Musicista formada por orquestra do Interior do CE é aprovada em concurso da Aeronáutica
Ana Cristina já havia tentado uma aprovação em outros oito concursos militares.
Uma musicista de 21 anos natural de Croatá, cidade no interior do Ceará, acabou de realizar o sonho de entrar para as Forças Armadas do Brasil. Ana Cristina Oliveira de Abreu esperou muito por esse momento, mas ela não queria um posto tradicional: Cristina lutou para se tornar sargento músico e hoje, finalmente, está vivendo em um quartel em Guaratinguetá (SP), passando pelo processo formativo para começar a atuar nessa função. Ela deve se formar no fim deste ano.
Cristina é multi-instrumentista. Toca violoncelo, trombone e bombardino. No concurso em que passou, foi avaliada no bombardino, que não é o instrumento que ela toca há mais tempo, então o processo de preparação foi bem difícil.
A história da Ana Cristina com a música começou em Croatá mesmo, no Ponto de Cultura Vamos Fazer Arte. Ela fazia parte da Orquestra Filarmônica Estrelas da Serra, que integra o projeto social. O maestro da Orquestra, Hélio Júnior, contou que, para participar das aulas, a jovem caminhava cerca de seis quilômetros, pois morava em um sítio longe do centro da cidade com a mãe e os irmãos. Cristina fez esse trajeto diariamente durante dois anos.
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Depois disso, ela conseguiu um emprego de babá na cidade e passou a morar na casa da família. Tomou essa decisão para poder ficar mais perto do local das aulas. Mas, ainda assim, não conseguia se dedicar tanto aos estudos por conta do trabalho.
Foi quando Hélio percebeu que Cristina precisava de um apoio maior para realizar o sonho dela: ser musicista das Forças Armadas. O maestro entendeu que, caso ela quisesse passar nos concursos militares, precisaria se dedicar mais. Hélio chamou Cristina para conversar e disse que ela podia trabalhar meio período na parte administrativa do projeto. Ele passou a pagar para Cristina o mesmo que ela recebia como babá.
Essa é uma das razões para Cristina ter conseguido realizar o sonho: ela passou a trabalhar menos, ter mais tempo livre para estudar e ganhando o mesmo salário de antes.
A saída da casa da família se concretizou quando uma tia da jovem musicista foi morar perto do centro de Croatá e levou Cristina para morar com ela, dando todo o suporte necessário.
Projeto social em Croatá
Cidade no interior do Ceará com uma população estimada de 17.481 pessoas, conforme o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Croatá abriga um projeto social que dá aulas de música para pessoas de todas as idades. Atualmente, são 250 alunos atendidos. Entre eles, há crianças de 4 anos e idosos com mais de 70.
O Ponto de Cultura Vamos Fazer Arte existe desde 13 de julho de 1998 e 25 colaboradores fazem com que esse trabalho continue. Os salários deles vêm de editais estaduais e federais.
O projeto recebe majoritariamente alunos de Croatá, mas também de Ipueiras e Guaraciaba do Norte. As aulas são totalmente gratuitas.
O projeto trabalha com o ensino de musicalização infantil e flauta doce, que, segundo a coordenadora pedagógica da iniciativa, Gessica Monteiro, geralmente é onde as crianças começam. Há ainda aulas de violão, guitarra, contrabaixo elétrico, bateria, instrumentos de sopro, violino, viola, contrabaixo acústico e violoncelo.
Para Gessica, o objetivo do projeto não é criar músicos, muito menos músicos profissionais, mas transformar a vida dos jovens.
Aqui no Interior, muitas vezes, as pessoas não enxergam nos estudos uma possibilidade. E é isso que a gente quer transformar. A gente quer que eles vejam que, através da música, você pode tornar a sua vida e a da sua família para melhor."
Além das aulas de música, o Vamos Fazer Arte prepara os jovens para concursos militares, com foco em postos relacionados à música, e para vestibulares do curso de Música em universidades tradicionais. O projeto possui parcerias com empresas privadas que conseguem custear passagens de ônibus para que os alunos possam viajar para os locais onde vão acontecer as provas. Ana Cristina conseguiu fazer todas as provas graças a isso.
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Outros cinco jovens que passaram pelo projeto também foram aprovados em concursos militares. Cristina foi a sexta, mas a primeira mulher. Gessica conta que esse trabalho de preparação para concursos militares feito pelo projeto começou depois que um aluno descobriu a possibilidade desse tipo de carreira e contou para os outros.
O encantamento dos estudantes criou a necessidade de toda a equipe do Vamos Fazer Arte estudar o funcionamento dos concursos militares e começar esse trabalho preparatório.
Dentro do Ponto de Cultura Vamos Fazer Arte, existe a Orquestra Filarmônica Estrelas da Serra, onde Ana Cristina construiu a base musical. A orquestra foi fundada por Hélio Júnior em 2009, muito tempo depois da criação do projeto em si. No começo, a orquestra funcionava mais como uma banda, sem os instrumentos clássicos de cordas e de sopro, que vieram somente em 2020.
Hélio conta que a ideia da criação da orquestra surgiu porque ele queria realizar um trabalho de combate às drogas e lutar contra a violência policial. Para ele, a orquestra é uma forma de prevenção na vida dos jovens.
Centro cultural em construção
O Vamos Fazer Arte está dando um grande passo em direção a uma expansão do projeto. Hélio Júnior está à frente da construção de um centro cultural em Croatá, que receberá as atividades dos alunos do Vamos Fazer Arte e ações de intercâmbio cultural.
As obras começaram em 2021 e devem ser concluídas em 2027. O dinheiro para a construção está vindo do que as leis de incentivo à cultura conseguem proporcionar e das economias de Hélio. O prédio vai ter 2.500 metros quadrados. As atividades do centro vão contemplar pessoas de toda a Serra da Ibiapaba.
O prédio será composto por 20 salas de aula que serão usadas para ensino de música, dança, teatro, esportes e informática. Os alunos vão poder contar também com uma biblioteca, um refeitório e uma quadra coberta para realização de atividades esportivas, como artes marciais, futsal e capoeira. O prédio ainda deve sediar eventos culturais.
*Estagiária sob supervisão das jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.