Por que o Ceará se destaca entre os apaixonados por observar o céu? Entenda

Assim como os demais estados nordestinos, Ceará se destaca pela boa visualização dos astros.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Ceará tem boa visualização dos astros durante maior parte do ano.
Legenda: Ceará tem boa visualização dos astros durante maior parte do ano. Foto de apoio ilustrativo.
Foto: Davi Rocha.

Em todo o Brasil, apenas alguns estados conseguem ter boas condições para observação dos astros no céu durante todo o ano. Entre os locais que se destacam nesse sentido está o Ceará, que, por estar próximo à Linha do Equador, consegue oferecer a entusiastas da astronomia, amadores e profissionais, a possibilidade de apreciar e compreender mais sobre o cosmos.

Segundo Ednardo Rodrigues, professor de astronomia e colunista do Diário do Nordeste, o Estado possui algumas características que o tornam um dos privilegiados nesse sentido. “O Ceará está numa latitude de 5° Sul. Isso é pouco, quase na Linha do Equador. Por conta disso, nós temos uma boa visualização do céu, quase completa”, explica. 

“A gente só não consegue ver 5° abaixo da linha do horizonte para o Norte. Por isso, a gente não consegue ver estrelas polares. Acima disso, a gente consegue ver todo o céu, durante todo o ano”, completa.

Família observa astros no telescópio do Planetário Rubens de Azevedo.
Legenda: Família observa astros no telescópio do Planetário Rubens de Azevedo.
Foto: Ana Raquel S/Divulgação.

Além da localização, o clima do Estado é majoritariamente semiárido, o que também favorece a observação e garante pelo menos seis meses de céu aberto, ou seja, em que as condições climáticas possibilitam mais facilmente a observação a olho nu.

Assim como o Ceará, os demais estados do Nordeste costumam ter boa visibilidade ao longo do ano pelo clima e baixa nebulosidade.

Para o professor Ednardo, no entanto, outra característica do Ceará permite que a astronomia esteja em destaque por aqui: o interesse dos moradores do Estado pela área de estudo. “O grande sucesso da observação no Ceará é o cearense. É a paixão que o cearense tem pela astronomia”, destaca.

Eclipse observado em Sobral comprovou teoria de Einstein

Museu do Eclipse, em Sobral, celebra momento histórico da astronomia no Ceará.
Legenda: Museu do Eclipse, em Sobral, celebra momento histórico da astronomia no Ceará.
Foto: Reprodução/Museu do Eclipse.

De acordo com o especialista, essa conexão do Estado com a astronomia ganhou novos contornos após o eclipse solar total de 1919, que se tornou um marco definitivo para a Ciência. 

Na época, um grupo de cientistas brasileiros e ingleses escolheu a cidade de Sobral, no interior do Ceará, para observar o fenômeno e comprovar a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, publicada em 1915. 

“Acreditava-se que existia um planeta próximo do Sol que ‘perturbava’ a órbita de Mercúrio. Albert Einstein propôs uma teoria de que, para isso, não necessitava de um outro planeta – e esse outro planeta de fato nunca foi descoberto –, o que acontecia era uma pequena incompreensão na gravidade, uma anomalia gravitacional devido à proximidade com o Sol”, detalha Rodrigues. 

“O eclipse de 1919 comprovou que a teoria de Albert Einstein estava correta com uma precisão gigantesca, e isso foi muito bem observado em Sobral". Segundo a CNN, a comprovação ocorreu pela manhã, quando a lua se sobrepôs completamente ao sol por cerca de cinco minutos.

“Por conta disso, foram feitas diversas campanhas de divulgação e promoção da astronomia”, explica Ednardo Rodrigues.

Nas últimas décadas, o Estado ganhou espaços de observação e divulgação científica em diferentes pontos. Um dos principais é o observatório do Museu do Eclipse, inaugurado em Sobral em 1999. Na Capital, há ainda o Observatório Astronômico Otto de Alencar, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), e o Planetário Rubens de Azevedo, no Dragão do Mar, que possui um curso popular de astronomia e sessões mensais de observação abertas ao público. 

Em Quixadá, o Hotel da Pedra dos Ventos também possui um observatório, de caráter privado, para quem quer apreciar o céu. A cidade é uma das mais procuradas por quem tem esse interesse. “[Além da científica] Quixadá ainda tem a questão ufológica”, lembra Ednardo.

“Aquela região é plana, que tem alguns maciços, o que desperta muito a curiosidade das pessoas. Por ter esse horizonte limpo, as pessoas veem muitas coisas, né? As pessoas veem luzes e coisas não identificadas, que despertam o imaginário humano”, pontua.

Interpretar o céu: uma tecnologia indígena

Apesar dos avanços da astronomia moderna, o professor Ednardo Rodrigues relembra que muito do que se faz hoje nesse sentido já existia enquanto tradição de diversos povos indígenas do Ceará.

“Eles já tinham uma tradição de observar os astros e tinham constelações indígenas”, afirma. “Sabiam a época de chuvas, quando elas iam acabar e quando iam começar, a partir das observações astronômicas”.

O antropólogo Babi Fonteles relembra que a relação entre os povos originários e os astros é de “importância fundamental e profunda, em todos os momentos da vida”, não só no Estado, mas no Brasil inteiro. 

“Seja por ocasião do plantio, da colheita, por ocasião das festas, do nascimento das crianças, do sepultamento dos mortos, da relação com os animais, com as plantas...”, lista. Esse interesse é, portanto, parte importante da nossa ancestralidade.

Fonteles, que é professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que essa conexão existe porque, para os povos originários, o ser humano não está acima de nenhuma outra forma de vida. “O homem não é o centro do universo, em resumo. O homem está dentro de algo muito mais amplo. Os astros indicam isso”, explica.

Para diversos povos do Ceará, assim como no resto do País, os astros estão além de corpos físicos: são expressões de formas de vida espirituais que se apresentam como corpos celestes.

“A prática de observar o céu e de regular sua vida pelos astros é algo generalizada em todos esses povos originários – com as suas especificidades, mas é generalizada. É muito natural, nessas culturas ancestrais, pautar a própria existência exatamente por essa relação com os astros”, explica o professor e pesquisador.

Por isso, a compreensão do comportamento dos astros influencia diretamente a rotina dos povos originários. Por meio desse conhecimento, é possível conhecer melhor o ciclo das estações e como elas impactam clima, colheita, plantio, marés e muito mais.

Esse tipo de análise, que data de milhares de anos, não só influenciou técnicas científicas como parte de um pressuposto científico, aponta Babi. “Esses conhecimentos, chamados populares, têm uma base científica muito maior do que se pode pensar, porque estão baseados na mesma prática que a Ciência faz, que é a da observação, do aprender por erro e acerto, de tentar identificar padrões”, explica. 

Segundo Fonteles, povos originários ocupam as terras que hoje compõem o Ceará há 50 mil ou 60 mil anos, conforme pesquisas arqueológicas mais recentes. É possível presumir que, durante boa parte desse período, os saberes relacionados ao céu guiaram a vida de diversas comunidades.

“Cada vez mais a gente vai descobrindo, junto com a pesquisa arqueológica, os sinais dessa presença realmente milenar. E esses conhecimentos são até mesmo inerentes não só ao ser humano, mas a outras espécies, que se guiam exatamente por essa relação com os astros”, conclui.

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