É uma casa ampla e clara em Santana do Cariri. Antiga, exala uma espécie de paz duradoura – dessas que se sente em lares felizes. A moradora, contudo, perdeu o sossego há pelo menos oito décadas, quando presenciou o abalo de saber que a própria irmã adotiva foi assassinada por um jovem obcecado por ela. “Ninguém merece passar pelo que a gente passou – nem a gente enquanto família, nem ela como vítima”, suspira, mãos acariciando o ícone da beata Benigna Cardoso da Silva num porta-retrato. “Foi assustador”.

Quem fala é Teresinha Sisnando de Oliveira, ou apenas Irani. Noventa anos no rosto sereno, mas intranquilo. Não esquece o que fizeram com a menina-beata de 13 anos, imortalizada na paisagem do município natal, distante 523 quilômetros de Fortaleza, e no coração de sem-número de romeiros Ceará e Brasil adentro. Benigna transformou-se em símbolo da luta contra o feminicídio ao sofrer um em 1941. O algoz, Raul Alves Ribeiro, estudava na mesma sala de aula dela e, dessa convivência com a garota, surgiu a obsessão.

Em 24 de outubro daquele ano, o assassino perseguiu Benigna a caminho da cacimba de onde ela tirava água para consumo familiar, e a assediou sexualmente. Na resistência contra o agressor, foi golpeada várias vezes com facão – chegando a ter dedos amputados – e veio a falecer no local. Oitenta e um anos depois da brutalidade, o Vaticano beatificou Benigna e a intitulou Heroína da Castidade. Em Santana do Cariri e localidades do entorno, ela é mais que isso: santa popular no coração de crianças, homens e mulheres. 

Na imagem, uma mulher idosa de cabelos castanhos e curtos, vestindo uma blusa azul com estampas de folhagens brancas e bege, está de pé em frente a uma penteadeira ou altar doméstico. Ela é vista de perfil e seu reflexo aparece no espelho à sua frente. Com a mão direita, ela toca suavemente a cabeça de uma pequena estátua da Beata Benigna, que veste um vestido vermelho com bolas brancas. Sobre a bancada, além da estátua, há um porta-retrato com a ilustração da Beata, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e outros objetos religiosos. O móvel é branco e a iluminação é suave e natural.
Legenda: Porta-retrato e imagem são itens sobre Benigna que irmã adotiva guarda com carinho.
Foto: Fabiane de Paula.

Esta é a segunda reportagem do especial “Menina Milagreira”, no qual o Diário do Nordeste investiga a força da devoção à beata Benigna Cardoso da Silva 85 anos após o crime que a vitimou, e como esse fervor transforma a paisagem turística, econômica e cultural da cidade de Santana do Cariri.

Para dona Irani – testemunha íntima dos primeiros anos da “santinha” até a morte que a tornou mártir – Benigna era uma criança diferente. “A gente, que também era criança na época, não percebia tanto, mas os adultos percebiam. Era uma menina muito dedicada e carinhosa. Uma vez, ao ir a uma ‘farinhada’, viu um boi rodando devido à brincadeira de alguns homens, e chorou muito… Quando papai perguntou o porquê daquele choro, ela disse: ‘Aquele boi rodando está sofrendo tanto. Tira o sofrimento dele, por favor’”.

Nua de elementos que lembrem a beata, a casa da profissional de saúde aposentada encontra num retratinho e em uma pequena imagem de gesso repousada no guarda-roupa uma forma possível de honrar aquela que faz falta todos os dias. Com Benigna, conta dona Irani, foi-se embora o encantamento da infância, aquela doçura experimentada em quintal e alpendre.

“A gente era tão feliz, não sei como tudo acabou assim. Depois do que aconteceu, ninguém brincava mais, foi uma tristeza só. Falar em Benigna é voltar a ser criança. Éramos crianças com o direito de ser criança, com os pais que a gente tinha, com os avós… Era uma família dedicada a Deus. A gente amanhecia o dia brincando, mamãe fazia questão de fazer comidinhas e levávamos para as bonecas. Benigna batizava cada uma e chamava a gente pra ser madrinha delas. Meu pai nos tratava como ‘minha santa’”, recorda.

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Complexo em devoção à beata alivia a dor

Entre outras memórias da idosa, está também a visão da menina-beata ao lado da avó nas missas; a dedicação dela às pessoas e às atividades de todo dia; o gosto inveterado por flores. Embora com apenas 11 anos de idade quando o feminicídio de Benigna aconteceu – Irani era apenas dois anos mais nova que a irmã – os instantes seguem vivos na mente.

“Ela era magrinha, mas ia ser uma menina muito alta, estava crescendo. Era tão temente a Deus… Quando a gente brincava, dizia, ‘madrinha Idezinha, quando for na hora do terço, chama a gente’. Rezava-se um terço no Oiti toda noite, e fazia nove sextas-feiras [prática da Igreja Católica em honra ao Sagrado Coração de Jesus, que consiste em comungar, em estado de graça, durante nove meses consecutivos na primeira sexta-feira de cada mês]”, situa.

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Legenda: Melancolia e saudade misturam-se no relato de dona Irani ao recordar de Benigna.
Foto: Fabiane de Paula.

“Acho que foi por isso que ela resistiu. Pra ter a coragem que teve, era preciso muita força, de algo que vinha dessa criação na Igreja”. Nesse instante, a fisionomia de dona Irani muda quando sabe que, mediante a inauguração do Complexo em homenagem à irmã – evento ocorrido no último dia 25 de abril, em Santana do Cariri – o que era tristeza pode se transformar em credo, promessa. Afirmação. 

“Quando vi aquela multidão na inauguração, pensei: ‘Como Deus é bom’. Esse povo com o coração tão bonito, vindo de tão longe… Foi uma emoção muito grande. Sou muito chorona, nunca vi tanta gente daquele jeito, com aquela dedicação por ela. Pra gente resistir aos 90 anos assim não é fácil”.
Irani Sisnando
Irmã adotiva da beata Benigna

“Não conheci Raul, o assassino dela, mas sei que não foi apenas com um golpe que ele a matou. Primeiro cortou as mãos dela. Deixou ela descer pra cacimba encher o pote d’água e, quando ela subiu, jogou uma pedra – daquelas avermelhadas, bem rústicas. Estava atrás de umas árvores, escondido. Cortou os dedos dela pra ela ceder aos caprichos dele. Como ela não aceitou, também degolou ela. Mamãe mesmo disse que tanto fazia colocar a cabeça dela pra frente ou pra trás, não se sustentava. Foi algo realmente assustador”.

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Em busca do rosto de Benigna

A interrupção no tom da conversa para trazer a lume o relato devastador tem a ver também em como a idosa encarou outros acontecimentos na vida da irmã. A representação do rosto de Benigna, ainda tão nítido na memória – visto que nenhum registro fotográfico dela sobrou para auxiliar a Igreja Católica a reconstituir a face dela – é um deles. 

“O retrato que conservo aqui em casa é o único que tenho. Tem outros retratos que me deram, mas esse é meu favorito. Ela tinha exatamente esse rostinho compridinho, essa testa…”. Sobre o assunto, um pesquisador cearense tem a resposta. Na dissertação de mestrado “A imagem de Benigna Cardoso da Silva segundo a foto que falta”, o jornalista e professor Joedson Kelvin, natural de Santana do Cariri, examina o tema sob a luz de várias evidências.

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Legenda: Rosto anônimo da beata pareceu vir à tona através de espécie de “ressurreição ou reencarnação”.
Foto: Fabiane de Paula.

Em determinado momento do texto, o pesquisador questiona: “Que imagem daríamos para o rosto de uma menina nascida no século passado, no interior do Ceará, Nordeste do Brasil, pobre, órfã e que teve a breve existência tristemente interrompida após defender o próprio corpo após resistir a uma violência sexual, e cuja história, anos mais tarde, se transformou em motivo de devoção religiosa popular?”.

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“13 anos de idade, um metro e quarenta e um de altura, pele morena clara, cabelos e olhos castanhos claros e um pouco desnutrida. Assim é descrita Benigna Cardoso da Silva pelo exame de corpo de delito, realizado em 25 de outubro de 1941, um dia após a morte. Dona Nair Sobreira (1935-2023), amiga de infância, também forneceu uma descrição: Ela era franzinazinha, era uma menina morena (um moreno claro), cabelos longos repartidos ao meio e ondulados, simples. Por muito tempo, o documento pericial e a memória visual de uma contemporânea foram os principais testemunhos da aparência de Benigna”, escreve Joedson.

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Lutar contra a violência, não romantizá-la

O rosto anônimo de Benigna pareceu vir à tona por meio de uma espécie de “ressurreição ou reencarnação”. Esse método busca não apenas a aproximação, mas a superação da própria fotografia, que, em forma de retrato digital, apresenta a durabilidade temporal de um rosto que, embora em estado de ausência, acusa a presença da menina. 

Na imagem, fotografia do interior de uma igreja mostrando o nicho dedicado à Beata Benigna Cardoso da Silva. No centro de um altar elevado, decorado com muitas flores brancas e rosas, destaca-se uma estátua da Beata vestindo seu icônico vestido vermelho com bolas brancas. Ela está emoldurada por um fundo de tecido vermelho vibrante e um arco superior com raios dourados e brancos. Abaixo da imagem, na parede de pedras, há uma placa comemorativa com informações sobre sua vida e martírio. À esquerda, um homem de camisa branca observa o altar, e à direita, uma mulher com uma bolsa bege e parte do rosto de outra fiel aparecem em primeiro plano, contemplando o local. Na parede lateral esquerda, há cartazes informativos e uma luminária clássica.
Legenda: Espaço na igreja Matriz de Santana do Cariri onde estão os restos mortais de Benigna.
Foto: Fabiane de Paula.

As diversas tecnologias de imagem contemporâneas, como uma que fabrica um rosto para a beata, também tentam retomar aquilo que, especialmente no surgimento, era a principal promessa da fotografia: objetividade e verdade. “Há uma fé obstinada no realismo que uma fotografia promete ser e ter. Nesse caso, esta fé é depositada na suposta veracidade de um rosto reconstituído e retratado a partir de uma perspectiva forense digital”, diz Joedson.

“Até onde sei, pouco restou da breve existência de Benigna. Na Casa Paroquial da cidade, podem ser encontrados o dito pote que ela carregava, um livro de catecismo, um vestido – que não é o vermelho de bolinhas brancas – além de outros itens que não eram delas diretamente, mas fazem referência ao tempo de vida da menina na terra”.
Joedson Kelvin
Jornalista e professor

Para ele – também realizador do premiado curta “Vermelho de Bolinhas”, gravado em Santana do Cariri a fim de ampliar a perspectiva sobre a imagem que tem sido construída para Benigna frente à própria realidade do município – processos de santificação e de transformação de uma devoção em políticas de turismo não podem estar dissociados de um problema urgente do nosso tempo. 

O Cariri e o Ceará estão no topo do ranking de violências contra meninas e mulheres, com casos numerosos e cotidianos. O que se prega e o que se propaga deve-se levar em consideração como lutar contra esses episódios, na busca por evitá-los, e não romantizá-los”.


 

> Na terceira e última reportagem do especial “Menina Milagreira”, o que faz de Santana do Cariri uma cidade tão peculiar no Ceará ao unir devoção à beata Benigna e evidências paleontológicas no mesmo território, entre fé e ciência