Toda cidade deveria ter uma placa de identificação feito a de Santana do Cariri. Existe a oficial – tingida do verde de qualquer letreiro rodovia adentro em solo brasileiro – e uma mais charmosa, lúdica e cheia de cor. Nela, estão presentes alguns dos elementos mais importantes para compreender o município do interior cearense, distante 523 quilômetros de Fortaleza: as casas, o sol, a vegetação. A devoção à beata Benigna Cardoso da Silva e, no alto de um morro, um dinossauro de boca aberta e garras à mostra. 

Praticamente intercambiáveis, estes dois últimos detalhes são os que mais saltam aos olhos assim que se começa a andar pelo lugar. Equipe do Diário do Nordeste esteve na cidade no último dia 25 de abril para a inauguração do Complexo da Beata Benigna Cardoso e comprovou, de perto, como Santana do Cariri consegue o que para alguns pode ser irrealizável: conciliar, com igual intensidade, a fé no divino e na ciência.

“É algo raro e extremamente valioso: a capacidade de unir espiritualidade, ciência, cultura e identidade em um mesmo território. Aqui, fé e ciência não caminham em lados opostos, elas se complementam”, assegura Ypsilon Félix, secretário de Turismo da cidade. 

Na imagem, fotografia em plano médio de um grande cruzeiro de madeira rústica, posicionado sobre uma base de alvenaria branca com degraus. O cruzeiro está em primeiro plano, centralizado à esquerda. Ao fundo, observa-se uma vista panorâmica de Santana do Cariri, com casas de telhados cerâmicos, árvores verdes e postes de iluminação. No horizonte, destaca-se a imponente Chapada do Araripe sob um céu carregado de nuvens cinzas e brancas.
Legenda: Vista de cima da cidade de Santana do Cariri, com forte presença da religião e da ciência.
Foto: Fabiane de Paula.

Esta é a terceira e última reportagem do especial “Menina Milagreira”, no qual o Diário do Nordeste investiga a força da devoção à beata Benigna Cardoso da Silva 85 anos após o crime que a vitimou, e como esse fervor transforma a paisagem turística, econômica e cultural da cidade de Santana do Cariri.

Segundo Ypsilon, ao mesmo tempo em que o município é famoso pela veneração à menina Benigna, também é referência internacional na paleontologia por meio do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens e do Geopark Araripe.

Este, destaca, possui um dos patrimônios fossilíferos mais importantes do mundo. As recentes repatriações de fósseis retirados ilegalmente da Chapada do Araripe, por sinal, reforçam ainda mais a importância científica do território santanense-do-cariri e demonstram o valor histórico e acadêmico que esse solo carrega.

“Essa ligação, para mim, também é muito pessoal. Fui monitor do Museu de Paleontologia desde os 11 anos de idade, trabalhei na área de geoturismo do Geopark Araripe e tive a honra de participar do processo de beatificação de Benigna, primeira beata do Ceará. Isso me permitiu viver, de perto, duas das maiores riquezas da nossa terra: a fé e a ciência”.

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A cidade muda, as pessoas sentem

A vivência, apesar de tão pessoal, também pode ser coletiva. Ecoa nas fachadas das casas, no nome das lojas e itens que comercializam, no semblante de quem cultiva esperança de crescimento para o lugar de morada – sobretudo a partir do culto a Benigna.

Encontramos Adriana Roque entre itens de decoração e religiosos, utensílios domésticos e outras miudezas, tudo com o vermelho do vestido da beata, o rosto dela. A artesã e comerciante mantém um ponto no Complexo recém-inaugurado em homenagem à santa popular, e está contente.

“Já vejo a mudança. Antes da inauguração, o movimento era tranquilo, não tinha muito carro… Um dia após a inauguração, você percebe que já tá lotado de gente. Geralmente não é assim”, compartilha. “Gente de outras cidades, até de Fortaleza, veio colocar barraquinha. Não sei como vai ficar a efetivação dos boxes do Complexo, mas estou na luta. Quero um”.

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Legenda: Seja próximo ou distante do Complexo, beata Benigna fortalece comércio de Santana do Cariri.
Foto: Fabiane de Paula.

Na loja de Adriana, os preços são variados – de R$2 a R$65, e abraçam camisas, imagens e terços. O retorno financeiro garante que a outrora esteticista dedique-se exclusivamente à modalidade comercial, fato que alia à fé na beata-menina. “Sou devota, e acho que 99% da população de Santana do Cariri também é. Só em você estar aqui e prestar atenção, fica diferente. São tantos casos… O pessoal vem com uma fé imensa, não tem como não ter uma igual. É tanta gente debilitada, que penso: ‘A fé move montanhas mesmo’”.

Uma experiência, em específico, recorda com mais vigor. Diz que foi milagre. Um homem foi “desenganado” ao chegar num hospital após sofrer três paradas cardíacas devido a um acidente com motocicleta na própria cidade de Santana do Cariri. Familiares começaram a rezar a Benigna, para que intercedesse junto a Deus, e a graça veio. “Tinham dado apenas 2% de chance de vida. No fim das contas, mesmo com risco de ficar paraplégico, ele não ficou, e ainda não fez cirurgia. Não era nem pra estar vivo, mas venceu”.

Na imagem, fotografia em plano médio de uma mulher de cabelos presos e camiseta branca com a palavra
Legenda: Comerciante Antônia Luísa Pereira emociona-se ao contar milagre atribuído à intercessão de Benigna.
Foto: Fabiane de Paula.

Distante do Complexo, o mercadinho de Antônia Luísa Pereira também testemunha dádiva alcançada por intermédio da beata. Em meio a itens como almofada para pescoço, imagens, fitinhas e bolsas, tudo com as credenciais de Benigna – o vermelho muito vivo, as bolinhas brancas onipresentes – não segura as lágrimas ao olhar para a filha e o neto. Recorda do parto difícil da rebenta, de como precisou se ater à “santinha” para ter esperança.

“Eu estava no hospital com ela, e ela estava muito mal. Pedi à Benigna que a ajudasse, que ela tivesse o filho dela em paz, e então eu iria pagar uma promessa. Graças a Deus, taí ele, muito bem”, aponta para o bebê. “Pagarei a promessa nesta semana”. Desse caso, suspeita, nasceu nela espécie de otimismo em outras frentes. Torce pelo comércio de Santana do Cariri, para que evolua mediante a presença do Complexo. Quer que a venda progrida.

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Legenda: Das fachadas das casas aos nomes de lojas, Benigna é onipresente em Santana do Cariri.
Foto: Fabiane de Paula.

“O comércio daqui não é muito desenvolvido, mas agora, com Benigna, tá melhorando bastante. A gente espera que melhore ainda mais”. Faz sentido. Num balanço quantitativo, Ypsilon Félix comemora. A inauguração do Complexo em devoção a Benigna Cardoso da Silva, segundo ele, “entrou para a história de Santana do Cariri e de toda a região do Cariri”.

“Recebemos milhares de romeiros, devotos, turistas e visitantes vindos de diversas cidades do Ceará e também de outros Estados. A cidade viveu dias de intensa movimentação religiosa, cultural e econômica, fortalecendo ainda mais o turismo da fé em nosso município”
Ypsilon Félix
Secretário de Turismo de Santana do Cariri

Um dado capaz de demonstrar a dimensão do impacto, segundo ele, foi o cadastro de mais de 100 comerciantes locais para atuação durante o evento, contemplando setores como gastronomia, artesanato, produtos religiosos, economia criativa e serviços diversos. 

“Isso representa geração de renda, fortalecimento do empreendedorismo local e valorização dos talentos da nossa terra. O evento gerou reflexos positivos em toda a cadeia econômica da cidade, movimentando hospedagens, restaurantes, transporte, comércio informal e serviços em geral. Santana do Cariri esteve mobilizada para acolher os visitantes com organização, fé e hospitalidade”. Não à toa, adianta, a meta é preparar melhor a cidade para o acolhimento.

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Somar forças junto a Padre Cícero

O foco da gestão municipal, por meio da Secretaria de Cultura, Turismo e Romarias, deverá ser voltado para a capacitação da população. A ideia é formar mão de obra especializada para atuar na cadeia do turismo religioso, especialmente nas áreas de hospedagem, alimentação, receptivo, atendimento ao público, condução turística, artesanato e economia criativa.

Igualmente, Ypsilon sublinha a busca pelo fortalecimento do empreendedorismo local, incentivando os moradores a enxergarem no turismo uma oportunidade real de geração de renda e desenvolvimento sustentável. “O crescimento do número de romeiros movimenta toda a cadeia de serviços da cidade, e isso exige planejamento e qualificação”, diz.

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Legenda: Caminhos de Benigna devem atrair ainda mais fiéis e fortalecer Santana do Cariri.
Foto: Fabiane de Paula.

A próxima grande parada do município –  localizado no sul do Ceará, bem próximo ao sopé da Chapada do Araripe, com pouco mais de 17 mil habitantes – está programada para outubro, mês em que se celebra o aniversário de Benigna. Conforme o secretário, há grande expectativa de crescimento da programação religiosa e cultural. Desde agora, o diálogo é feito junto à Paróquia Senhora Sant’Ana, à Diocese de Crato, à Prefeitura e a demais parceiros.

Na imagem, mapa político do estado do Ceará, dividido por municípios em diferentes tons de azul e verde sobre um fundo branco. Na região sul do estado, um ícone de localização (pin) na cor rosa com um círculo branco no centro marca a posição geográfica do município de Santana do Cariri.
Legenda: Mapa político do Estado do Ceará, com delimitação de Santana do Cariri, ao sul.
Foto: IBGE.

“Santana do Cariri entende que não cresce sozinha. Fazemos parte de um território historicamente marcado pela fé, tendo Juazeiro do Norte como grande destino indutor de romarias por meio da figura importantíssima do Padre Cícero. Nosso objetivo é justamente somar forças a esse ciclo de romarias do Cariri, de maneira harmoniosa e complementar”.

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E completa: “Hoje, vejo claramente que Santana do Cariri possui uma vocação única. O romeiro encontra espiritualidade. O pesquisador encontra conhecimento científico. O visitante encontra cultura, natureza, memória e identidade Por isso acredito que essas duas forças podem caminhar juntas. A fé preserva a alma do povo; a ciência preserva a memória da vida. E Santana do Cariri tem o privilégio de ser guardiã das duas”.

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Das romarias à capital cearense da Paleontologia

Coordenador educativo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, Antony Thierry de Oliveira Salú concorda com a tese: não apenas é possível, como bastante oportuno encarar Santana do Cariri como cidade múltipla em atrativos – seja de natureza espiritual, seja de envergadura científica. Neste último ponto, sente orgulho em afirmar que o município é considerado a Capital cearense da Paleontologia.

Pudera: a região possui grande quantidade de fósseis extremamente bem preservados, encontrados nas formações geológicas da Bacia do Araripe. O reconhecimento oficial da cidade, com esse título e tudo, ocorreu em 28 de junho de 2005 por meio do Projeto de Lei nº 102/05, de autoria da deputada Ana Paula Cruz (PFL). 

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Legenda: Detalhes do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens.
Foto: Lucas Estevam/Divulgação.

Além da distinção estadual, tramita atualmente o Projeto de Lei nº 4064/2025, de autoria do senador Eduardo Girão (Novo), que propõe conceder ao município o título de Capital Nacional da Paleontologia. A proposta busca reconhecer oficialmente a relevância científica, cultural e histórica de Santana do Cariri para a Paleontologia brasileira, consolidando ainda mais o destaque do município no cenário brasileiro.

“O acervo do Museu conta com mais de 11 mil exemplares e abriga vários grupos fósseis. Os mais representativos são troncos de árvores silicificados, impressões e compressões de pteridófitas, gimnospermas e angiospermas; moluscos, artrópodes (crustáceos, aranhas, escorpiões e insetos); peixes (tubarões, raias e diversos peixes ósseos); anfíbios e répteis (tartarugas, lagartos, crocodilianos, pterossauros e dinossauros)”
Antony Thierry de Oliveira Salú
Coordenador educativo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens

Todos os fósseis são provenientes, principalmente, das formações Missão Velha, Crato, Ipubi e Romualdo, datando entre 400 a 110 milhões de anos. Além do acervo fossilífero, a expografia conta com equipamentos interativos, que auxiliam os visitantes nessa viagem ao Período Cretáceo, tornando a experiência mais dinâmica, educativa e divertida. Os recursos interativos aproximam o público da Paleontologia de forma acessível e envolvente.

Engana-se, porém, que tudo tende a permanecer como está porque nada mais precisa ser descoberto. A Paleontologia em Santana do Cariri segue em constante desenvolvimento. Diversas pesquisas estão em andamento, de acordo com Antony, especialmente estudos relacionados a holótipos – espécimes físicos únicos, utilizados por pesquisadores para definir uma nova espécie ou subespécie.

Na imagem, fotografia do interior de um museu com uma exposição de réplicas de dinossauros em tamanho real. No centro, sobre uma base de cascalho que simula o solo natural, destaca-se um grande espinossaurídeo com uma crista avermelhada nas costas, segurando um peixe na boca. À sua frente, há um dinossauro menor em posição de corrida e, no chão, alguns ovos brancos. Suspenso acima deles, um pterossauro de asas abertas parece sobrevoar a cena. O ambiente do museu possui paredes claras, mezanino com guarda-corpo branco e iluminação por focos de luz no teto.
Legenda: Réplicas de dinossauros em tamanho real podem ser encontradas no Museu.
Foto: Lucas Estevam/Divulgação.

“Além das pesquisas, os próximos meses também devem ser marcados por importantes processos de repatriação de fósseis, com a chegada de exemplares históricos que estavam fora do país e que retornarão para Santana”, complementa o gestor. Outro ponto relevante é a inauguração de novos equipamentos e estruturas voltadas à ciência, pesquisa e preservação. Eles devem elevar o nível da produção científica na região e ampliar oportunidades para pesquisadores, estudantes e visitantes. 

“Diante desse cenário, a expectativa é de crescimento ainda maior das pesquisas paleontológicas, da valorização do patrimônio fossilífero e do fortalecimento de Santana do Cariri como um dos maiores símbolos da paleontologia brasileira”, comemora.

Na imagem, fotografia da fachada externa do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri. O prédio de dois pavimentos tem paredes amarelas com uma faixa rosa na base e telhado de barro marrom. Na esquina, há uma placa marrom com o desenho de um templo clássico e os dizeres
Legenda: Fachada externa do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri.
Foto: Lucas Estevam/Divulgação

Por fim, arremata: “Muitos romeiros que visitam o Complexo da Benigna também conhecem o Museu de Paleontologia, enquanto turistas interessados na paleontologia acabam recebendo informações sobre o turismo religioso e a história de Benigna. Dessa forma, ciência e devoção não competem entre si, mas se complementam, promovendo uma verdadeira troca cultural e fortalecendo o turismo, a economia local e a identidade de Santana do Cariri”.