Obras de arte sofrem com vandalismo e deterioração em Fortaleza

Criações do cearense Sérvulo Esmeraldo são alguns dos principais alvos. Casos acendem debate sobre conservação.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Na imagem, fotografia de plano médio de uma escultura de silhueta preta intitulada
Legenda: Ação de vandalismo retirou parte superior da obra 'La Femme Bateau', na Ponte dos Ingleses.
Foto: Thiago Gadelha.

A situação não é nova, mas a recorrência assusta. Obras de arte públicas em Fortaleza voltam a protagonizar debates acerca da importância de preservar e manter um patrimônio nosso. Muito dessa reflexão nasce da forma como algumas delas se encontram na Cidade: deterioradas, vandalizadas ou até mesmo retiradas do local original. 

Criações de Sérvulo Esmeraldo (1929-2017) são alguns dos principais alvos. Três meses após a destruição da obra “Muro Cinético” – localizada na sede do Centro Administrativo Bárbara de Alencar, bairro Edson Queiroz – duas produções do artista passam por situação tão desafiadora quanto. É o caso de “La Femme Bateau”, na Praia de Iracema; e “Cones”, no Parque Linear Riacho Pajeú, conhecido como Parque das Esculturas.

A primeira, concebida em 1994, perdeu a parte superior e entristece o olhar de quem passa pela Ponte dos Ingleses e elege a escultura como um dos símbolos culturais de Fortaleza. A segunda, de 1997, enfrenta semelhante imbróglio: foi encontrada caída nesta semana, resultado de processo de deterioração observado há tempos. Forte ferrugem, por exemplo, consome os discos integrantes do trabalho, descaracterizando o projeto original.

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Presidente do Instituto Sérvulo Esmeraldo e viúva do artista cratense, a curadora e pesquisadora de Artes Visuais Dodora Guimarães encara o panorama com perplexidade e tristeza. “Tive a oportunidade de acompanhar grande parte do trabalho do Sérvulo na criação e execução dessas obras. Sei do empenho, da dedicação e do amor dele por cada projeto. Sinto muito que o Estado e a Prefeitura de Fortaleza não deem importância a isso”, diz.

Ela também reflete sobre o fato de a Capital possuir grande confluência turística, ao mesmo tempo que um olhar “desprotegido” sobre o próprio patrimônio artístico. “Lamento muito essa falta de interesse e de respeito”.

Situação da ‘La Femme Bateau’

Para Dodora, o que aconteceu com a “La Femme Bateau” foi vandalismo. Ela soube da ausência da “cabeleira” da escultura – tendo em vista a criação representar uma “mulher-barco” – a uma semana do primeiro ano de reinstalação da obra na Ponte dos Ingleses. O trabalho voltou a ocupar a paisagem fortalezense em junho de 2024 após seis anos de ter sido arrancada pela força das águas do mar, em março de 2018.

Ao consultar Ari Josino – profissional responsável pelo restauro da escultura – a curadora concluiu que o acontecimento foi, de fato, depredação. “Comuniquei tudo imediatamente à secretária da Cultura de Fortaleza, Helena Barbosa, posto que foi por meio da Seculfor que o trabalho de restauro da escultura foi feito. Ela foi solidária de primeira hora à questão. Prometeu ver e estudar, já garantindo que a obra seria restaurada”.

Em nota, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza, por meio da Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Cultural, confirmou que a obra “La Femme Bateau” foi objeto de ação de depredação, o que acarretou perda da porção superior do monumento.

Segundo o texto, neste momento a pasta instrui processo de contratação do restauro da obra “em constante diálogo com o Instituto Sérvulo Esmeraldo”, instituição responsável pela recuperação do acervo do artista. 

“O processo de restauro será realizado por profissional especialista capacitado para a realização do trabalho, devidamente indicado pelo Instituto, e será acompanhado pelos técnicos da CPHC, garantindo que o elemento seja recuperado e volte ao estado original concebido para o local que está instalado”, informa o órgão.

Pensando de forma mais ampla, Dodora Guimarães percebe a situação como "um feminicídio artístico". "A ‘La Femme Bateau’ representa uma mulher, e uma mulher que caiu na graça da população. As pessoas são apaixonadas por ela. Quando um vândalo vai lá e ataca, cortando justamente a cabeleira, a parte feminina da obra, está atacando uma mulher e também uma cidade".

A obra inspirou a nova criação da marca de moda cearense Baba e estará na campanha do novo empreendimento do Beach Park, envolvendo um dos espigões da Beira-Mar de Fortaleza.

Obra ‘Cones’ é recolhida de parque

Já a problemática envolvendo a obra “Cones”, no Parque das Esculturas, foi descoberta por Dodora devido a imagens enviadas a ela pelo fotógrafo Francisco Flor. Segundo a curadora, o monumento foi feito por Sérvulo exatamente para integrar o conjunto de obras do Parque Linear Riacho Pajeú, no Centro.

“Torço para que a Prefeitura tenha dignidade de pelo menos retirar a obra do local onde ela está caída e leve a outro para que, juntos, possamos decidir que destino devemos dar. É o mínimo que peço neste momento”.

Na imagem, fotografia colorida em plano aberto da escultura
Legenda: Obra 'Cones' foi encontrada caída nesta semana, resultado de processo de deterioração observado há tempos.
Foto: Ismael Soares.

A Secretaria Regional 12, onde está localizado o Parque das Esculturas, informa que enviou, na tarde da última quarta-feira (4), uma equipe técnica ao local para avaliação inicial da obra. 

De acordo com a nota, “o monumento foi recolhido e a demanda foi encaminhada à Central de Serviços da Coordenadoria Especial de Apoio à Governança das Regionais (Cegor), órgão responsável pelos procedimentos relacionados ao reparo de monumentos não tombados”.

O texto salienta também que a Coordenadoria Especial de Apoio à Governança das Regionais (Cegor) está em contato com Dodora Guimarães para definição das providências necessárias à recuperação da obra. “Ressalta-se que esse tipo de processo envolve etapas técnicas, como análise detalhada do estado da peça, estudo de viabilidade e elaboração de orçamento”, frisa.

Por fim, o órgão destaca que o Parque das Esculturas enfrentou, ao longo dos anos, recorrentes atos de depredação, o que contribuiu para a ausência de parte das obras originais e para a atual condição de conservação do conjunto

“As intervenções de manutenção em equipamentos e monumentos públicos são realizadas conforme a necessidade identificada, sempre precedidas de estudos de viabilidade técnica, com o objetivo de assegurar a adequada preservação do patrimônio público”, diz a nota.

O que diz a CDL e a Secultfor

A reportagem igualmente buscou a Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL) – entidade que compartilha a gestão do Parque com a Prefeitura – e a Secultfor para saber mais informações sobre o assunto.

Na imagem, close-up em ângulo picado da escultura
Legenda: Forte ferrugem consome os discos integrantes da obra 'Cones'.
Foto: Ismael Soares.

A nota da CDL é breve: “A CDL de Fortaleza tem como responsabilidade somente os serviços de jardinagem e limpeza do Parque Pajeú, não podendo responder por equipamentos instalados em locais públicos”.

Já a Secultfor alega que a manutenção de praças, monumentos e obras artísticas em via pública, em regra, não é de competência da pasta, e que ela assumiu a recuperação da “La Femme Bateau” “em virtude do monumento escultórico estar integrado à Ponte dos Ingleses, bem tombado sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal de Fortaleza”.

“Neste sentido, a Secultfor, por meio da Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural, mantém constante diálogo com a presidenta do Instituto Sérvulo Esmeraldo e segue em processo para a contratação do serviço do restauro, em fase de instrução”, sublinha.

Na imagem, close-up da extremidade inferior da escultura
Legenda: De acordo com a Secretaria Regional 12, monumento foi recolhido e demanda foi encaminhada à Cegor.
Foto: Ismael Soares.

Ao mesmo tempo, a secretaria reconhece o legado de Sérvulo Esmeraldo para a cidade e lamenta a deterioração da obra. Igualmente salienta que, de modo geral, cabe à Secultfor, por meio da Célula de Gestão do Patrimônio Material, “acompanhar e monitorar a realização de obras em imóveis privados ou espaços públicos tombados pelo Município, para garantir a salvaguarda dos locais, sendo a manutenção realizada, ordinariamente, pela Secretaria Regional da área, salvo pactuação entre as Secretarias vinculadas ao Paço Municipal”.

Crise de pertencimento e falha de manutenção

Fato é que, em Fortaleza, a arte pública ocupa lugar de tensão e ressignificação. A visão é do arquiteto e urbanista Diego Zaranza, integrante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará (CAU/CE). Para ele, obras espalhadas no tecido coletivo transitam entre o monumento histórico tradicional – a exemplo das estátuas de Iracema – e a arte urbana contemporânea, como grafites e murais. 

A cidade se apropria dessas produções de forma heterogênea: enquanto o poder público a utiliza para requalificação de espaços, a população se apropria dela como marco geográfico, símbolo de identidade comunitária e ferramenta de denúncia social”, situa.

Na imagem, fotografia em plano médio com profundidade de campo reduzida. No fundo, centralizada e em foco, está a escultura preta
Legenda: Para estudioso, falta de educação patrimonial transforma a obra de arte em um objeto 'estranho' à população.
Foto: Thiago Gadelha.

Por outro lado, o vandalismo recorrente em obras de expoentes como Sérvulo Esmeraldo e Corbiniano Lins – sobre este último, basta lembrar a escultura “Mulher Rendeira”, destruída a marretadas em 2020 – sinaliza uma crise de pertencimento e uma falha sistêmica de manutenção.

Sob a perspectiva de Diego, a falta de educação patrimonial transforma a obra de arte em um objeto “estranho” ou invisível na paisagem para a população. 

“Para o poder público, a ausência de um cronograma preventivo de restauro e de vigilância adequada relega essas peças ao abandono, o que, pela ‘Teoria das Janelas Quebradas’ [conceito norte-americano no qual a desordem é encarada como fator de elevação dos índices da criminalidade], atrai e autoriza novas degradações. Além disso, a cidade de Fortaleza não conta com nenhum acautelamento de obras de artes”.

O que deve ser feito para o patrimônio ser preservado

A solução precisa ter caráter urgente, conforme Diego Zaranza. Envolve a implementação de dois pilares: um Inventário Sistemático e o Acautelamento da materialidade (Tombamento)

Trocando em miúdos, a cidade precisa deixar de tratar obras de arte como mobiliário urbano comum e passar a tratá-las como bens culturais. “Falta, sobretudo, uma política de Estado que garanta orçamento contínuo para manutenção e que integre essas obras ao cotidiano educacional da população, gerando um sentimento de ‘propriedade coletiva’”, sugere.

“A importância da arte pública reside na capacidade de democratizar o acesso à cultura e humanizar o ambiente urbano. Ela retira a arte das galerias fechadas e a entrega ao cotidiano do cidadão, servindo como um ‘museu a céu aberto’”. 
Diego Zaranza
Arquiteto e urbanista

Esse legado, ainda frisa o estudioso, é relevante porque constrói a memória coletiva e o sentimento de pertencimento. “Uma cidade sem referências artísticas é uma cidade muda, sem camadas históricas e incapaz de dialogar com as gerações futuras”.

Por fim, ele afirma haver um cenário preocupante de degradação de obras icônicas, a exemplo dos painéis de azulejaria em prédios modernistas do Centro e esculturas metálicas na orla. O problema central, contudo, não é apenas o vandalismo, mas a imperícia nas intervenções

Na imagem, fotografia em plano geral e perspectiva profunda. Um antigo píer de concreto, estreito e desgastado, estende-se em linha reta até o horizonte. No final dele, a pequena silhueta da escultura
Legenda: Legado da arte pública é relevante porque constrói memória coletiva, situa pesquisador.
Foto: Thiago Gadelha.

Para Diego, na maioria das vezes os reparos em esculturas urbanas são executados como simples obras de engenharia civil ou manutenção predial, sem o devido estudo de materiais ou o acompanhamento de um restaurador especializado. “Isso resulta em perda de texturas originais, alteração de cores e aceleração da corrosão interna”.

Por outro lado, aponta caminhos possíveis, a começar por iniciativas de gente que age na contramão do descuido. “Podemos observar exemplos de boas práticas sendo realizadas pela Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. No momento, ela realiza formações e restaura esculturas do artista Zé Pinto”.

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