Obra de Sérvulo Esmeraldo é destruída e reconstrução não é garantida: ‘Descaso’
‘Muro Cinético’ ocupava a sede do Centro Administrativo Bárbara de Alencar.
Não está mais lá. Foi a constatação do coordenador comercial Carlos Almada Júnior ao tentar fotografar a escultura “Muro Cinético”, localizada na sede do Centro Administrativo Bárbara de Alencar, bairro Edson Queiroz, em Fortaleza. A obra, assinada pelo cratense Sérvulo Esmeraldo – um dos maiores nomes das Artes Plásticas do Brasil – foi removida do local onde estava há 47 anos, desde 1978. O paradeiro final foi a demolição.
“O ‘Muro Cinético’ foi destruído”, sentencia Dodora Guimarães, presidente do Instituto Sérvulo Esmeraldo. Segundo ela – cujo conhecimento sobre a situação da obra aconteceu após visita de Carlos Almada à entidade que representa – não é a primeira vez que isso ocorre com o legado artístico de Sérvulo, e acende mais uma vez o alerta: é preciso preservar.
“É muito descaso, uma irresponsabilidade que nós não podemos hoje, no século XXI, acatar. Um país que prega a reconstrução, que luta pela democracia, não pode abandonar o patrimônio artístico público. Isso é inegociável”, protesta.
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“A gente não imagina que isso pode acontecer, sobretudo provocado por órgãos do Governo do Estado. Isso é grave porque abre um precedente tremendo. Daqui pra frente, todos os órgãos públicos e instituições particulares têm o direito de destruir obras de arte”.
Carlos Almada segue o mesmo raciocínio. Criador da Coleção Sérvulo Esmeraldo da Cidade – título dos álbuns virtuais dedicados a fotografias realizadas por ele dos diferentes trabalhos de Sérvulo espalhados por Fortaleza – ele conta que ficou sabendo do “Muro Cinético” em pesquisas virtuais, por onde acessou a localização da escultura. Ao passar em frente ao Centro Administrativo Bárbara de Alencar e não encontrar a peça, achou estranho.
“Segui, então, com os endereços das outras obras, mas aquela menção do Muro não saía da cabeça. Fiquei pensando em como algo tão grande em extensão simplesmente não estava mais lá. Na semana seguinte, me dirigi à recepção do Palácio Iracema. Perguntei ao segurança, e ele não sabia do que eu estava falando. A recepcionista ouviu e disse que soube que ali onde hoje tem as grades, já teve um muro”.
O primeiro sentimento, recorda, foi de decepção. Depois, de surpresa. Como uma obra de um artista tão relevante simplesmente foi apagada? Nem um registro arqueológico sobrou.
“Considero a gestão muito falha, cheia de lacunas. A cultura do Ceará não é de manutenção de nosso patrimônio artístico e arquitetônico. As coisas simplesmente ou se acabam com o tempo ou são destruídas. A manutenção não é programada e, quando é tomada uma ação, a obra ou o prédio estão em péssimo estado. A cidade perde, todos nós perdemos”, lamenta Almada.
Entre as ideias que propõe, está o inventário, por parte do Estado e da Prefeitura, das obras de arte públicas, além de checagem real e cuidadosa da situação das peças. “Também ter um planejamento prévio e um cronograma a ser seguido, com uma equipe dedicada para manutenção, restauro e segurança”.
O que dizem os órgãos públicos
Em nota, a Procuradoria-Geral do Estado do Ceará – cuja sede está no Centro Administrativo Bárbara de Alencar – informa que foram realizadas, pela Superintendência de Obras Públicas (SOP), intervenções relativas à estrutura do muro em questão.
“A avaliação técnica reconheceu o comprometimento da estrutura e o risco de desabamento, representando perigo aos usuários da unidade administrativa, bem como aos pedestres que transitam nas calçadas da instituição”, diz o texto.
Antes da intervenção, a SOP inclusive cientificou a PGE-CE da condição, “alertando para a necessidade de providências”. “Ressalta-se que anteriormente à realização das obras foram consultados órgãos e profissionais competentes, dentre eles a Secretaria Estadual da Cultura, para tratar da questão artística e cultural. Não foi, no entanto, identificado tombamento, tampouco que o muro, na situação em que se encontrava, constituía obra de arte”.
“Considerada a urgência no reparo, em atenção ao bem-estar das pessoas e ao adequado cuidado com os espaços institucionais, a SOP orientou e conduziu a instalação de um gradil metálico no entorno do Centro Administrativo”.
Ainda conforme o órgão, a PGE e a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará estão em diálogo com o Instituto Sérvulo Esmeraldo, por meio de Dodora Guimarães. “Reafirma-se, por fim, o absoluto respeito ao patrimônio cultural do Estado”, conclui a nota.
A SOP, por sua vez, também por meio de nota, confirmou que realizou uma vistoria técnica a pedido da PGE, na qual “foram detectados problemas na estrutura do muro, parte sul, do Centro Administrativo Bárbara de Alencar, com risco de desabamento, representando perigo aos usuários da unidade administrativa e pedestres que transitam nas proximidades”.
“Diante da urgência no reparo, a SOP, mediante solicitação da PGE, providenciou a instalação de gradil metálico em todo o entorno do Centro Administrativo Bárbara de Alencar”. Além de nota, a reportagem também solicitou envio do laudo técnico referente à situação da obra. Nenhum dos órgãos enviou.
Secretaria da Cultura articula conversa
Em entrevista ao Verso, Luísa Cela, secretária da Cultura do Ceará, disse que, ao tomar conhecimento da demolição do Muro Cinético, fez contato com Dodora Guimarães. Agora, a pasta articula uma conversa entre PGE, Secult e a presidente do Instituto Sérvulo Esmeraldo para encontrar “um caminho de reconstrução da obra”.
“Doutor Rafael [Rafael Machado Moraes, Procurador-Geral do Estado do Ceará] está diretamente envolvido e preocupado em criar essa resposta e esse diálogo junto à Dodora, e estamos fazendo essa articulação”, menciona Luísa. Uma reunião para tratar sobre o assunto deve acontecer na próxima semana.
Questionada se a obra será, de fato, reconstruída, a secretária explica que, a priori, o pleito de Dodora Guimarães é exatamente este e, pelo que a gestora compreendeu, o desejo é de que o Muro volte ao mesmo lugar onde sempre esteve.
“Mas é isso, vamos conversar, para que, de fato, seja feito esse acordo. Temos um extremo respeito – tanto pelo legado do Sérvulo quanto pela Dodora, não apenas como viúva de Sérvulo, mas também como profissional, curadora, gestora e produtora cultural e pelo trabalho que ela faz no Instituto, de memória e difusão das Artes Visuais aqui no Estado do Ceará. É um grande nome também da arte cearense”.
No fim das contas, embora ainda em suspenso, a perspectiva é unir forças para garantir que a obra de arte retorne à paisagem da Capital. “Dodora já nos sinalizou que ela tem todo o projeto, e que lá existem as condições da reconstrução. Não posso dizer o que será realmente feito porque será fruto da conversa que teremos. Mas nosso compromisso e respeito com Sérvulo, Dodora e a arte cearense, são o que vão guiar nossa condução”.
Instrução de tombamento já havia sido apresentada
Dodora Guimarães, por sua vez, diz que, ainda em dezembro de 2023, foi apresentada por ela à Secretaria da Cultura do Ceará uma instrução de tombamento das 37 obras públicas ou integradas à arquitetura no Ceará de autoria de Sérvulo Esmeraldo. “Lamentavelmente, todas estão precisando de medidas de preservação – algumas de restauro e outras mesmo de reconstrução, como é o caso do Muro Cinético agora”, pontua.
Para ela, era de conhecimento a necessidade de preservação do patrimônio. Mesmo assim, o “Muro Cinético” veio abaixo. “Se a obra estava, como afirma a Superintendência de Obras Públicas, prestes a desabar, era necessário que, em se tratando de uma obra de arte, ela fosse restaurada. Caso as instituições não soubessem como realizar esse processo, que procurassem a instância responsável pelo legado do artista Sérvulo Esmeraldo”, defende.
“O que queremos é a reconstrução do muro porque é uma obra de arte pública, patrimônio do povo cearense, da arte brasileira. O Governo do Ceará deveria se ocupar da preservação do próprio patrimônio artístico. Temos uma falta com os artistas e com a arte cearense no que toca ao patrimônio artístico urbano”.
Importância da obra de Sérvulo Esmeraldo
Arquiteto, urbanista e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, Romeu Duarte posiciona Sérvulo Esmeraldo como um dos maiores artistas visuais contemporâneos brasileiros, com obra reverenciada no país e no exterior. Em Fortaleza, bem como em outros municípios (Crato, Cruz e Quixadá), as peças compõem espaços urbanos e acham-se integradas à arquitetura, em âmbitos públicos e privados.
O “Muro Cinético” mesmo foi concebido a partir de concreto policromado, e tinha 42 metros de extensão. A construção era para o Centro Administrativo do Banco do Estado do Ceará, localizado à época na Avenida Washington Soares. Pintado de branco e listras com três tons de azul, dava ao espectador a impressão de movimento óptico quando num programa sequencial. Em suma: não era parado, mas inquieto.
Para Romeu, preservar o legado de Sérvulo é proteger uma das mais altas expressões artísticas do Ceará, do Brasil e do mundo. “Pena que muita gente não entenda nem saiba disso. O que aconteceu com o ‘Muro Cinético’ sinaliza que a falta de sensibilidade e a ignorância, bem como a inexistência de uma política cultural de proteção de acervos relevantes que inclua ações de identificação e documentação, proteção e promoção, continuam infelizmente existindo entre nós”.
Igualmente, considera que o estado precário da obra “revela a omissão do Estado para com um próprio seu, de grande valor artístico, tombado provisoriamente. Se apresentava problemas de conservação, era para ser recuperado e não demolido”. Não à toa, aponta caminhos possíveis para a situação geral se transformar.
Envolve, sobretudo, efetuar o que o estudioso chama de “tríade do patrimônio cultural”: identificação e documentação; proteção e promoção. Nesta última parte, visualiza a possibilidade de realização em conjunto entre o Instituto Superior de Estudos e Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais do Ceará (Ise) e a Secult por meio de publicações, exposições e produtos audiovisuais.
“O muro não está mais lá, apenas a memória do que havia. E a memória permanece. Sempre que alguém passar naquele local, vai perceber que ali há a alma de uma obra de arte”, conclui Dodora Guimarães.