartos e pássaro-ferreiro, todos presentes na Flona.
Foto: Cid Barbosa/Divulgação.

Para o biólogo Weber Girão, existe a compreensão no meio científico de que, se há 80 anos, a Flona não tivesse sido criada, certamente o pássaro não existiria. “Logo, foi um gesto pioneiro da sociedade que viabilizou a descoberta de uma espécie anos depois da criação da Floresta. Ainda não estamos à altura para entender o alcance dos benefícios da conservação da mata. Só com o passar dos anos é que temos dimensão dos gestos”, arrisca.

Sendo o objeto de estudo do pesquisador uma espécie que depende de água e da floresta sempre verde, é fácil creditar a Flona como oásis no semiárido nordestino. Território favorável não apenas para espécies como o Soldadinho, mas para todos os inseridos no mapa de alcance dela.

“No momento em que esse oásis é desfigurado e a gente não tem mais nem água nem a vegetação verde, aqui deixa de ser um lugar especial”.
Weber Girão
Biólogo

“Assim, a extensão florestal de ocorrência do Soldadinho-do-Araripe é essencial para a presença dele nas encostas – onde acontece a captação da água da chuva e o abastecimento das fontes”, completa. Essa água, gerada na Chapada do Araripe, além de beneficiar caririenses, exerce importância até para a segurança hídrica de Fortaleza. Em momentos de seca, o sistema de abastecimento da Capital se valerá dela para sobreviver. 

O raciocínio é destrinchado por Weber:

  • A sub-bacia do Rio Salgado é a maior tributária do Rio Jaguaribe;
  • A mesma sub-bacia do Rio Salgado tem nascentes na Chapada do Araripe;
  • Logo, as águas do Jaguaribe represadas no Castanhão abastecem Fortaleza quando o sistema Pacoti/Riachão/Gavião não dá conta.

Não sem motivo, é impossível falar da Floresta Nacional do Araripe sem falar de todo o Ceará. “Estamos na iminência da chegada de um El Niño, anunciado como o pior dos últimos 150 anos. Ele já aconteceu outras vezes na História. Muitos – alguns com duração de 100 anos – acabaram com civilizações. A Flona tem uma prova de que resistiu a esse fenômeno, e essa prova é a própria existência do Soldadinho-do-Araripe”, contextualiza o biólogo.

“Foi-se perdida ⅕ da população desse pássaro no último El Niño; nos períodos seguintes, de chuva, ele mostrou capacidade de superação. Simboliza que a mata é um tampão contra o efeito dos eventos climáticos. Sem ela, perderemos esse tampão, perderemos vida”.

Flona chegará aos 100 anos?

Essa dúvida parte da mata, salta por corredores de universidades, alcança casas e populações. A resposta, por sua vez, talvez esteja no modo como vivemos a Floresta. Visita da equipe do Diário do Nordeste a dois mirantes presentes na Flona – Belmonte e Picoto, no município de Crato – comprova algo bonito: pessoas contemplando o verde, apropriando-se do que é de direito, estendendo boas possibilidades de aproveitamento do território.

Mais que beleza, há mensagem implícita nesses atos: bom é preservar. Há outra também, relacionada a processos de povoamento sustentável da Floresta. Em 2021, um acordo de cooperação técnica entre o ICMBio e o município do Crato promoveu a implementação da Flona nas atividades de uso público por meio de incremento de indução ao desenvolvimento do turismo local. Numa síntese: fazer conhecer para não deixar de cuidar. 

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Legenda: Algumas das trilhas no território da Flona: uso sustentável do território florestal.
Foto: Fabiane de Paula.

Os próximos 20 anos serão decisivos do que vamos querer para a Flona. Herdamos da geração passada uma floresta maravilhosa, e vamos deixar o quê para as próximas? Uma floresta cercada de drones, pulverizando veneno e tudo o que já é proibido? Esse é o ponto-chave”, tensiona Weber.

Questionado sobre o que deseja para o futuro da mata pioneira do país, desse canto encantado de onde brota presença e milagre, não titubeia: “O futuro que quero pra ela é o futuro do pretérito. Que ela volte o mais perto possível a ser o que já foi”.

 

> Na segunda e última reportagem da série “O Canto da Floresta”, o cotidiano de quem tem a Floresta Nacional do Araripe como quintal e histórias de mulheres que reinventam a si e aos próprios locais de morada a partir do extrativismo da mata para criação de produtos