Sítio arqueológico com pinturas rupestres revela presença ancestral na Serra da Meruoca

Área conhecida como Córrego da Onça reúne grafismos pré-coloniais e reforça a ocupação histórica de povos originários no Interior do Ceará.

Escrito por
Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
Uma parede rochosa acinzentada e com fissuras naturais exibe diversas pinturas rupestres que lembram carimbos de mãos humanas em pigmento avermelhado. Os registros estão distribuídos por várias partes da pedra, com maior concentração de silhuetas de mãos em uma área plana à esquerda. Pequenos ninhos de terra circulares aparecem incrustados na rocha, criando um contraste de textura com as marcas ancestrais.
Legenda: Localizado em um afloramento rochoso de quase 18 mil metros quadrados, o sítio Córrego da Onça enfrenta o desafio do tempo e da ação humana.
Foto: Reprodução/ Nonato Fernandes

Um sítio arqueológico localizado no município de Massapê, na região da Serra da Meruoca, reúne registros de pinturas rupestres que ajudam a contar parte da história das populações que habitaram o território cearense antes do período colonial. Conhecido como Córrego da Onça, o local apresenta grafismos variados em um afloramento rochoso em cerca de 17.927 m² de extensão.

Apesar da relevância histórica e científica, o sítio nunca foi escavado. Os registros existentes se concentram principalmente nas pinturas preservadas nas rochas, que revelam aspectos simbólicos, culturais e sociais dos grupos humanos que ocuparam a região.

Uma parede de rocha clara e texturizada exibe diversas pinturas rupestres em tons de vermelho terroso, com destaque para a silhueta de uma mão humana espalmada no centro. Ao redor da marca principal, há manchas pigmentadas e pequenos casulos de terra ou ninhos de insetos grudados à superfície irregular da pedra. A iluminação natural revela os relevos e a porosidade da rocha milenar.
Legenda: Especialistas apontam que o local não é um achado recente. Ele já aparece em registros de pesquisadores que estudaram a arqueologia cearense ao longo do século XX.
Foto: Divulgação/ Nonato Fernandes

Segundo o arqueólogo Agnelo Queirós, o sítio já "era descrito há muito tempo, por volta da década de 1950, por Tomás Pompeu Sobrinho, um dos historiadores que faziam mapeamentos pelo Instituto Histórico, Antropológico e Geográfico do Ceará”. O local também foi descrito em detalhes por Padre Lira, pesquisador que atuou na região de Sobral e publicou a obra "Sítios Arqueológicos do Centro-Norte do Ceará", na década de 1980.

Queirós explica que o nome Córrego da Onça segue um padrão adotado na área: “Quando a gente cadastra um sítio, usamos o nome que a comunidade se refere ao espaço. É também uma forma de valorizar o conhecimento local”, afirma.

As pinturas apresentam diferentes tipos de representações, como figuras zoomorfas, que remetem a animais; antropomorfas, associadas à forma humana; possíveis representações de elementos vegetais e uma grande variedade de formas geométricas. “Esse tipo de expressão visual tem um padrão. Quando comparamos diferentes sítios, percebemos estilos semelhantes em determinadas regiões. Isso mostra que existiam tradições visuais e culturais compartilhadas”, diz Agnelo Queirós.

Ocupação antiga da Serra da Meruoca

O historiador Sávio Barbosa, mestre em História pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador de sítios arqueológicos na Serra da Meruoca, reforça que o local faz parte de um contexto maior de ocupação indígena na região.

A análise comparativa com outros sítios da serra indica que esses locais funcionavam como pontos interligados dentro de um território ocupado por populações originárias. 

Para o historiador, as pinturas revelam uma relação simbólica entre essas populações e a paisagem.

Os grafismos não são simples marcas decorativas. Eles representam formas de expressão, comunicação e construção de memória no território.
Sávio Barbosa
Historiador

Entre os padrões identificados no Córrego da Onça estão elementos associados à chamada Tradição Agreste, caracterizada por formas geométricas e composições estruturadas.

Um detalhe chama a atenção dos pesquisadores: figuras semelhantes a mãos, conhecidas tecnicamente como “carimbos”. “Esse tipo de representação também aparece em sítios próximos, como o Letreiro do Serrote das Rolas, em Santana do Acaraú. Isso sugere circulação de referências culturais entre grupos da região”, frisa Barbosa.

Uma parede de rocha clara e porosa exibe diversas pinturas rupestres em tons de vermelho desbotado, com destaque para grafismos geométricos e linhas verticais que se entrelaçam na superfície rugosa. Pequenos ninhos de terra em formato de esfera estão incrustados em várias partes da pedra, especialmente em uma cavidade natural à direita e ao longo de uma fissura horizontal no topo. A luz natural enfatiza as texturas da rocha e as marcas deixadas pelo tempo e pela ação humana ancestral.
Foto: Reprodução/Nonato Fernandes

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Desafios para a preservação

Apesar do valor histórico, o sítio enfrenta desafios relacionados à conservação. Uma das principais questões envolve o fato de muitos sítios arqueológicos estarem localizados em áreas privadas ou próximas a regiões utilizadas para atividades agrícolas. Queirós destaca que muitas famílias vivem da agricultura há gerações nesses territórios.

Não podemos tratar o pequeno agricultor como criminoso. Muitas vezes ele sabe que aquelas pinturas são antigas, mas nunca teve acesso a um processo educativo que explique a importância desse patrimônio.
Agnelo Queirós
Arqueólogo

Para os especialistas, preservar esse tipo de registro arqueológico significa também reconhecer a história dos povos originários que habitaram o território. “Esse patrimônio precisa ser fortalecido junto com a memória dos povos indígenas”, afirma Agnelo Queirós. O arqueólogo defende que o principal caminho é a educação patrimonial e a gestão compartilhada entre poder público, pesquisadores e comunidades locais. 

Uma parede de rocha bege e rugosa apresenta diversas pinturas rupestres em pigmento avermelhado, parcialmente cobertas à esquerda por troncos e galhos de uma planta de folhas verdes. Os grafismos pré-coloniais distribuem-se de forma irregular pela superfície, variando entre manchas sólidas e padrões geométricos sutis. Na base da rocha, galhos secos cortados repousam sobre o chão, compondo um cenário que mistura natureza viva e marcas ancestrais.
Legenda: Entre grafismos geométricos e zoomorfos, destacam-se figuras conhecidas como "carimbos" — representações de mãos humanas que sugerem uma tradição cultural compartilhada com outros povos da região.
Foto: Reprodução/Nonato Fernandes

Entre os fatores que mais impactam a conservação estão as ações humanas, como desmatamento, queimadas e visitação desordenada.

O historiador Sávio Barbosa explica que também existem fatores naturais que afetam a preservação: “As intempéries físicas estão ligadas à variação de temperatura, ao vento e à chuva. A rocha se dilata durante o dia e se contrai à noite, gerando fissuras ao longo do tempo”, explica.

Além disso, processos químicos e biológicos também contribuem para o desgaste das pinturas, como a ação de umidade, líquens, fungos e microrganismos que se fixam na superfície das rochas.

Uso educativo e social

Uma das possibilidades apontadas pelos especialistas é transformar esses locais em espaços educativos e de valorização cultural. Agnelo Queirós defende que o ideal seria transformar esses sítios em laboratórios "a céu aberto" para escolas públicas. Ele cita como exemplo a existência de escolas próximas ao sítio cujos estudantes aprendem sobre história pré-colonial sem nunca terem visitado o local.

Além da educação, outra possibilidade seria o desenvolvimento de turismo de base comunitária, envolvendo moradores na gestão e na valorização do patrimônio. “Quando as pessoas entendem que aquele patrimônio também faz parte da história delas, o cuidado aumenta”, afirma o arqueólogo.

O historiador Sávio Barbosa também defende estratégias que conciliem preservação e desenvolvimento local. Entre as possibilidades estão projetos de economia criativa, formação de guias locais, produção cultural e turismo arqueológico responsável.

Cadastro e proteção legal

O sítio Córrego da Onça já possui registro no cadastro nacional de sítios arqueológicos, mantido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Segundo Agnelo Queirós, o primeiro cadastro foi realizado pela arqueóloga Jacionira Coelho na década de 1990. Posteriormente, o local passou por um processo de recadastramento, que atualiza informações como localização, estado de conservação e possíveis pesquisas realizadas no local.

Uma imagem aérea revela um extenso paredão rochoso que atravessa uma paisagem rural verdejante, cercada por áreas de cultivo e mata densa. A formação de pedra, onde se localiza o sítio arqueológico, estende-se horizontalmente pelo centro da cena, ladeada por uma estrada asfaltada que corta a vegetação ao fundo. O cenário é iluminado pela luz do dia sob um céu com nuvens esparsas, destacando a integração entre o patrimônio histórico e a natureza local.
Legenda: Do alto, o sítio Córrego da Onça revela sua magnitude em Massapê, no interior do Ceará.
Foto: Reprodução/ Adalto Mesquita e Nonato Fernandes

Pela legislação brasileira, todos os sítios arqueológicos são considerados bens protegidos da União.

A reportagem procurou o Iphan e a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) para comentar a situação do sítio arqueológico, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. A gestão municipal de Massapê também foi contatada, mas não respondeu de forma conclusiva aos questionamentos enviados.

*Estagiária supervisionada pelas jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.

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