Cearense é a única mulher na delegação do Brasil em olimpíada internacional de Física

Jovem de 16 anos detalha desafio em competir em torneio dominado por participantes masculinos.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
Jovem estudante com cabelos cacheados sorrindo enquanto escreve em um caderno, vestindo uma camiseta TIME OLÍMPICO em sala de aula.
Legenda: Estudante mantém uma rotina de horas de estudos diários, abrindo mãe de lazeres em nome dos estudos.
Foto: Divulgação.

A presença de mulheres em competições acadêmicas internacionais de ciências exatas é um desafio no Brasil. Porém, neste ano, a estudante cearense Maria Beatriz Ximenes, conhecida como Mabe, de 16 anos, conseguiu um feito simbólico: conquistar uma das quatro vagas da delegação nacional que disputará a Olimpíada Ibero-Americana de Física, prevista para acontecer no segundo semestre. 

Cursando o 3º ano do ensino médio, a adolescente conta que está orgulhosa pela classificação, mas confessa que a trajetória para participantes femininas na área é solitária e a falta de representação, em alguns momentos, pode ser um obstáculo para se manter na jornada olímpica. 

“Sinto um orgulho muito grande de ter conseguido chegar aqui, mesmo com todos esses muros invisíveis, só fico triste de não ver outras meninas. Acabo me sentindo muito sozinha. Acho que meninas também conseguem chegar até aqui, mas não ver nenhuma outra é muito desestimulante, porque parece que a gente está tentando ocupar um lugar que não é nosso”, detalha ao Diário do Nordeste.

“Às vezes, parece que não vai caber a gente ali. E a gente tem que lembrar todo dia que, sim, a gente vai caber. E, apesar de ter a mesma capacidade, por que a gente é igualmente capaz de chegar onde os meninos conseguem, parece que às vezes a gente não tem, e é difícil psicologicamente. É mais o mental, essa dificuldade de lembrar disso: 'eu vou conseguir, isso não me diferencia'.”
Maria Beatriz Ximenes, a Mabe
Estudante cearense

O isolamento relatado por Mabe teve um episódio concreto durante a preparação: no início do treinamento para as seletivas, ela dividia a sala com outra estudante, que acabou desistindo em meio ao ambiente predominantemente masculino. Diante da experiência, ela afirma que quer inspirar outras garotas a acreditarem em si mesmas e perseverar. 

"Desde o começo, sempre quis chegar lá para ser um exemplo para outras meninas, para que elas possam segurar minha mão quando se sentirem sozinhas. Às vezes elas sentem que não vão conseguir, mas conseguem. Outras vieram antes de mim, eu consegui e elas conseguirão também. Sou a primeira de muitas."

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Como surgiu a paixão pela Física

Mabe conta que o interesse pela Física surgiu antes do ensino médio, após perceber que a disciplina seria a combinação entre duas outras matérias preferidas: matemática e ciência. Para ela, enquanto os números funcionam como uma linguagem criada pelos humanos, a Física seria a ferramenta que usa essa linguagem para explicar o funcionamento do universo. 

E foi em busca do ambiente ideal para aprofundar esse conhecimento que a atual jornada olímpica da cearense começou, em 2024, quando deixou a unidade sobralense da Organização Educacional Farias Brito por uma das sedes da instituição em Fortaleza, a mais de 220 quilômetros de distância. Para ela, a mudança foi decisiva para elevar o nível de treinamento e garantir o ingresso nas principais competições do calendário mundial de Física.

Desde então, a jovem acumulou medalhas nos principais torneios nacionais. O destaque mais recente foi a prata na Olimpíada Brasileira de Física (OBF), onde alcançou a 12ª colocação e garantiu uma das quatro vagas nacionais na Olimpíada Ibero-Americana — que reúne estudantes de mais de 20 países de fala hispânica e portuguesa da América e da Europa.

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Mais que talento, dedicação e persistência

As conquistas são resultado do talento, mas, especialmente, da dedicação da estudante, que mantém uma rotina de horas de estudos diários, abrindo mão de lazer como a pintura, da qual desistiu desde o ensino fundamental para mergulhar nos livros e nas aulas preparatórias.

“Estou sempre estudando quando não estou em aula. Acordo, estudo até o início da aula e, depois que ela acaba, sigo estudando. Os únicos momentos em que paro são quando estou comendo ou então no transporte para casa”, detalha.

"Nós que somos olímpicos não somos especiais, não nascemos mais inteligentes que ninguém. Os meninos não nasceram mais inteligentes que as meninas. A gente só está acostumado a apanhar muito, continuar botando a cara a tapa, errar e aprender. É sobre gostar de ser desafiada. Acho que as meninas têm que aprender a ver a Física como um desafio: é difícil, mas elas conseguem."

Em razão do alto nível de preparação exigido pelas olimpíadas científicas, a aluna conta que os pais, inicialmente, foram contrários à ideia. Eles temiam que a filha estivesse “perdendo o ensino médio” devido à sobrecarga de estudos, à menor dedicação às outras disciplinas e à intensidade da rotina. 

“Hoje em dia, eles super me apoiam, mas, no começo, morriam de medo. Então, acho que foi muito mais sobre eu ter coragem de continuar”, frisa. 

Um dos responsáveis pela preparação da adolescente, o professor de Física Cadu Farias, destaca que a aluna é independente e madura, e consegue identificar para quais conteúdos precisa de mais auxílio. Nos treinamentos, ele explica que os discentes têm autonomia para gerenciar o próprio cronograma.  

“Eles entendem exatamente o que mais precisam. Por conhecerem muito bem qual é o calo deles, onde o sapato aperta, conseguem direcionar muito bem o estudo em cima disso. É um grau de maturidade diferente de qualquer estudante convencional de ensino médio. Parece que você está conversando com uma pessoa de graduação ou pós-graduação”, aponta o educador.

Jovem quase desistiu devido à pressão

Ao longo dos anos de dedicação integral aos torneios, Mabe confessa que pensou em parar em diversos momentos. Um deles aconteceu no fim de 2025, pouco antes de participar da seletiva que garantiu a vaga dela na Olimpíada Ibero-Americana. Na época, o episódio foi motivado por cansaço, especialmente mental. 

"Tinha certeza de que ia desistir, porque era muita pressão. Me sentia mal quando não estava estudando, e foi quando percebi que é preciso ter um pouco de tempo livre”, detalha a estudante, que, desde então, passou a reservar um dia da semana para lazer. 

"Escolhi continuar. Não seria justo com minha eu do passado, nem com a do futuro, se desistisse agora. É algo que gosto: a gente tem que lembrar por que está onde está. Apesar de tudo, estou aqui porque gosto.”
Maria Beatriz Ximenes, a Mabe
Estudante cearense

Torneio pode ser passaporte para futuro brilhante

O professor Cadu Farias explica que olimpíadas como a Ibero-Americana abordam conteúdos universitários adaptados ao ensino médio. Para além do prestígio e reconhecimento, o docente destaca que os torneios podem garantir o ingresso em instituições de ensino superior internacionais e nacionais, como a Universidade de São Paulo (USP), que oferta vagas diretas a medalhistas, dispensando a necessidade de vestibular. 

A possibilidade de usar o resultado olímpico para estudar fora do País é um dos desejos de Mabe, que pretende cursar Ciência da Computação para atuar com Computação Quântica — modelo de processamento de dados que usa princípios da mecânica quântica para solucionar problemas complexos mais rápido que computadores clássicos. 

Essa visão vanguardista é alimentada pela admiração por pioneiras como a cientista Marie Curie, primeira mulher a receber um Prêmio Nobel de Física. Para a jovem cearense, assim como a pesquisadora no passado, a Computação Quântica poderá ser responsável por uma nova revolução tecnológica.

A edição de 2026 da Olimpíada Ibero-Americana de Física acontece no Brasil, na cidade de João Pessoa, entre setembro e outubro.

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